REVISTA

Pontes

Atravessar pontes, chegar ao outro lado e incendiá-las. O fogaréu atrás de si, o calor lembrando os velhos verões e a luzes amarelas como as de mercúrio dos passeios na madrugada. O passado inteiro para trás no acender do isqueiro, na brasa do cigarro, no rastro de pólvora.
Estava Rosa agora diante da sua. De madeira. Torta, rachada e seca de ressequidões constantes, periódicas e insistentes. Prestes a ruir, apodrecida. Enquanto embebia tudo com obstinação, método e querosene, lembrava como ergueu, com capricho, a frágil ligação nos últimos anos. Entusiasmo a cada tábua, prego, arremate a cada palmo a mais na construção.
No outro lado, Jorge, pesando 85 quilos de desgosto, várias lutas, nenhuma  vitória,  traçava o plano para por abaixo sua porção que, por contingências da vida, era de concreto. Avariado, recalcado, carcomido, esfarelado, no entanto, com sinais de um dia ter sido uma densa e exemplar estrutura. Fogo seria inútil. A saída era o desmoronamento simples, portanto. Um golpe apenas. Um único e bem aplicado para se livrar de vez.
Pronta e ansiosa pelo fim, Rosa acendeu o fósforo. E olhou a chama, dramática, afeita a rituais. Iluminou-se. Jorge viu os olhos amarelos e se lembrou de algum sábado, os dois contemplando um farol, a sós, como em um filme dos anos 70. Esforçou-se para não perder o foco, tampouco ficar por baixo: ergueu a marreta. Fraco, caiu para trás. 
Ela riu. E o sopro da risada apagou o lume. Aproximou-se do homem. Estendeu a mão para ajuda-lo. Ele aceitou o gesto e sentiu como a pele daquelas mãos pequenas era fina, familiar, convidativa. Só que, entre lembrança e outra, sacudiu a terra dos fundos das calças.  Fechou a cara e retomou a posição.
Ela entendeu: voltou ao posto. Riscou outro palito, queimou-se e levou os dedos à boca. Machucou? Indagou o homem. E foi socorrê-la, como se houvesse presenciado um desastre. Segurou as mãos, como um pai zeloso. Silêncio, olhos nos olhos. A ponte dele era pedra sólida de novo.
Rosa também viu o tempo reverter e seus esteios ganharem viço e as partes podres recuperarem o aspecto da inauguração. O verniz fajuto de tantas vezes. Sorriu. Desvencilhou-se sem culpa para cumprir o propósito.  E cumpriu.
Foi-se embora gingando, cantarolando, chamuscada e mais bonita do que nunca, certa de que destruir pontes não era  para qualquer um.
Às costas, a coluna de fumaça negra dos incêndios gloriosos.

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