REVISTA

O centroavante de botão

 

Poucos sabem, mas fui um grande jogador de botão. Não o celotex, com aqueles botões grandes, cada um jogando uma vez, com juízes, federação e tudo. Meus botões eram daqueles vendidos em loja, de plástico, que vinham ou com a fotografia pequena de cada jogador ou o escudo do time. Lá em casa, quem trouxe a novidade foi o Edgar Augusto. Não sei de onde trouxe. Já comprava a Revista do Esporte, que auxiliava, com fotografias, o reconhecimento dos jogadores que disputavam o campeonato carioca, que nos interessava, completando a informação diária da Rádio Clube do Pará.

O jogo vendido nas lojas trazia, além dos dez botões, um goleiro, que contava com uma espécie de cabo de metal que, imagino, servia para mover na direção da bola chutada. Bem, não era bola, e sim um disco plástico, como também eram as traves e as redes. Lá em casa, não. Pra começar, decidimos usar caixas de fósforos como goleiros. Depois, nossa mãe ajudou a confeccionar traves de arame com redes de filó e o toque final, bolas de lã, cuidadosamente preparadas. Mais emocionante, lá em casa, era na base do bate e leva, ou seja, a jogada seguia até que a bola tocasse no botão adversário ou se errasse a bola %u2013 para nós, um absurdo.

Devo confessar que não estava bem preparado para meu primeiro jogo. Sem ainda me dar conta da cerimônia e circunstância de um jogo de campeonato, escandalizei meu irmão com uma equipe que contava com umas duas tampas de remédio, uma delas, Lilly, que chamei de jogador. Bom, o goleiro era Simbad (o marujo) e um dos laterais era Vlamir, em homenagem ao fabuloso armador da seleção brasileira de basquete da época.

Chamado às falas, banimento, reunião do STJD, enfim, voltei atrás. Jogávamos basicamente o campeonato carioca. Nossas equipes preferidas, Flamengo e Botafogo, naturalmente, eram as favoritas, mas havia desde Campo Grande, Canto do Rio, Madureira, Olaria, São Cristóvão e América, além de Vasco da Gama e Fluminense. Todos com suas escalações e alguns reservas. Nosso campo de jogo era uma mesa de fórmica, a qual foi devidamente demarcada. Os times jogavam com uma formação quase estática de dois, três, um, quatro, mas posso garantir que havia muita emoção e habilidade na condução das jogadas. Dribles, passes, lançamentos, chutes e gol e faltas bem cobradas.

Creio que o Edgar era quem mais sentia as derrotas. Costumava jogar um por um dos atletas/ botões na parede, como punição. Se o goleiro frangava, era esmigalhado... Os jogos contavam com narração, claro, feita pelo Edgar, eu fazendo o ponta de gol. Puxa, como era bom! Uma brincadeira que depois virou séria. Meu irmão foi trabalhar narrando jogos de verdade e eu saí à procura de parceiros, encontrando minha turma de colégio. Rápido, decidimos fazer um torneio. Claro que desde o regulamento, houve discussões dignas não de um Conselho de Segurança da ONU, mas de moleques de esquina. Enfim, chegamos a uma decisão e os jogos foram marcados.

A primeira rodada no estádio da casa de Abílio Cruz, meu saudoso amigo, que competia com seu Botafogo. Eu levei meu Flamengo. Haveria um rodízio de juízes. Enquanto dois jogavam, um apitava, e o restante ficaria no quintal, jogando futebol. E vem aquele competidor e começa a alinhar os jogadores em campo. Anuncia que é a equipe do Clube do Remo. Os botões têm a fotografia da equipe azulina da época.

Pronto, estão as duas equipes preparadas para iniciar. Não. Temos um problema. Precisamos reunir para decidir uma grave questão. Aquele competidor escalou um jogador inexistente na equipe azulina. Ele argumenta que aquele é o seu Remo e não o do futebol. Houston, we have a problem. Afinal, que jogador é esse? De centro-avante, nada mais, nada menos que o hoje célebre Dr. Sérgio Zumero, o qual continuou argumentando sem parar, em discussão cada vez mais acalorada, em que gritava %u201Co que é que tem eu jogar de centro-avante do Remo no meu time de botão?%u201D...


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