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"Natureza é vida"

Ligada desde a infância à natureza e à convivência com áreas abertas, Márcia Lima ainda não sabia que caminho iria seguir profissionalmente - mas tinha certeza que ele deveria ter a beleza da arquitetura e a tranquilidade do verde, que a acompanhavam desde a tenra infância. Orientada pelo avô, que é agrônomo, ela descobriu que era possível unir o amor pela arquitetura à paixão pela natureza escolhendo o paisagismo como ponto de chegada. E assim foi.

Atualmente, a arquiteta paisagista, depois de ter se graduado em arquitetura e cursado alguns anos de agronomia (já que o paisagismo vem depois, como um curso complementar), ela comanda seu próprio negócio e desvenda para os leitores do site da Revista Leal Moreira todos os segredos e estigmas do profissional paisagista - que muita gente ainda não sabe bem o que é.

Revista Leal Moreira – O que é o paisagismo propriamente dito?

Márcia Lima – É o trabalho com a paisagem, de projetá-la. A maioria das pessoas pensa que o paisagismo é somente a escolha de vegetação, o que é um grande erro. O arquiteto paisagista vê a paisagem e “trabalha” a mesma. Projeta com o intuito de agregar valor a ela. A melhor hora de se contratar o profissional paisagista é a da concepção do projeto arquitetônico. Quando o cliente contrata o arquiteto, ele deve no mesmo momento também chamar o paisagista, para verificar a potencialidade daquele terreno, a localização da casa no terreno para melhor aproveitar o espaço e projetar as áreas externas etc. É importante contratar o paisagista desde o início, para ele trabalhar em conjunto com o arquiteto. Isso em “micro projetos”, que são os domiciliares. Mas também existem os macro projetos, que são as praças, arborização urbana, bosques; isso também é trabalhar a paisagem.

Revista Leal Moreira – Em uma casa, por exemplo, o paisagista não vai trabalhar apenas com vegetação? Ele planeja o espaço no geral?

Márcia Lima – Sim, o arquiteto paisagista projeta as áreas externas. É essencial contratar o paisagista no início; do contrário, se gasta mais dinheiro e o projeto não fica tão bom. Digo isso porque o paisagista deve projetar os espaços antecipadamente. Isso possibilita descobrir qual o melhor local para colocar a piscina, o melhor desenho, onde colocar o espelho d’agua, a área de recreação... e, de fato, a escolha de vegetação também. Um jardim de inverno, por exemplo, que não foi pensado desde o início, não tem condições de ser feito da melhor forma - já que precisa de iluminação natural. É um erro contratar o paisagista no final do projeto; porque no final o arquiteto paisagista vai poder dar, por exemplo, apenas 20% da sua capacidade de trabalho. Já no início, é possível 100% de êxito no trabalho, o que vai valorizar muito o espaço com um gasto bem menor. No começo tudo pode ser programado: obra, execução e eficiência.
 
Revista Leal Moreira – Depois do ambiente terminado, é possível incorporar algo de paisagismo?


Márcia Lima – Sim, mas como reforma. O paisagista vai agregar valor naquilo. Mas se você quer um jardim, uma piscina linda, é preciso contratar o paisagista quando contratar o arquiteto. Com isso, vai valorizar mais ainda o espaço.

Revista Leal Moreira – Qual o papel do paisagismo na vida cotidiana?

Márcia Lima – A ligação do ser humano com a natureza - está mais que provado - traz qualidade de vida. O convívio com a natureza, seja por meio de um vaso ou um passeio, até o pisar na grama, traz mais tranquilidade, livra da ansiedade, deixa a pessoa mais tranquila. E é ecologicamente correto também. O que seria de nós sem a natureza? Temos que valorizá-la cada vez mais.

Revista Leal Moreira – Em Belém ainda temos espaços arborizados, mas existem alguns lugares que isso é muito raro. O paisagismo faz diferença no dia a dia das pessoas?

Márcia Lima – É importantíssimo. E eu discordo que Belém seja bem arborizada. Na verdade, o que temos ainda é pouco. As mangueiras não são nossas, são da Índia, foram importadas, praticamente. Ainda bem que elas existem, mas não são apropriadas para a arborização urbana - até pelo tamanho dos seus frutos, que provocam vários acidentes.  Porém, se elas não existissem, estaríamos em um inferno em plena cidade. Acredito que Belém tem poucas praças; as que realmente têm uma boa área arborizada foram feitas há muito tempo. Os novos bairros não têm nenhuma árvore nas calçadas, estão completamente sem arborização urbana e têm pouquíssimas praças. Isso gera menos qualidade de vida. Pelo fato de estarmos em meio a Amazônia - a gente vê tantas árvores pela janela do avião... - percebemos que estamos cercados de verde, mas quando olhamos a cidade, vemos uma porcentagem muito pouca de verde. Já cansei de ver pessoas esperando o ônibus na sombra do poste, todas enfileiradas na linha dele. Quer dizer, isso é qualidade de vida? Deveríamos ter um maior planejamento de arborização urbana, onde cada bairro seria responsável por um  tipo de arborização urbana. Belém é muito quente. É preciso pensar nisso.



Revista Leal Moreira – E dentro de casa, é essencial ter esse contato com o verde?

Márcia Lima – Muito, é qualidade de vida! Só de você cuidar do verde e se preocupar com uma planta para regar, já é uma terapia. Ter o compromisso de regar sua planta, verificar como ela está e colher frutos, flores... É um cuidado que se deve ter com uma vida a mais dentro da sua casa. Isso pode ser feito em pequenos e grandes espaços. Se não for um jardim de inverno, pode ser um vaso na sua sala, no escritório; isso tudo traz vida ao ambiente.

Revista Leal Moreira – De onde vem a inspiração para os projetos paisagísticos?


Márcia Lima – É uma mistura de acúmulo de conhecimento com nunca se acomodar com o que já tem. Buscar sempre coisas novas. Viajar para o interior ou para fora do país. Eu escuto muito os meus clientes também, as necessidades deles. A inspiração se dá em vários âmbitos da minha vida; observo tudo, sempre. E como eu trabalho com o externo, até ao passear na rua eu verifico como as pessoas estão usando o espaço urbano etc.


Revista Leal Moreira – Quais são as mais importantes tendências do paisagismo?

Márcia Lima – A reciclagem e uso de materiais naturais reaproveitados. Tem gente fazendo móveis de papelão. Minha mesa do escritório é feita de madeira reaproveitada. Ela veio dos desmatamentos feitos há muito tempo, onde as raízes foram deixadas debaixo da terra e esquecidas. Nós tiramos isso de lá e transformamos em móveis. É uma reciclagem de algo considerado perdido, ninguém desmatou para produzir isso. A tendência é, cada vez mais, o verde ser reaproveitado e valorizado. E isso é uma coisa mais ampla ainda, é cuidar da natureza. Cada pequeno gesto que você tenha reciclando, valorizando, cuidando da natureza é um jeito de ter mais qualidade de vida. As gerações vão se estendendo ao invés de acabar.


Revista Leal Moreira –  E os jardins vivos nas alturas que têm surgido ultimamente, também são tendência?

Márcia Lima – A tendência mundial é que os últimos andares dos prédios se tornem jardins. Em Nova York e no Japão, eu encontrei muito disso. Por que isso? Aqui isso seria muito importante. Primeiro, em função dos nossos muitos problemas de alagamentos resultantes das chuvas, que vão direto para os escoamentos da cidade e rede de drenagem. Com esses telhados verdes, rufos - que são hortas, jardins etc - o escoamento é feito de forma diferente. É como se fosse uma cafeteira; quando a água vai direto sem o café, ela vai mais rápido. Agora, com a borra do café, ela escoa mais lentamente. Podemos fazer um comparativo disso com a terra, que fica lá em cima, nos prédios. Quando a chuva bate neste telhado que tem estes jardins, com a ajuda da terra a água vai mais lentamente para a cidade e para os escoamentos. Assim, a água que correu desimpedida direto para a rede pública já foi embora, e a que vem dos “jardins em laje” vai mais devagar. Isso diminui o volume de água nas redes fluviais.

Revista Leal Moreira – Outra pedida que vem ganhando força é a horta dentro de casa. É possível cultivar em vasos, se não tiver espaço para uma horta convencional?

Márcia Lima – Sim, é possível ter vasinhos com hortas até mesmo na cozinha. Não cabe essa desculpa de “não tenho espaço”, tem sim. Você pode ter vários vasos com diversas espécies e tipos de temperos que sobrevivem - mas é preciso luz, é claro. No meu apartamento, eu tenho uma horta na sacada, porque se precisa do sol. Tenho uma jabuticabeira. Como frutas na minha sacada. Colho hortelãs para fazer chá, tenho pimenteira... Eu mesma vou lá e cuido. É uma terapia, cuidar de planta é terapêutico. Alguns pensam que dá muito trabalho, mas tudo que é bom na vida dá algum trabalho. Na verdade, a palavra não deveria ser trabalho, mas terapia mesmo. Você colhe mais do que frutos, mais do que planta; colhe paciência, felicidade... É uma troca, vai ter um retorno - que vem de dentro para fora.


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