REVISTA

Orelhão

Crianças com smartphones me lembram quando telefone fixo em casa já era uma grande coisa. Pelo menos para mim, que fui ter o aparelho na sala de estar já crescido. Antes da novidade, posicionada sobre o pano de crochê na mesinha em destaque no canto da parede, me resolvia (ou tentava) com os orelhões, os fósseis que ainda figuram no cenário urbano hoje, sem qualquer serventia.
 
Nos anos 90, era diferente. Eles eram disputados, havia filas para usar. Na época, a adolescência me empurrava para o dilema de ultrapassar a sedução caligráfica para chegar às aproximações telefônicas com os objetos das minhas paixões pueris. Escrever era mais fácil e mais cômodo, e eu era o rei dos bilhetinhos. Mas eu precisava avançar, afinal, a Graham Bell havia popularizado seu invento havia muitos anos e meus escritos eram motivos de chacota quando descobertos.
 
Não demorou, pude fazer o primeiro teste. A moça apareceu num dia qualquer diante de mim quando fui buscar minhas irmãs no colégio de freiras, onde só estudavam meninas. Ela era da sétima série, presumo, porque tinha 13 anos, mesma idade que eu.
Pedi o número dela com um bilhete discreto, usando as coitadas das minhas irmãs. Sem esperança alguma de êxito, fui surpreendido: consegui a informação. 
 
Numa terça, gastei o que não tinha com as fichas e me dirigi ao telefone mais discreto e menos frequentado do bairro. Parecia que havia sido feito sob medida para aquela conversa. Sete da noite, com os nervos desgastados, pus a ficha e girei o disco com o número. Uma, duas, cinco chamadas [que aflição]. Na sétima, atenderam: “espera, vou chamar”, disse um homem. Talvez o pai. Sem demora, ela diz alô. Eu me identifico.
 
- Ah, sim, o irmão das gêmeas.
- Pois é.
-Tudo bem?
- Tudo. E você?
- Tudo também.
- Tá vendo só, prometi e liguei.
- Então...
- Pois é...
 
E foram dias e dias num diálogo travado de um lado e desinteressado do outro. De vez em quando um cachorro interrompia com um latido. Era a parte mais emocionante.
 
- Tem cachorro aí, né?
- Não. É na rua.
- Ah, tá.
 
A despedida dela vinha acompanhada da justificativa do sono ou da necessidade de estudar. Eu, insistente, marcava a próxima ligação. O desligar era um alívio e um peso no meu coração porque nunca havia assunto entre nós.
 
A não-conversa se repetiu muitas vezes, no mesmo orelhão. A cada ligação os silêncios eram mais longos. Nem o cachorro já não interrompia. Quase sempre no terceiro suspiro, ela dizia que ia se recolher. Estava falindo de tanto comprar fichas e a conversa não passava do “oi, tudo bem”, “pois é”, “tchau”. 
Minha ficha só caiu no dia em que o silêncio foi diferente dos demais silêncios. Não deu tempo do suspiro dela nem houve o latido do cão. A interlocutora mandou, sem demora: preciso desligar, vou receber um amigo.
 
Ah, então ela conversava! E tinha um amigo! Foi demais para o meu pobre coração.
 
Pus o fone no gancho, a ficha foi devolvida, porque a conversa não durou quatro minutos. Intuí o fim. Entreguei minhas fichas da Telepará para uma senhora que estava aguardando para usar o orelhão, que recebeu o presente com os olhos brilhando.
 
Fui para casa me reconciliar com o papel e caneta, escrever mais uma carta que nunca seria enviada. 
 
Esse negócio de falar não era para mim.
 
Quando vejo os meninos com celular na mão falando com toda desenvoltura, sempre me pergunto como eles conseguem. E penso naquele fracasso com sete dígitos que lembro até hoje, de cor.

Comentário