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REVISTA

Encadenando a vida

De rocha em rocha, Felipe Camargo deixa a sua marca no mundo da escalada

O termo “encadenar” significa que durante todo o percurso de uma via de escalada, o escalador não se apoia nem na corda, nem segura em nenhum objeto que não faça parte da linha natural. E é justamente encadenando vias por todo o mundo que Felipe Camargo ostenta, aos 25 anos, não só uma coleção de títulos e aventuras pelos lugares mais incríveis do mundo, mas a façanha de ser o primeiro brasileiro a viver profissionalmente da escalada esportiva.

A superação dos limites corporais e os desafios inerentes à modalidade, levaram Felipe a encarar com outros olhos o que começou como uma simples brincadeira de criança, por volta dos 10 anos. “Comecei por um acaso, no Clube Sesc. Eu experimentei a escalada, passei a ir toda semana e nunca mais parei”. De lá, migrou para as paredes do Altitude Escalada, um clube localizado em sua cidade natal, São José do Rio Preto (SP), onde treina até hoje. “Alguns anos depois, por volta dos 12, os instrutores me levaram para fazer a primeira escalada em rocha, próximo a São Carlos. Eu lembro de que gostei muito do que senti”. Daí a brincadeira da infância passou a virar coisa séria. Aos 13 anos participou da primeira competição oficial até chegar ao seu primeiro título internacional: foi campeão do Sul-americano Juvenil, na Guatemala, em 2006.

A competição entrou para a história, não só por ter sido a primeira grande vitória internacional, mas por ter tido um patrocínio inusitado. “Na época, para participar do sul-americano, conseguimos o patrocínio de uma marca de refrigerantes da região, só que o patrocínio veio em forma de produto. Dai fizemos um mutirão para vender o refri e levantar o dinheiro para a viagem”.

A partir daí, Felipinho, como era conhecido no início da carreira, decidiu seguir profissionalmente na escalada, sempre apoiado pela família que até hoje o acompanha e incentiva. Foram necessários somente dois anos para que se tornasse o primeiro brasileiro a escalar uma via 11a, conhecida como “Ali Hulk”, em Rodellar, na Espanha. O local é considerado um dos melhores lugares do mundo para a escala esportiva.

 

 

De rocha em rocha

O reconhecimento entre os escaladores vem a cada desafio superado. Felipe não soma apenas títulos e muitas horas de escalada. Hoje, ele atua ao lado dos melhores profissionais do mundo, entre eles Chris Sharma, um dos maiores alpinistas do mundo, em quem se espelhava desde criança. “Eu sempre o admirei e agora somos amigos, até porque o mundo da escalada ainda é pequeno.”

Pequeno talvez, mas nem um pouco limitado. Foi a escalada que levou Felipe a conquistar o primeiro lugar do Ultimate Beastmaster Brasil, uma competição transmitida com exclusividade pela Netflix, na qual atletas de seis países diferentes competiram em um dos maiores circuitos de obstáculos do mundo. “Eu fui convidado para participar do programa, mas fui sem pretensão nenhuma. Jamais imaginei que a experiência da escalada me levaria à vitória.”

 

 

Superando limites

E apesar das competições fazerem parte da profissão, nem de longe são o foco do esportista. Para os Jogos Olímpicos de 2020, quando a escalada integrará oficialmente a programação, a ideia inicial é ir apenas como espectador. “Ainda não sei se irei participar, meu foco no momento são os desafios pessoais”.  

Um dos últimos foi realizado no ano passado, aqui mesmo no Brasil, quando em companhia da parceira de escalada Sasha Digiulian, “enfrentaram” o maior paredão rochoso da América Latina, a Pedra Riscada, com 1.260 metros de altura. A via de 650 metros de extensão está localizada em Minas Gerais e possui alguns trechos que atingem 8a de dificuldade, a maior nota de graduação dentro do montanhismo, algo extremamente difícil de se completar.

Em relato para o site da Red Bull, sua principal patrocinadora, Felipe conta que foi a primeira vez que dormiu em um paredão. O desafio durou três dias e duas noites. “Eu nunca tinha dormido na parede, embora já conhecesse todos os procedimentos. Mas foi tranquilo, tirando a parte da chuva.”

Em outubro deste ano, Felipe embarca para a Espanha para encarar mais uma vez a Pachamama 9a , “uma das melhores vias que já tentei na vida...beira a perfeição”, disse em seu Instagram pessoal @felipe.camargo, no qual coleciona paisagens de tirar o fôlego. Os treinos, as tentativas de encadenar as vias, tudo vem sendo documento para projetos futuros. “Continuarei nas competições, mas quero investir cada vez mais na documentação das expedições em vídeo. Tenho alguns projetos futuros neste segmento”. 


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