Belém, 09/06/2021

Gourmet

Cabôca: a cervejaria que vem da floresta

Por: Elck Oliveira

Texto: Elck Oliveira

Fotos: Dudu Maroja

O empreendimento, um casarão histórico completamente restaurado, foi o último projeto terminado em vida pelo arquiteto Paulo Chaves, ex-secretário de Cultura do Estado e responsável por obras que mudaram a cara da capital paraense

O sonho de alguns amigos e sócios – de tornar Belém uma cidade cada vez mais atrativa do ponto de vista turístico e, ao mesmo tempo, uma referência na produção de cerveja artesanal – ganhou um toque de refinamento a mais, com o trabalho do arquiteto Paulo Chaves, um dos mais renomados profissionais da arquitetura paraense e brasileira, responsável por diversas obras que marcaram a história do Pará. A Cervejaria Cabôca, localizada na tradicional Boulevard Castilhos França, em frente ao complexo Estação das Docas – este também uma obra de Paulo Chaves –, na área portuária da capital paraense, já é um sucesso de público e crítica e, desde o último dia 17 de março, data do falecimento do arquiteto, também carrega a marca de ter sido o último trabalho que Paulo viu se concretizar, ao lado da amiga e sócia Rosário Lima, parceira dos últimos 36 anos. Ao lado dela, Paulo tocava o escritório Chaves & Rosário Arquitetura. 

O empresário Ricardo Gluck Paul, um dos sócios do empreendimento, conta que a Cabôca nasceu com o intuito de ser uma cervejaria local, mas, ao mesmo tempo, global. O próprio nome – Cabôca – remete ao substantivo “cabocla”, um termo comumente usado pela população amazônica para designar, principalmente, quem mora ou vem do interior do estado. “É uma marca feminina, que tem o objetivo claro de resgatar e ressignificar um termo pejorativo. O povo caboclo sempre teve uma estética singular e que começou a ser rejeitada quando Belém passou a achar que era Paris, no auge do período da Borracha. Nosso objetivo é resgatar a autoestima da palavra, assumir o caboclo como o ser que vem da floresta. E o feminino porque, na história da cerveja, é uma bebida feita pelas mulheres, inventada pelas mulheres”, revela.

 

O projeto ganhou corpo quando Ricardo e seus sócios encontraram, em Belém, um casarão perfeito para o empreendimento. “A gente queria que fosse uma fábrica de cerveja e, ao mesmo tempo, um bar, como se fosse o bar da fábrica. E, para isso, precisava ser um local grande. Viemos, então, para a área de maior cinturão de casarões antigos em Belém, uma área que está sob a proteção do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional)”, lembra.

Foi aí que o arquiteto Paulo Chaves entrou na história. Procurado por Gluck Paul, Paulo deu força para o projeto, reiterando que um dos seus sonhos era ajudar a desenvolver toda a área portuária de Belém, onde ele mesmo já tinha feito importantes trabalhos, a exemplo da própria Estação das Docas. “Pela pesquisa do Paulo, esse é um casarão do século XVIII e fazer tudo o que fizemos aqui realmente foi um trabalho de guerra. Além de toda a burocracia que há em trabalhar com os órgãos de proteção, a logística foi bem complicada. Boa parte dos equipamentos entrou no prédio por meio de um guindaste, de cima pra baixo”, relata.

Sete anos foram necessários para que a Cabôca chegasse ao que os donos e arquitetos planejaram. Um trabalho árduo e intenso, que contou com a entrega e genialidade de Paulo Chaves e de sua equipe em cada detalhe. “O desenvolvimento do trabalho se prolongou por sete anos, tendo havido inúmeras modificações no projeto original, mas que, enfim, conseguimos acompanhar até sua conclusão, no último trimestre de 2020, com um resultado que nos deixou muito felizes, recompensando a força de vontade e a resiliência dos empreendedores e nossas, também. Acreditamos que ter mais um dos casarões azulejados do Centro Histórico de Belém preservado é uma grande vitória. Esperamos que muitos mais empreendedores sigam o exemplo da Cervejaria Cabôca”, pontua a arquiteta Rosário Lima. O trabalho teve, ainda, parceria do arquiteto Tales Kamel e participação do arquiteto Patrick Rocha.

Para Rosário, o trabalho na Cervejaria Cabôca ficará para sempre marcado em sua memória, não apenas pela grandiosidade e desafios de fazer intervenções em um prédio cuja origem remonta ao século XVIII, mas porque este foi o último projeto que Paulo Chaves conseguiu finalizar. “Eu e o Paulo começamos uma parceria quando eu, recém-formada, fui trabalhar com ele. Foram muitos projetos, sempre marcantes, sempre um novo aprendizado. Mas acabou por ser, de certa forma, diferente com o projeto da Cervejaria Cabôca. Lembro que, antes da inauguração, em setembro do ano passado, consegui levá-lo ao prédio para uma sessão de fotos com a obra pronta. Ele foi, muito nervoso, pois estava trancado em casa desde que começara a pandemia, tinha muito medo de adoecer. Providenciamos toda a proteção necessária e fizemos o ensaio fotográfico. Sem que pudéssemos imaginar, seriam nossas últimas fotos juntos. Ficam seus ensinamentos de fazer sempre o melhor, de fazer arquitetura com paixão e o exemplo de seu amor incondicional por Belém. Isso dá força para seguir em frente”, compartilha.

Hoje, além de contar com um dos prédios mais bonitos da região portuária de Belém, a Cervejaria Cabôca também já se tornou uma referência para os amantes da cerveja artesanal na cidade. 

 

Segundo o outro sócio do empreendimento, Deivison Costa, a cerveja produzida pela Cabôca respeita de fato todos os ingredientes “sagrados” pela escola alemã de cerveja – uma das mais respeitadas no mundo –, que prioriza produtos como malte, lúpulo, levedura e água. “Fizemos um cardápio que harmoniza com as cervejas. Tudo foi pensado para adequar ao público que vamos receber na casa. Estamos no mercado fazendo as cervejas clássicas, com uma fábrica nacional, com produtos de primeira linha, com lúpulo e levedura, com qualidade superior, sem brincar muito com a cerveja”, aponta. Uma excelente opção para quem aprecia uma boa cerveja e, de quebra, valoriza a história e a arquitetura belenense.