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Os búfalos e o queijo do Marajó

Há uma música paraense que diz mais ou menos assim “quando eu morrer / se eu não for pro céu / eu vou lá pro Marajó...”
Falo isso como paraense que sou: a gente não conhecerá bem o Pará até pisar nos campos alagadiços do Marajó, terra de pessoas gentis e uma certa manada mansa, tema, aliás, desta coluna.
Ainda no barco que nos levava ao Marajó, escutei o piloto da embarcação (sim, porque no Norte do país, o capitão quase sempre é um piloto de uma curiosa e adaptada engenharia na condução dos barcos, tornando-o um piloto de embarcação) cantarolar a música com a qual abri a coluna. Havia algum tempo que não voltava à ilha [a maior do Brasil, em extensão territorial] e para lá rumei, para uma pesquisa de campo sobre o queijo do Marajó – um produto genuinamente paraense, com enorme potencial, e que precisa ser mais conhecido no Brasil e no exterior.
Por utilizar o leite de búfala não-pasteurizado, o queijo do Marajó passa por um rigoroso processo de fiscalização sanitária para poder chegar à sua mesa, caro leitor. Graças também a uma união de entidades, os produtores marajoaras ganharam um “Protocolo de boas práticas para os queijos de búfala do Marajó”, uniformizando assim as etapas do processo de sua feitura.
A bubalinocultura chegou à ilha do Marajó no final de século XIX com a introdução de animais da espécie carabao, provenientes da longínqua Índia. São animais dóceis, gentis... não me surpreende que tenham a carne tenra e seu leite adocicado – dulçor, que é uma característica tão marcante no queijo do Marajó, que coleciona ainda outras qualidades, como o alto teor nutritivo, proteico e baixo colesterol. Além de ser uma produção com história para contar, já que as queijarias abrigam e empregam membros de duas, até três gerações da mesma família ou de famílias próximas.
Ah, não deixe de experimentar o doce de leite feito de leite de búfala. Dispense a torrada, o pão... coma-o in natura ou sobre o queijo do Marajó. [depois me conte essa experiência.]
Se puder, coma ainda o ‘frito de vaqueiro’ e indico aos corajosos, a sopa de turu. Mas recomendo, sobretudo, que você visite o Marajó... converse com as pessoas, olhe-as nos olhos – perceba toda a generosidade e a vocação em receber os curiosos visitantes. Ouça os causos [como o do vaqueiro Boaventura, uma entidade que percorre os campos e protege os rebanhos] e histórias dos seus habitantes. Emocione-se.
Não, definitivamente você não precisará ir para o céu para poder visitar o paraíso.

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