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Eu posso voar

Na noite passada, sonhei que podia voar. Sério. Não se tratou de algo na direção do absurdo, tipo Super Homem. Voar era possível, para mim. Uma questão de concentração. Uma certeza interior em que bastava lançar-me ao ar e comprovar aquilo. Talvez uma influência do seriado “Heroes”, que certa vez assisti e percebi, em um dos personagens, esse poder. Nada espetaculoso, com capas e uniformes esdrúxulos. Eu podia voar e ao fazê-lo, descobria o grande prazer dos pássaros, livres, sentindo o vento e usando dele para fazer manobras ou, simplesmente, ficar planando, contemplando o cenário. Depois de acordar e lembrar o sonho, passei o dia a meditar como isso seria possível. Ao ter a vontade ou necessidade de voar, que maravilhosa transformação se daria nas moléculas de meu corpo, que mudaria de peso, bastando um movimento de braços, como se em uma piscina, usando, a partir daí, o ar como quem nada, ou simples e discretos movimentos com as mãos, sei lá. E uma vez no ar, até que altura iria? E as correntes de vento me atirariam para longe, sem controle? Pensei que em um dia de vento, ousaria ir até a academia onde malho, voando. No caminho, uma nuvem de chuva me atiraria no meio da selva amazônica. Não pode funcionar assim. Imaginem em nossa cidade, onde passamos metade de um ano debaixo de água? Voaríamos, mesmo assim, com capas impermeáveis, como fazem os motociclistas? E a que velocidade? Como dosar isso? Os mais jovens, passando, chispando, para reclamação dos mais velhos... E se decidisse, em julho, ir até Salinas? Iria, quem sabe, na companhia de ultraleves, margeando a zona do Salgado, acenando para as multidões lá embaixo. Querem mais? Que tal ir até o Rio de Janeiro, Miami, cruzar o Atlântico, até Londres. Não, definitivamente, o sonho não tem condições. Cruzar o Atlântico, a que altura, com que temperatura, e a que velocidade?

E se todos pudessem voar? O mundo seria diferente, meus amigos. A ideia de moradia, por exemplo. Nossos prédios seriam como pombais? Qual seria o estilo? E as ruas? Para quê, ruas? Transportes coletivos? Como? Aviões, por exemplo. Bem, imagino que viajar entre cidades talvez necessitasse de algum serviço, alguma rota estabelecida, para o caso de chuva, neve, ou mesmo alimentação, necessidades fisiológicas. Iriam todos juntos, para maior segurança. Ih, não dá para deixar de falar nisso, não é? E a segurança? Assaltantes alados. Mudaria nos esportes? Haveria futebol, por exemplo? Corridas de fundo? Ou as corridas seriam aéreas? E o futebol seria como aquele jogo mostrado no Harry Potter? E já que todos voam, a moda seria também específica para isso. Afinal, não se pode sair voando por aí em um fim de tarde perfeito de julho, com aquele pôr-do-sol, em uma produção chinfrim. Jovens mais ousadas voam baixo e não se importam se a galera olha de baixo, para conseguir ver o que outras tentam esconder. Essas meninas! Em vez de galinhas, seriam chamadas como? Teremos a Flying Fashion Week, evidentemente. E no mês de junho, as quadrilhas dançarão no terreiro e nos ares, com evoluções em torno de belíssimos balões de São João. Enfim, seria outra coisa. E quando nos perguntassem algo que não sabemos, podemos dizer “estou voando sobre isso” e ficaria por isso mesmo.

Querem saber? Preferia que voar fosse um segredo meu. Só meu. E, sabendo o que poderia provocar com isso, permanecesse assim. Para ser usado em momentos inusitados e claro, sem testemunhas. Algumas facilidades. Na falta de energia, subir os sete andares até meu apartamento, por exemplo. Chegar ao local desejado, tendo à frente um imenso engarrafamento. Para ser usado esporadicamente, a ponto de me deixar em dúvida. Como é mesmo que faço para voar? E tentar a concentração. E lançar-me ao ar, assim, direto do chão. Afinal, nada de correr o risco de brincar disso no último andar de um prédio de 50 andares... Parei em uma esquina. Olhei para os lados. Procurei me concentrar no que ia fazer. Parecia tão fácil, tão certo, perfeito. Aprumei o corpo, lancei os braços e fui.


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