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Na batida da Gang

 
 
Eles são jovens habitantes das periferias de um grande centro urbano. Eles não são, a princípio, músicos técnicos. Nem um pouco. Mas decidem se reunir e fazer seu próprio som - seja por rebeldia, seja por não se interessarem por outra coisa; mas, sem dúvida, porque podem. O resultado dessa falta de rigor é uma música rápida, direta, explosiva. A sonoridade - que não é totalmente inédita e já dava sinais de se delinear aqui e ali - ganha outra cara quando alinhada a um visual diferente, debochado e esteticamente forte. Não tarda a virar uma febre a despretensiosa banda, erguida sem grandes ambições intelectuais. Naturalmente, há, em resposta, uma grande resistência dos arautos da “boa arte”, seja lá o que isso signifique. Não importa: como um trator, o grupo passa por cima das críticas - e, mesmo sem saber, faz história. Estamos falando de Londres, em meados da década de 70. Estamos falando de Sex Pistols, os ícones do punk rock britânico. Mas bem que poderia ser sobre a Belém do Pará dos anos 2010. Poderia ser sobre a Gang do Eletro. 
 
A um só tempo, a Gang tem muito e não tem coisa nenhuma de punk. É punk porque rejeita a fórmula tradicional de se fazer música - afinal, não há nada tão do-it-yourself quanto um computador no quarto de casa, uma série de batidas frenéticas e palavras de comando. É punk porque subverte o entendimento do que é arte, moda, comportamento adequado. É punk porque impõe a existência de uma cultura marginalizada em cenários que gostariam de fingir que ela não existe. E, sem dúvida, é punk pela simplicidade - nas letras, na sonoridade, na relação com o público. Mas também não é punk nada.
 
Não é punk porque não precisa da pecha dounderground para se justificar como movimento. Ao contrário: a Gang do Eletro é popular porque gosta de sê-lo; e gosta de sê-lo porque o é. Embora tenha algo de espírito contestador, ele é consequência e não objetivo. Porque a vontade da banda é conquistar, ganhar terreno, ser grande. O instinto é agregador, não combativo. A Gang quer periferia e centro, margem e elite, aparelhagem e festa indie, Belém, Londres, o mundo inteiro. Todos de braço pra cima, só no charminho, treme-que-tremendo até cansar. E indiscutivelmente vem conseguindo.
 
Depois do homônimo primeiro disco, lançado em 2013, muita coisa aconteceu na vida do quarteto: rodaram o Brasil, tocaram nos Estados Unidos e na Europa, conheceram e foram conhecidos por muita gente, levaram prêmio de show do ano pelo Canal Multishow (ao lado de ninguém menos que Caetano Veloso)… A globalização do eletromelody deslocou a banda da categoria “tecnobrega” para uma maior e mais universal: música eletrônica feita no norte do Brasil.     Na hora certa, vem o segundo álbum - “Todo Mundo Tá Tremendo”, recém-lançado pela DeckDiscos, é promessa que já nasce sendo cumprida. A formação também favorece, e muito, o sucesso. Waldo Squash é a mente brilhante e visionária por trás das batidas. William Love é o polo entusiasta, extremamente carismático. Marcos Maderito, o hitmaker popular de personalidade marcante. Keila Gentil tem porte de musa e voz forte; sobe no palco e vira dona dele no mesmo instante. Juntos, são quatro rodas do trator sem freio que - tal qual os punks ingleses setentistas - atropela as regras e abre seu próprio caminho.
 
Eles bateram um papo exclusivo com a Revista Leal Moreira, onde falaram do início, das transformações nesse curto espaço de tempo e da música que fazem. Confira:
 
Como foi o caminho até vocês se juntarem na Gang do Eletro?
 
Will Love: Eu comecei no tecnobrega como DJ, tocando nas festas dos amigos. Com 19 anos, eu comecei a me interessar pelas bandas, até que montei a minha primeira, em Abaetetuba. Conheci a Keila em Barcarena e convidei ela pra trabalhar comigo. Daí viemos pra Belém, pra adquirir conhecimento, fazer contatos. Conhecemos muita gente, passamos por vários projetos. O Waldo e o Maderito já trabalhavam juntos, e então chamaram a gente pra fazer umas gravações com eles. Estamos juntos os quatro até hoje.
 
Waldo Squash: Antes da Gang, eu trabalhei em rádio e como mecânico industrial. Foi nessa época que comecei a trabalhar com o Maderito, Fiz uma faixa pro Superpop e o Maderito colocou voz. Mostrei pro DJ de lá, mas não esperava que ele fosse tocar. A música virou febre. Aí no dia que eu entreguei o lugar no antigo emprego, o Maderito me ligou e convidou pra gente trabalhar junto. Fomos recebendo convite pra fazer música pra equipes de aparelhagem. Quando sentimos necessidade de um vocal feminino - na época, era minha irmã - também precisamos bolar um nome pro grupo. Aí fomos a uma festa de tecnobrega e encontramos vários músicos do gênero. Eles disseram que a gente ia ser intimado porque fazia música pra gangue, e isso ia ser proibido. Isso nunca aconteceu (risos). Mas o Maderito ficou com essa ideia: “já que a gente faz música pra gangue, nós vamos ser a Gang do Eletro”. Mais tarde, saiu minha irmã. A Keila já fazia uns trabalhos pra nós, então convidamos ela e o Will, que trabalhavam juntos, pra tocar com a gente. 
 
 
A Gang saiu do gueto e estourou no país inteiro. O que mudou de lá pra cá?
 
Will Love: Mudou o conhecimento, fizemos novas conexões… A gente começou a participar de alguns festivais daqui, como o Se Rasgum e o Terruá. A galera ficava bastante surpresa, interessada pelo som que a gente fazia. “Existe música eletrônica no norte do Brasil, que coisa louca” (risos). Mudou muito. Hoje a gente já faz um disco pensando não só aqui, mas no mundo.
 
Waldo Squash: A gente começou a aparecer na época do Se Rasgum, onde estouraram pequenas matérias sobre a gente aqui e ali. Lá, nós tocamos no mesmo palco de um monte de gente importante. Depois, firmamos parceria com o Marcel Arêde, da AmpliCriativa, e ele nos ajudou muito a estar em outros espaços. A Priscilla Brasil também nos ajudou muito. A gente não tinha conhecimento desse mercado musical, que é muito diferente do cenário do tecnobrega. Hoje, estamos assinados com a Deck Discos, e trabalhando bastante. 
 
Marcos Maderito: Mudou muito o trabalho do Waldo também. Antes nós gravávamos na casa da mãe dele. Era uma caixinha de som, um computador e um microfone. Agora ele tem toda uma tecnologia, estuda novos efeitos, novas batidas… Hoje ele é uma referência.
 
O que torna a Gang uma banda diferente? 
 
Waldo Squash: A gente sempre inovou nas batidas. Eu sempre experimentei muito: “bora mudar esse bumbo, essa caixa; bora colocar um efeito nesse pratinho (simula o som com a boca)”. A gente experimentava até na masterização. Tudo acabou gerando um diferencial.
 
Keila Gentil: Esse rompimento de padrão, né? Sempre. A gente sempre busca o diferente, Seja musicalmente, seja visual, a nossa postura no palco… Tudo. Até o formato, em relação às outras bandas de brega. Nós somos três vocalistas e um DJ, não tem dançarino; é todo mundo na frente.
 
As expressões e gírias que vocês colocam nas faixas viram bordões rapidamente. Maderito, você que é o maior propagador delas, de onde elas vêm?
 
Marcos Maderito: Tudo que rola de gíria nova nas ruas eu procuro levar pra dentro do universo da Gang do Eletro. São as coisas que se fala na periferia, no dia a dia das equipes de aparelhagem. Eu reúno essas coisas e trago pra gente.
 
Waldo, como rolou a parceria com o Pet Shop Boys?
 
Waldo Squash: Já tinha gente de fora, conhecidos e tal, de olho no que tava acontecendo aqui. E de alguma forma, o primeiro disco da Gang chegou neles. O convite veio por e-mail, um amigo de amigo de amigo me indicou e eles me chamaram pra remixar uma música deles. Me convidaram porque queriam um som diferente, novo. Eu fiquei muito surpreso. Foi uma responsa, deu até frio na barriga (risos).
 
Keila, como tem sido sua incursão pelas artes cênicas? Você participou do curta A Encantada do Brega, agora está atuando em um longa… 
 
Keila Gentil: Foi uma surpresa na minha vida. Recebi o convite, fiz o teste e passei. Tô adorando. Acabou que tô participando de um projeto grande, maravilhoso. E eu não sou atriz, nunca estudei. Tô estudando agora. Mas quem tem arte no coração sempre consegue se virar. A gente dança conforme a música. Ou conforme o texto (risos). 
 
 
Vocês foram bem recebidos no exterior?
 
Will Love: Fomos sim. Tocamos em um festival bem grande nos EUA. Na França, saímos do palco quase chorando de tão incrível que foi o show. Na Alemanha também foi bem especial. Enfim, a gente tem sido tratado com muito carinho por onde passa.
 
Waldo Squash: Os meninos são bem interativos no palco, as música também pedem isso. A galera acaba endossando todos os comandos deles. Lá na França, a gente via a galera tentando dançar como nós. É ótimo. 
 
Marcos Maderito: É, a França é um lugar onde a gente nunca imaginava nem pisar… Quanto mais lotar show e colocar todo mundo pra tremer. Até hoje a galera tem esse gostinho de querer ver a gente tocar de novo lá. 
 
Keila Gentil: No primeiro show, que foi nos Estados Unidos, a gente ficou bem nervoso. Mas a galera curtiu muito, e nós acabamos nos sentindo mais em casa do que em muitos lugares no Brasil. É porque rola aquele minuto de estranhamento até todo mundo se envolver; e lá não teve isso. Eles estão acostumados com coisas ousadas. 
 
Vocês imaginavam sair da periferia de Belém e conhecer o mundo fazendo tecnobrega?
 
Marcos Maderito: Não, nunca imaginei na minha vida. Nunca imaginei pisar no estádio do Vasco, conhecer o Rio, Brasília, Recife, Belo Horizonte, Fortaleza… Nunca imaginei que ia pisar na Dinamarca! A gente espera que esse segundo disco leve a gente a muitos outros lugares. 
 
Will Love: A gente não imaginava nem tocar no Theatro da Paz. A gente rompeu muitas barreiras com esse ritmo.
 
Keila Gentil: A gente não imaginava nem gravar CD! 
 
Como vocês conceberam esse visual?
 
Will Love: Esse visual foi sugerido pela estilista Sandra Machado. Foi no Terruá - nós não tínhamos um figurino ainda, e ela deu essa ideia. Vendo o eletromelody como uma coisa futurista e alegre, ela indicou pra gente essa mistura das pinturas indígenas com as cores de neon, essa fusão. E é isso que somos, né, indígenas eletrônicos. Esses figurinos já foram exibidos em mostra na Universidade Federal do Pará, já foi tema de TCC… Estamos sendo estudados (risos).
 
Keila Gentil: A gente já curtia se vestir diferente. Teve um show, por exemplo, em que eu queria fazer uma performance e não tinha um figurino. A gente sabia que não tinha grana pra falar uma roupa de LED. Até que alguém deu a ideia da luz negra no palco e a gente pintado de neon. Quando fomos para o Terruá, a Sandra Machado ajudou muito a gente, trouxe coisas do acervo dela, criou um visual ousado. Encomendamos pra ela uma identidade, e ela conseguiu colocar na roupa o que é o nosso som. O visual do disco novo tá mais urbano, mas próximo da rua. Pra mim é ótimo, porque vou assim pra todo lado mesmo…
 
Como vocês enxergam a importância desse momento de vocês para a valorização da cultura de periferia?
 
Keila Gentil: A gente fica com um pingo de esperança que tudo mude realmente. A gente trabalha com uma música muito marginalizada, então é bom ver que há caminhos que a gente pode percorrer com ela, quebrando preconceitos. 
 
Dizem que o segundo disco é aquele que dita o rumo da banda. Pra onde aponta o “Todo Mundo Tá Tremendo”?
 
Keila Gentil: Não é um álbum tão batida, é mais povão, mais próximo de quem nós somos no cotidiano. É mais cantado, os sintetizadores não estão tão agressivos. Mas tem o treme, tem cúmbia, regravações… Só tem música paraense no disco. 
Will Love: No nosso primeiro disco tudo era muito eletrônico. Nesse disco agora, estamos mais melódicos. Tem algumas regravações de músicas que a gente curte, nosso visual também tá diferente, mais hip hop… É outra proposta. Estamos sempre buscando coisas novas. 
 
Waldo Squash: Pra mim, o nosso segundo disco foi um lance de reunir o que a gente acha importante no brega. Tem uma cúmbia também. Músicas novas e antigas reformuladas com a nossa cara. A ideia também foi pensar num disco que não servisse só pra balada, que desse pra ouvir no carro; tem a timbragem característica da música de massa… Enfim, quisemos juntar vários elementos pra usufruir de tudo que pudermos.
 
Marcos Maderito: Colocar todo mundo no 220, todo mundo pra tremer. O nome já é doido (risos). É pra ninguém ficar parado mesmo. 

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