REVISTA

Gratidão sem limites

Texto: Elvis Rocha
Fotos: Dudu Maroja

 

Solidariedade. Ligação recíproca entre duas ou mais coisas ou pessoas. Sentimento de amor ou compaixão pelos necessitados, que impele o indivíduo a prestar-lhes ajuda moral ou material.  Qualidade, característica ou estado de solidário. A definição, na letra fria dos dicionários, ganha novas dimensões a cada outubro em Belém do Pará.

 

Na capital paraense, a chegada do Círio de Nossa Senhora de Nazaré, uma das maiores procissões religiosas do planeta, transforma o clima e desperta em muitos de seus moradores a necessidade de transformar o verbo em ação. Pelas ruas e esquinas, antes, durante e após, “ajudar o outro” se torna parte da festa. 

É este estado de espírito que torna possível que a cidade sobreviva ao fluxo assustador de gente que chega, de todos os cantos do estado e do Brasil, para vivenciar a época ciriana, que há muito transcende os aspectos meramente religiosos para tocar não só devotos, mas todos os interessados na experiência do encontro, do reconhecimento do outro. O “Natal dos Paraenses” - como também é conhecido - não ganhou a alcunha à toa. Em nome da Santa Padroeira do Pará, católicos, ateus, evangélicos, afro-religiosos e toda sorte de indivíduos transformam a rotina para tornar a acolhida (um outro nome para solidariedade) em algo maior do que a promessa.

 

O engenheiro e empresário Nilson Aires é um exemplo. Católico fervoroso e membro da Guarda de Nossa Senhora de Nazaré, há 31 anos reúne familiares e amigos numa empreitada ao mesmo tempo exaustiva e gratificante: trabalhar sem descanso para oferecer, nos dias que antecedem a procissão, um pouco de conforto para alguns dos milhares de devotos que chegam a Belém. Morador da Cidade Velha, transforma a rua onde vive e trabalha, a Joaquim Távora, num bunker de apoio para guardas, vendedores, moradores de rua, curiosos e quem mais aparecer. É o “Café da Fé”, projeto que atende anualmente cerca de 6 mil pessoas entre a quarta-feira que antecede o Círio e a madrugada do grande domingo dos paraenses.

“O projeto nasceu de uma promessa minha. No primeiro ano atendemos cerca de 25 pessoas, a maioria de membros da Guarda. No segundo ano, com o boca  a boca, esse número saltou para 300 e, de lá pra cá, só foi crescendo. Foi quando comecei e receber doações. Não é um evento da Igreja, é um evento para a Igreja”, diz. Nas contas de Aires, são consumidos, no período em que o projeto é realizado, em torno de 12 mil lanches e refeições e cerca de dois mil litros de suco, fora as doações de água aos romeiros. “Durante a trasladação servimos 1.500 sopas e no dia da Grande Procissão, além do trabalho aqui na rua, temos um grupo no Ver-o-Peso para auxiliar as pessoas que estão esperando o atrelamento da corda”, ele acrescenta.   

O trabalho para atender toda essa demanda, como dá pra imaginar, é colossal e exige organização, que começa já na semana seguinte ao término do Círio, quando reuniões periódicas de avaliação da edição anterior e planejamento para o próximo ano são realizadas. O projeto, que começou como uma empreitada familiar de Aires com o irmão Ney e a então namorada (hoje esposa) Rivanize, conta atualmente com a participação de mais de duzentos voluntários, entre jovens, adultos e idosos das mais diversas vertentes religiosas. “Os chamo de multiplicadores de solidariedade porque é isso que eles são. Trabalham com o único intuito de ajudar o próximo.”

A “multiplicação de solidariedade” se estende às redondezas. Além da oferta de alimentação para os romeiros, Aires ajuda a organizar uma rede de apoio entre os vizinhos para que os fiéis tenham um espaço para descansar, tomar banho e recarregar as energias antes de seguirem na rotina da fé. “A gente conversa com os vizinhos para que eles cedam um espaço para as pessoas. Entre 50 e 60 casas servem como abrigo para os romeiros no Círio por aqui”, diz. O próprio estabelecimento comercial dos Aires, o “Café da Naza” deixa de funcionar durante uma semana para servir de ponto de depósito dos mantimentos doados e como dormitório dos promesseiros. 

“Desde a quarta-feira ninguém dorme aqui. Mas é um trabalho muito gratificante. A gente fica esgotado, mas feliz”, Aires faz questão de ressaltar. Este ano o devoto tem um motivo a mais para agradecer. Em 2018, por conta de um problema de saúde que o deixou internado justamente na época do Círio, não acompanhou a reta final dos preparativos e nem o trabalho dos companheiros. Recuperado, ele, junto com a família e os parceiros do projeto, já se prepara para o que chama de mais uma experiência de fé e solidariedade. “Vou fazer esse trabalho até quando a idade não aguentar mais. E sei que depois que eu não puder mais fazê-lo ele será continuado pelos meus filhos.”

Plácido

Iniciativas como a de Aires e Cia. têm raízes fundas na tradição cristã, mas ganharam contornos muito específicos que se manifestam durante a festa do Círio. Quem diz é o padre José Maria Guimarães Ramos, mestre em Ciência da Religião pela Universidade do Estado do Pará e doutorando em Sociologia e Antropologia pela Universidade Federal do Pará. Autor do livro “A aparição de Nossa Senhora de Nazaré em Belém do Pará - O sagrado na Amazônia”, ele conta que a solidariedade como traço cultural do paraense está associada a uma figura central na história da devoção: Plácido José de Souza, caboclo que em 1700 encontrou a imagem nas águas do Murucutu.

“Maria escolheu Plácido e este a acolheu, é assim que ele entra para a história. Depois que encontrou a imagem, a casa do caboclo se encheu de pessoas que se reuniam para fazer orações”, explica o pesquisador. Ele argumenta que a lenda em torno das muitas idas e vindas da imagem - que voltava às águas do igarapé sempre que retirada por Plácido -, também ajuda a compreender algo muito importante sobre o sentido do Círio e da acolhida: o respeito ao outro. “Se colocar no outro é característica da fé. Plácido entende que lá é que Maria quer ficar e a partir de então constrói uma choupana para a imagem, iniciando a devoção que se tornou o Círio.”

José Maria acrescenta que, além das questões religiosas, o sentimento de acolhida na época da quadra nazarena tem muito a ver com peculiaridades da cultura paraense desenvolvidas ao longo da história.  Com as primeiras edições do Círio, começaram a se consolidar elementos que depois ficariam associados ao período e passaram a integrar a dimensão da festa, como a criação de um mercado durante a realização das festividades, que começou a atrair visitantes das ilhas no entorno de Belém. “O Círio era também momento de fazer negócios. E essas pessoas que vinham participar da festa ficavam hospedadas normalmente em casa de parentes.” 

Com a chegada dos romeiros, as trocas materiais ganharam um novo status. Ao juntar a dimensão comunitária da fé com os sentimentos coletivos que os festejos normalmente despertam, criou-se um combo poderoso que se manifesta na maneira muito particular com que a maioria dos paraenses vivencia a devoção pela padroeira do estado.

“Existe a questão do lugar, a preparação da comida. É uma coisa bem amazônica. Há o costume da pessoa vir do interior e trazer alguma coisa, uma farinha, uma maniçoba: são trocas simbólicas mediadas pela fé que se tornam expressões de fraternidade. A partir do momento em que alguém é recebido por uma família no Círio, ela passa também a fazer parte daquela família”, diz.

Casa de Plácido 

A inauguração da Casa de Plácido, em maio de 2010, é vista pelo padre e pesquisador como um marco. Administrada pelos padres barnabitas, o espaço ocupa uma área de mil metros quadrados dentro do Centro Social de Nazaré, numa estrutura que conta com ambulatórios, salão de repouso, refeitório e banheiros, idealizados para servir como ponto de apoio para os fiéis que chegam à capital paraense o ano inteiro, mas especialmente durante o Círio. “Esse modelo de acolhimento que é oferecido pela Casa de Plácido não existia em lugar nenhum. O centro de acolhida em Aparecida, por exemplo, se inspirou no trabalho que é feito aqui em Belém”, aponta.

O trabalho junto aos romeiros durante o Cïrio é realizado pelos integrantes da Pastoral da Acolhida da Paróquia de Nazaré. Criada pelo padre Raimundo Silvio Jaques em 2002, em “tempos normais” conta com dez integrantes que se reúnem diariamente numa pequena sala localizada nos fundos do estacionamento ao lado da Basílica. Em outubro, este número salta para aproximadamente 1200 voluntários. Socorro Almeida, uma das coordenadoras da pastoral, diz que a expectativa para este 2019 é que o trabalho na Casa de Plácido atenda aproximadamente 85 mil pessoas. “No começo eram apenas 500 pessoas, número que a cada ano só faz crescer”, ela diz.

O voluntariado oferecido pela Pastoral da Acolhida atua cinco dias antes e 15 dias após a Grande Procissão, e da quarta-feira que antecede o Círio até o sábado da trasladação, os serviços são oferecidos em esquema de 24 horas de trabalho, com o núcleo de voluntários, que conta com profissionais das mais diversas áreas, colaborando em sistema de escala. Todo material utilizado é conseguido por meio de doações. “Temos médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, gente de todos os tipos que durante o Círio tira um tempo da sua agenda para fazer esse trabalho tão importante de acolher o próximo e mostrar seu amor por Maria através da doação.”

Na pastoral desde que ela foi fundada - com um curto intervalo de tempo afastada para realizar outros trabalhos na Paróquia de Nazaré -, Socorro se diz realizada por participar da festa doando seu tempo para a tarefa de cuidar do outro. Assim como muitos dos que participam, atribui à intercessão da Santa o fato de um trabalho com tanta demanda e responsabilidade ser realizado a contento no final das contas. “É um trabalho cansativo, mas muito bonito. Só quem tem a oportunidade de ver o que acontece nesse tempo sabe como é gratificante enxergar a gratidão nos olhos das pessoas durante o Círio de Nossa Senhora”, ela diz, resumindo o espírito da coisa. 


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