REVISTA

Novos rumos, novas impressões

Nunca haverá duas pessoas com a mesma voz – a impressão digital da expressão humana. Por consequência, o que sai de nós é único: a complicada equação entre cabeça, coração e as próprias vivências é contada por um timbre que não será ouvido em outro lugar. Mas também há aquela parte de nós que as palavras não alcançam. Sentimentos e ideias que possuem nuances, cores, texturas – e cuja definição não admite texto que, sozinho, empreste significado literal. Muitos guardam para si essas sensações, por não saber o que fazer com elas. Outros, com talento e criatividade, encontram na arte outra maneira de falar. Não mais de um jeito que se possa ouvir: esses artistas pintam, estampam, desenham, esculpem. Mostram aos olhos o que não tem tradução. Falam com aquela voz que só diz o que não pode ser dito, de um jeito igualmente singular.

Para incentivar a voz das artes visuais a ecoar cada vez mais alto, dez artistas foram escolhidos entre ilustradores, designers, pintores e escultores para figurar nas páginas do calendário e do caderno Leal Moreira 2013 - produtos lançados anualmente, e que são distribuídos para parceiros e clientes. No ano vindouro, Carlos Oliveira Filho, Celeste Heitmann, Diego Gomes Pereira, Cíntia Ramos, Beta Freitas, Vivi Huhn, Junior Oliveira, Paulo Azevedo, Rodrigo Cantalício e Jorge Eiró farão parte do cotidiano de quem tiver o material em mãos, com suas obras e histórias. A proposta, em tese, era simples: intervir livremente no logotipo da empresa – que recentemente foi reformulado pelo Departamento de Marketing do Grupo, em parceria com a agência Madre, que atende a Leal Moreira, acompanhando a própria e constante reinvenção da marca. Você confere os resultados e o papo com os protagonistas desse projeto nas próximas páginas.

O processo criativo... e os criadores

Foram duas semanas de contato intenso com os artistas participantes. Entre visitas, reuniões e telefonemas, conversamos sobre amores e dores no exercer da profissão, além de visões de arte e planos para o futuro. Histórias completamente diferentes conduzidas pela mesma paixão.

O primeiro a receber a Revista Leal Moreira foi o tímido e divertido Carlos Oliveira Filho. Proprietário da marca “Égua de Camiseta”, ele conta que, em uma viagem a São Paulo com alguns amigos, começou a pensar em roupas que tivessem um tom divertido e fossem regionais, sem perder a universalidade. A ideia funcionou tão bem que hoje, além da já consagrada grife, ele começa a trabalhar a “Mané Gato” – sua segunda marca. Para ele, design é mais que ilustrar. “É agregar conceitos”, sintetiza. Apaixonado pelo Pará, planeja, num futuro próximo, expandir para o mercado nacional. “Eu tenho uma vontade muito grande de levar o Égua para outras fronteiras. O Pará está na moda, esse é o momento”, acredita. Na sua intervenção, Carlos aproveitou os contornos do ícone para abrigar todos os municípios do Pará, destacando, em pequenos símbolos, algumas das características marcantes das cidades. A ideia foi demonstrar o orgulho que ambas as marcas têm de ser paraenses.

Em seguida, conhecemos Celeste Heitmann. Nascida em Portugal, ela se mudou para o Pará há 47 anos. Aqui, começou a desenvolver projetos de caridade junto ao Rotary Club. Para angariar fundos, decidiu vender suas pinturas – hobby ao qual se dedicava desde a infância. O interesse crescente pelos trabalhos fez com que a brincadeira virasse profissão. Depois, veio o trabalho com joias e a relação com o mundo fashion – esta última tão intensa que a motivou a entrar na faculdade de moda, concluída no ano passado. Doce e carismática, Celeste se considera hoje mais paraense que portuguesa. “Sou apaixonada pela Cidade Velha, pelo Ver-O-Peso... Tenho vivenciado muito a Belle Époque nos meus trabalhos”. Com a ajuda do marido corretor de imóveis, ela chegou à conclusão de que um empreendimento Leal Moreira representa “emoção, cultura, sensibilidade, transparência e sofisticação”. Na obra, retratou esses elementos, representados por azulejos portugueses, rendas e pela chave do tão sonhado apartamento.

Sonho, aliás, é o que norteia a vida do nosso próximo designer. Diego Gomes Pereira, dono da marca “Santos de Casa”, é um sonhador nato. Envolvido com a arte desde a infância em um colégio semi-interno, continuou exercitando a criatividade na Fundação Curro Velho. Era o caminho para, mais tarde, estabelecer a grife – fruto da vontade antiga de propagar a fé coletiva. O foco no sincretismo e na cultura popular é um reflexo de seu próprio criador, que é devoto de São Jorge e Iemanjá. Determinado, ele acredita que o reconhecimento do trabalho é fruto da sua perseverança. “Desistir, jamais. O mundo pode estar caindo e eu tô pronto pra correr mais 90 minutos, com o mesmo pique”, afirma. Emocionado com o convite para integrar o projeto, Diego explica que sua intervenção condiz com a imagem que ele tem da empresa. “Pensei em proteção, segurança. É como vejo a Leal Moreira: um anjo protegendo o espaço de quem mora nos seus apartamentos”.

Também foi na infância que Cíntia Ramos descobriu sua paixão profissional. Filha de uma família de artistas, a pintora foi inserida nesse meio desde muito pequena. “Enquanto outras meninas ganhavam bonecas, eu ganhava lápis e pincéis no meu aniversário”, relembra. Mais tarde, já no fim da adolescência, um problema de saúde a deixou de cama. Sua mãe, então, comprou material para que ela produzisse. O interesse das pessoas pelos trabalhos criados no período transformou a menina em profissional. Hoje, Cíntia diz que não gosta de planejar. “Eu vivo o presente. Tudo vem para sua vida como uma consequência do agora”, defende. Na sua intervenção, a artista utilizou um personagem recorrente nas suas obras: o “Planeta Paz”. O conceito sugerido é o de amor, educação e fraternidade – valores que ela considera essenciais para a vida em sociedade. A artista aproveitou para parabenizar a iniciativa: “são poucas as empresas que incentivam a arte. Achei muito interessante a proposta”.

Nossa quinta entrevistada foi Beta Freitas, que nos recebeu em seu apartamento. A designer que encontrou no metal a sua matéria-prima preferida faz jus à imagem de mulher independente. Muito bem articulada e de opinião forte, ela aprendeu artesanato sozinha, observando e experimentando aqui e ali. Mais tarde, fez faculdade de propaganda e marketing e especialização em direção de arte no Rio de Janeiro e, em seguida, dedicou-se à ourivesaria. Hoje, Beta trabalha a própria marca, a “MetalDesign”, com foco em criação de acessórios e objetos de decoração. Perguntada sobre as dificuldades, ela dispara: “Belém é vanguarda, criatividade. A gente não pode culpar a mentalidade pequena de ninguém. Tem que meter a cara, é só questão de trabalho”. Como metal é a sua especialidade, Beta decidiu fazer sua intervenção com latinhas de refrigerante. Foram utilizadas 60 delas, pintadas de dourado e prateado. A ideia foi criar um ambiente urbano, luxuoso e sustentável. “Fiquei feliz com o resultado”, comemora.

Do metal para a moda, encontramos Vivi Huhn em seu ateliê em uma quinta-feira de manhã. Agitada, em meio aos tecidos e encomendas, ela contou que a relação com esse meio surgiu ao ver a avó costurando. “Passei a vida a vendo transformar trapo em roupa”. O interesse virou profissão só anos mais tarde, embora a vontade sempre tenha existido. “Eu sempre quis fazer moda, mas era muito nova pra ir fazer vestibular fora. Quando virei mãe, senti necessidade de roupas que caíssem bem sem serem grudadas no corpo. Aí, criei a marca”, relembra. De grande senso prático, organizada e “muito exigente” (nas palavras de uma de suas costureiras), hoje a estilista coordena algo em torno de 40 profissionais, entre trabalhadores diretos e indiretos. Criativa, Vivi criou, para sua intervenção, um padrão gráfico de olhos gregos, remetendo ao universo da sorte, assunto recorrente nos votos de fim de ano. “É o que eu desejo para a Leal Moreira e para quem mora em um de seus apartamentos: sorte!”.

Junior Oliveira é outro nome da moda que participa desse projeto. À vontade entre suas máquinas de serigrafia, ele revela que a criatividade sempre permeou sua vida. “Eu gostava de brincar na rua, com brinquedo de montar. Tudo que eu fazia me levava para o mundo da criação”. O forte apreço pelo aspecto gráfico das coisas o fez estudar ciência da computação por dois anos. Foi quando percebeu que o design era o que lhe deixaria feliz profissionalmente. Estudou fora, trabalhou vendendo camiseta com um tio, aprendeu serigrafia, apaixonou-se pelo processo e pronto, surge a “Eubelém” – marca que faz sucesso entre os descolados de Belém. Junior resolveu utilizar, em sua obra, um elemento muito presente no artesanato regional: o trançado de palha, em uma versão modernizada. “Investi em aspectos gráficos que ficariam interessantes quando fossem para o plano físico”, explica, fomentando o diálogo entre o regional e o global.

Nesse tour das artes visuais, a oitava parada foi na recém-inaugurada galeria de Paulo Azevedo. O artista – que associa sua descoberta pessoal da arte ao momento em que passou por um ateliê e viu alguém pintando um retrato – pinta figuras intensas e abstratas há mais de 25 anos. Ocasionalmente, ele também esculpe, voltado para temas sustentáveis e para o reaproveitamento de materiais. “A escultura é o descanso da pintura”, diz, apontando sua linguagem favorita. Com uma visão bem peculiar dos próprios trabalhos, Paulo costuma falar que nunca termina uma pintura. “Na verdade, eu escolho o momento de abandoná-la, mas nunca a finalizo”. Quando perguntado sobre o futuro, ele é taxativo: “daqui a dez anos, com certeza, estarei pintando”. Para sua intervenção, Paulo se inspirou no visual luxuoso do barroco. “Também quis carregar a marca com as suas próprias cores, que coincidentemente são as que eu mais uso no meu trabalho”, explica.

Representando o trabalho especial dos ilustradores, entrevistamos Rodrigo Cantalício. Colaborador da revista Leal Moreira, ele conta que a relação com o desenho veio de muito cedo. Mesmo assim, desenhar profissionalmente não foi a primeira coisa que lhe ocorreu. “Foi uma série de pessoas incríveis e caminhos equivocadamente certos que me fizeram ver isso como o meu futuro profissional”. Morando hoje em Buenos Aires, Rodrigo continua desenhando o mundo como o vê, embora hoje sofra influências externas. “A dificuldade é entender que aqueles desenhos guardados na gaveta de casa agora fazem parte de um mundo bem maior, onde as pessoas veem, criticam, elogiam, e ainda manter uma sinceridade no, estilo apesar disso”, avalia. Para sua intervenção, Cantalício baseou-se no seu processo habitual de criação: “consiste em um movimento em que pessoa e paisagem se tornam uma única figura, procurando se adaptar ao espaço”, afirma.

A expedição terminou no ateliê de Jorge Eiró – pintor, arquiteto e professor dos mais celebrados no cenário artístico paraense. Escolhido para ser a capa do caderno, ele comemorou a condição de padrinho do projeto. “Representar esses colegas é uma tremenda deferência”. Sorridente em meio às tintas, Jorge diz que o tempo é que determina a jornada a ser seguida. “Com 30 anos de estrada, tem muitas coisas que só hoje eu percebi, mas que já estavam lá no início do caminho”. E aconselha: “persigam desde sempre a sua própria linguagem, construam seu próprio caminho”. Para sua obra e pensando na capa de uma agenda para durar o ano inteiro, Eiró buscou expressar seus votos pessoais para a virada do ano. “Queria que as cores festivas simbolizassem uma celebração do que está por vir. Eu desejo que 2013 seja um ano para se celebrar”, completa.

Dez artistas. Dez sonhos, histórias, caminhos, estampas, pinturas – vidas que se desenharam de maneira diferente. A linha que costura todos esses universos é indestrutível: o amor à arte como maneira de expressão. E, como quase todo amor é intraduzível, é preciso olhos atentos e coração aberto para perceber quão única cada voz de dentro é. E dez vozes de dez corações falam muito mais alto.


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