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O que eu nunca disse para minha mãe

Nestas palavras, declaro todo meu amor por minha mãe. Declaro que ela não me fez mal e que se sacrificou muito, para que eu pudesse ser um artista hoje. Ela morreu em seus sonhos e ideais para que eu pudesse nascer em poesia. Ela sofreu com os pais, que não a entendiam; ela lutou pelo homem que amava e assumiu as responsabilidades. Não estou dizendo que ela está sempre correta, mas que ela é uma heroína. Ela acredita em uma política honesta, íntegra e igualitária.

Ela sofreu. Já foi agricultora, pecuarista, artesã de queijos e sorvetes, já fez linguiças, vendeu leite, em um furgão pelas ruas da cidade... Mas preparou um berço feito de vime, que ela acomodou entre os latões de leite, e forrou com um velho cobertor de gatinhos estampados, para que eu não estivesse sozinho e sempre perto dela. E foi assim, que eu a acompanhei nessa caminhada. E quando, logo aos seis anos, eu já sabia ler, ela me colocava para dormir em sua cama, com as mãos dadas às dela, por debaixo do travesseiro. E eu ficava seguro de que o peso de minha mão (que apertava a dela com força) não a deixaria sair para trabalhar. Mesmo assim, ela saía (sem me acordar).  Deixava sobre a mesa de café da manhã um bilhete e eu chorava de tristeza. Todos os dias. Mas as coisas iriam melhorar.

E assim, o tempo foi passando. Os meses viraram anos e eu aprendi a cozinhar. Eu preparava os bolos, para que ela levasse para comer nos intervalos. Ela já não era mais agricultora. Ela, agora, além de fazer sorvetes, levava, em uma van escolar, alguns estudantes para a faculdade noturna que ficava na cidade vizinha. Mais uma vez, eu ficava sozinho e com medo, confortado pelo velho cobertor de gatinhos estampados e na companhia de uma bela cadelinha, que me seguia pela casa. A cadela foi a primeira a experimentar os meus chocolates e brioches. Eu me imaginava na França (ou na Itália), buscando as raízes de minha família e imaginava parentes que me receberiam de braços abertos e felizes, com uma mesa farta ou um bom licor. Eu sonhava com a Inglaterra e com possibilidades fantasiosas de Oxford, seus livros e jardins. Os personagens masculinos dos livros desempenhavam o papel masculino de “pais”. Os mesmos de Harry Potter. Aslan se tornou uma visão de Deus em meus sonhos.

À noite, a lua na minha janela me consolava e o cobertor me protegia. À noite, eu estava feliz, com um pedaço de bolo de chocolate na barriga e uma cadelinha branca como um cordeiro dormindo junto a meus pés.

Eu admirava a neblina misturada à garoa, que me fazia sentir especial. O cobertor me protegia e nada de mal podia me acontecer. Eu era amado, e esse amor me protegia. Eu olhava as montanhas, iluminadas pelo luar, desejando que dias melhores viessem. Imaginando que eu, um dia, viveria entre elas e seria um bom “bruxo”.

Esses dias estão chegando, e esses sonhos são só o começo de uma grande aventura.


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