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Troca de sinais

Ontem fui emparedado pela minha filha adolescente:

Pai, você é de direita?

O questionamento veio acompanhado de um tom de voz ameaçador, dedo em riste, olhar reprovador, além de outros sinais corporais que poderiam ser traduzidos em: misógino, corrupto, preconceituoso, chauvinista, neoliberal, insensível, coxinha, egoísta, homofóbico e tantos outros adjetivos associados à direita. O ataque surpresa deixou-me semiconsciente e tive que me recompor aos poucos até articular as primeiras palavras em minha defesa:

Hein? Como assim?

Passado o impacto inicial do golpe, usei a retórica como instrumento de defesa e para testar as defesas do oponente:

O que você entende por direita?

Com a empáfia digna da adolescência e juventude emendou de imediato.

Ora, é liberal na economia e conservador nos costumes.

Então argumentei, a esquerda teria os sinais trocados, liberal nos costumes e conservador na economia?

Sim, não, não, conservador na economia não, nunca somos conservadores, só vocês velhos.

Ok, mas então o que seria um liberal na economia e também nos costumes?

Peraí pai, isso não existe, ou o cara é de esquerda ou de direita.

Filha, o que não existe é direita e esquerda, essa divisão é mera retórica política para dividir o nós e eles, mas nem nós, nem eles sabemos exatamente o que somos diante de limites tão estreitos. O espectro é vasto e complexo, não pode se resumir a questões tão elementares, tipo preto e branco.

Há muito liberal na economia que adora uma ajudazinha do Estado, assim como muito esquerdista que não vive sem o apoio de empresas. Da mesma forma, muita gente liberal no discurso social de apoio às minorias agride mulher e filhos e no oposto, pessoas extremamente conservadoras nos costumes demonstram enorme tolerância com os semelhantes. Não existe o 8 ou 80, estamos todos entre esses limites e acreditar que nos unir num extremo para destruir o outro extremo é não entender essas nuanças e ceder aos instintos mais bestiais de confronto e radicalismo que só leva à luta e destruição.

Do ponto de vista econômico, o Estado não pode superar o mercado e nem este pode ou deseja eliminar o Estado, ambos devem buscar uma convivência harmônica em busca do bem comum. Isso parece fácil no discurso, mas extremamente delicado em estabelecer e reconhecer limites, por isso é que estamos há 150 anos testando estes limites e talvez precisemos de outros 150. É um exercício em que alguns países já alinharam melhor as atribuições de cada um, em outros é um pesadelo a ser superado, nós estamos no meio desse processo, um pouco perdidos, mas bem melhor posicionados do que há 100 ou 50 anos. E estaremos bem melhor daqui 30, 40 anos, quando você já estiver com minha idade. Não existe fórmula pronta, mas é um processo de avanços e recuos.

Na área social e de costumes o embate não deve ser do Estado e mercado, mas somente da própria sociedade, na sua enorme diversidade étnica, religiosa e econômica, há grupos de toda ordem que pregam valorizações de costumes que podem ser ofensivos a outros. E o que hoje é vanguarda, amanhã será establishment e será combatido por uma nova vanguarda, num eterno processo de depuração e acomodação. O que hoje é agressivo para alguns, com o passar do tempo pode se tornar banal, como a minissaia foi no tempo da sua avó, ou o sexo livre que tanto afrontou gerações passadas, ou mesmo a diversidade de gênero, que hoje discutimos e amanhã será assunto superado.  Para isso, a participação do governo é minimizar o confronto e estimular a tolerância, afinal ele é representativo da própria sociedade e não uma entidade superior vinda de outro plano.

Enfim filha, não me encaixo em nenhum estereótipo de direita ou esquerda, acredito firmemente na força do mercado e da sociedade e no governo apenas como representante do conjunto de atores que ele deveria representar, que é muito maior que o grupo que o elegeu.


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