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REVISTA

Um Standard Maestro

 
A história do pensamento pode ser associada à identificação de padrões. Nas Ciências Exatas é onde melhor pode-se perceber essa associação. Toda pesquisa envolve modelos matemáticos postos à prova até que se constate que a equação está correta e se aplica a todas as variações possíveis. Por outro lado, a nossa fantasia insiste em tentar simplificar estudos quase obsessivos em rasgos de genialidade. Para o deleite popular Isaac Newton desenvolveu a teoria da gravidade quando estava sonolento sob uma macieira e um fruto despencou sobre sua cabeça. Para melhor dar ares dramáticos só faltou dizer que era a mesma maçã que Guilherme Tell flechou sobre a cabeça de seu filho. Ora, essa simplificação do método científico remete às descobertas ao acaso e todo o trabalho passa a ser obra do acaso e da percepção genial de alguém. 
 
Imagino que as investigações começaram com uma suspeita: matéria atrai matéria. Por que atrai? Com que intensidade? Quais variáveis estão envolvidas? Quão ampla é essa afirmação? Meses, anos de questionamentos, testes em laboratório, planilhar resultados (não, ainda não haviam desenvolvido o   Excel) e identificar padrões. Essa é a alma da ciência: identificar padrões. A pesquisa avança e começa a aparecer uma correlação entre as massas dos corpos: quanto maior as massas, maior a força de atração. Mas, percebe-se que essa força dilui-se com a distância. Então já temos três variáveis: a massa do corpo A, a massa do corpo B e a distância entre elas. É preciso identificar como agem entre si essas variáveis e qual o peso no resultado final de cada uma delas. Mais estudos e noites em claro para que as ideias comecem a se aglutinar e fazer sentido. Essa força de atração é resultado do produto das massas e inversamente à distância. Monta-se a fórmula: força = massa A x massa B / distância. Aplica-se o cálculo na prática e o resultado não confere, não é compatível com as observações. Volta-se ao laboratório e desconfia-se que a redução da força é mais intensa quanto mais aumenta a distância, não linearmente, mas geometricamente. Então se arrisca que a influência da distância é fruto do seu quadrado. Volta-se à fórmula e corrige-se para: força = massa A x massa B / (distância)2. Pronto, agora parece funcionar e nos testes chega-se a uma curva de correlação ideal, porém há uma necessidade de alinhar unidades de medidas e acrescenta-se uma constante. Agora pode cair maçã à vontade, pois o resultado de anos de observações, estudos e testes chegou à sua máxima: matéria atrai matéria na proporção direta das suas massas e na proporção inversa do quadrado da distância que as separa. 
 
Não, esse não é um artigo científico; não tenho o conhecimento nem a pretensão. O que me chama a atenção é a mitologia que se forma pra difundir uma ideia complexa, mas principalmente a nossa vocação para tentar encontrar padrão em tudo. É da nossa natureza; nosso cérebro vive em busca de padrões para tentar explicar tudo. É consequência do nosso medo do que não conseguimos entender e da nossa eterna curiosidade que nos move para explicar o mundo em que vivemos. Não só aos cientistas cabe esse papel, todos nós estamos sempre tentando explicar alguma coisa, buscando padrões onde, na maioria das vezes, não existe. E é nisso que mora o perigo. Nesse afã insensato de a tudo explicar o cidadão normal abdica do método científico e tira suas conclusões a partir de uma das maiores invenções do ser humano: a intuição. Essa intuição é suficiente para justificar o seu método. Vai chover hoje é porque estou “sentindo” isso, não é porque nuvens se acumulam num céu cinzento. Hoje “sinto” que meu time vai ganhar e se realmente ganhar isso prova que minha intuição não falha. Minha vizinha sonhou com um homem elegante e sedutor então jogou no jacaré e ganhou na cabeça. Claro, homem sedutor é um boto, boto vive nos rios e nesses rios moram os jacarés; ora, tava na cara era só jogar e correr pro abraço.
 
Além desse lado folclórico, outro perigo se avizinha: a base de dados. É corriqueiro todos chegarmos a conclusões apressadas com base num universo mínimo de observações. Não compro mais esse carro, tive um que deu defeito com menos de três anos. Essa geladeira é horrível, não durou nem um ano. Agora sim, esse telefone é ótimo, nunca me deu problemas. Com base numa amostragem absolutamente restrita chegamos a conclusões que reverberam nas redes sociais e uma determinada marca acaba sendo injustamente associada a ser um ótimo ou péssimo produto. Há alguns anos esse tipo de observação me intrigou e coordenei um estudo acompanhando mais de 10 mil computadores durante um ano para identificar aqueles que apresentavam mais ou menos defeitos. A amostragem e o período eram expressivos e qual não foi a surpresa para muitos (não para mim que já suspeitava quais seriam os resultados) que as diferenças de incidência de defeito eram estatisticamente irrelevantes entre as marcas mais conceituadas e aquelas menos afamadas. Num mundo globalizado os produtos têm seus componentes produzidos por uma base muito pequena de fabricantes (normalmente chineses) e as grandes marcas são, no final da cadeia produtiva, apenas montadores de componentes de terceiros. No entanto, essa conclusão em nada ajuda na hora de explicar a um consumidor o motivo da sua frustração, ele acaba tirando suas próprias conclusões a partir da sua experiência e raramente aceita argumentos estatisticamente mais sólidos. E com isso vão se construindo ou destruindo reputações.
 
Mais curioso ainda nesse universo de conclusões populares são aquelas que vão ultrapassando gerações sem que desgrudem da nossa memória: “menino sai dessa chuva senão pega resfriado”. “Não misture nunca açaí com maracujá”. “Leite com manga, nem pensar”. “Sabe a fulaninha? Passou por baixo da escada e foi essa a desgraça dela”. “Gato preto, nossa que horror, longe dele!” “Na dúvida é melhor não arriscar diz o senso popular e atire a primeira pedra quem não tem seus próprios traumas”. 
 
Ora, se racionalmente até rimos dessas mitificações, por que é tão difícil abandonar esse comportamento? Eis um desafio para o próximo Newton, mas arrisco algumas pistas para bravos pesquisadores avançarem. Apesar de racionais, nosso cérebro é muito influenciado pelas emoções, tanto que ele é dividido em dois hemisférios, um regulado pela razão outro pela emoção. É Deus e o Diabo agindo em nossa consciência. Emoções, frustrações, experiências marcam tanto nosso comportamento e reações quanto as informações, a lógica e a racionalidade. Assim somos afetados pelas experiências tanto ou mais que pela razão. É a tal inteligência emocional que veio à tona há pouco tempo. Ambas habitam o mesmo corpo e respondem pelo que somos. Acho até que Newton deixou de sentar embaixo de macieiras.

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