´╗┐´╗┐

REVISTA

Do rio para as ruas

 
São tortuosas as estradas que precisamos percorrer até que nos tornemos quem somos. São ramais, rios, dores, muros, desvios, aviões, idas e voltas. É preciso alguma coragem; um tanto de abandono, outro de resiliência. Também é bom assumir-se como um arranjo temporário, compreender-se em construção. Só se torna quem é quem sabe que é impossível ser, absoluto e encerrado. Mas há beleza e certo senso de justiça na vida – a cada etapa vencida do caminho, o caminho vai se tornando mais parte de quem se é. Como se, percorrida a tal estrada, a própria estrada lhe fosse presenteada na linha de chegada. É o prêmio de quem segue: ter seguido. Trazer consigo tudo que viu e viveu, e poder usufruir da memória do processo sob o viés do que foi aprendido. Vive-se o caminho para tornar-se quem é; torna-se o caminho para viver-se consciente. 
 
Sebastião Tapajós Junior não precisou de tanta filosofia para aprender com cada passo dado, e menos ainda para incorporá-los ao próprio trabalho. Sua ainda curta (porém muita) vida tratou de doutriná-lo no empirismo. Aos 30 anos, Sebá – como é mais conhecido – tem muito em si do que percorreu: “um terço no Pará, um terço no Rio de Janeiro, um terço na Bahia”, que é como ele divide a própria vida; alguns meses na Europa; o bairro do Reduto, em Belém; as trilhas de rio nas proximidades de Santarém. Cada trecho de chão está presente no que ele faz; assim como cada dificuldade, cada recomeço. O grafite, idioma eleito pelo artista para todo o discurso que carrega, é veículo perfeito para juntar tanta coisa – é vibrante e é político; é pop e transgressor; universal e cheio de raízes. Assim também é Sebá.
 
O contato com a arte vem da infância carioca, embora sob perspectivas bem diferentes. Quando menino, a habilidade com as tintas emulava a linguagem da arte tradicional – óleo sobre tela, natureza morta. O garoto era bom: aos nove anos, ainda recém-pintor, ganhou prêmio de revelação mirim em uma exposição coletiva promovida pelo jornal O Globo. Nem lembrava o pequeno que, dois anos antes, escapara da morte com um traumatismo craniano ao cair de uma rede no apartamento onde morava com a família, no Rio de Janeiro. A pintura e o desenho foram companhias intensas no processo de recuperação – e também na ausência dos pais, que trabalhavam intensamente e nem sempre podiam estar em casa. A mãe, a bancária Marisa Carneiro, saía de manhãzinha e só voltava de noite. O pai, o aclamado músico Sebastião Tapajós, vivia o boom de sua carreira e viajava mais que ficava. “Eu ficava muito tempo ocioso”, lembra. 
 
  
 
Como não era lá um estudante muito interessado, era no traço que ele se destacava. “Não gostava de estudar. Eu me virava pra ganhar a simpatia dos professores me oferecendo pra desenhar nas aulas. Eu era um aluno prestativo e alegre. Me ajudou bastante a passar de ano”, diverte-se. As melhores notas eram nas únicas disciplinas que lhe interessavam: História e Geografia. Por isso, foi com muita surpresa e indignação que Sebá recebeu um zero em Geografia, em plena quarta série. “Eu me interessava bastante pela disciplina. Talvez pelas viagens do meu pai, acabei me interessando indiretamente pelo mundo. Fiquei tão chateado de zerar a prova que até briguei com a professora. Quando minha mãe foi à escola, ela descobriu a razão: a avaliação era baseada em pintar cada região do Brasil com a cor indicada em um mapa, e eu errei todas as cores. Foi aí que nós descobrimos que eu era daltônico”, revela. O daltonismo, parte importante da maneira como o artista enxerga (e bem mais avançado do que ele pressupunha na infância), o fez explorar o preto e branco por muito tempo – até que criou sua própria paleta de cores preferidas, o que subverteu a deficiência e o fez entregar-se a um universo de cores intensas, hoje características de seu trabalho. “Eu criei um mundo pra mim. Se eu precisar pintar um rosto realista, ele vai ser violeta, azul, com luz amarela...”. 
 
Outra novidade mudou de vez o rumo do que Sebá produzia: a separação dos pais motivou um período de grandes transformações em sua vida, tanto de cunho emocional quanto de realidade aquisitiva. Agora morador da periferia, o ainda jovem Sebá se afastou muito do pai – e também do ensino formal da arte. Embora ainda desenhasse, passou a se dedicar ao esporte (foi campeão de Jiu-Jitsu na adolescência) e à cultura de gueto. “Ficava o dia inteiro na rua, estava emocionalmente isolado. Meus amigos eram os da baixada, e eu me relacionava melhor com eles do que com meus amigos de escola, que tinham dinheiro. Junto a isso, comecei a ter acesso aos videoclipes de hip hop que estavam chegando ao Brasil, e aquela estética me chamava atenção. Foi nessa época que eu comecei a pichar”. O grafite do Rio no início dos anos 90 não era coisa muito bem vista pela sociedade. “Ainda era tudo muito proibido, a gente pintava e apanhava da polícia, levava tinta... Tinha que pintar uma área enorme em no máximo 40 minutos, porque tinha que sair correndo. Era bem toscão, mas era a época”, justifica, entre risos. 
 
A marra desabou quando o pai sofreu um infarto. Perto dos quinze anos, Sebá largou a vida carioca e correu para Santarém, para passar um ano cuidando de Sebastião. A reaproximação também provocou um novo olhar sobre seus laços com o Norte do país. “Foi quando eu comecei a fazer esse resgate daqui, de recriar vínculos com um lugar que tinha ficado na minha infância. As minhas memórias mais legais ficam no meio da Amazônia, pescando, andando de barco”.
Apesar do bom contato, ainda não era o momento de montar campo no Pará. O adolescente não se sentia exatamente à vontade com o novo cotidiano da família paterna, e decidiu partir para Salvador – onde morava a afetuosa família do segundo marido de sua mãe. A Bahia foi uma redescoberta e tanto de si mesmo. Além de se aproximar do Zeroseteum Crew – um coletivo de arte urbana – e ajudar a impulsionar a grafitagem na capital, Sebá descobriu lá o interesse pelo mundo da tatuagem. “O Rio estava me tornando muito duro, muito agressivo. Em Salvador eu consegui ser feliz. É uma cidade pela qual eu tenho muito carinho. Lá, fiz supletivo pra terminar o segundo grau. Quando saía da escola, ia pro estúdio de tatuagem de um grande amigo, que me ajudou muito. Foi onde eu comecei a desenhar pra isso. Depois de um tempo, eu mesmo passei a tatuar e a ganhar meu dinheiro. Salvador me resgatou artisticamente, lá encontrei apoio pra fazer o que eu queria. Todos me incentivaram a ser artista. Pouquíssimos me incentivaram a ser grafiteiro”. 
 
Depois da temporada baiana, as coisas passaram a acontecer mais depressa. Sebá voltou a Belém outra vez, se aproximou de um dos poucos estúdios de tatuagem que existiam aqui à época, ficou mais um ano – quando se aproximou de verdade do pai Sebastião, resgatando laços que não mais se romperam. Voltou ao Rio, participou de um salão de artes, ganhou bolsa. Fez faculdade, na sua própria marcha – e a concluiu entre idas e vindas. Expôs na Espanha, em Portugal, conheceu pessoas, passou pelo Rio outra vez... Até que decidiu voltar. “Eu sempre amei, e sempre quis viver eternamente aqui em Belém. Minha mãe mora no Rio, meu pai mora em Santarém. Eu acabo ficando meio solto aqui, meio solo. Mas trabalho muito”. 
 
A andança por fora do país deu ao artista uma ótica bem diferente sobre seu próprio lugar. “Observei muito as zonas portuárias de lá, e voltei decidido a melhorar a daqui, melhorar a cidade”. Nessa busca por maneiras de explorar o potencial da cidade para o grafite, ele acabou sacramentando o bairro do Reduto – uma paixão antiga – como o seu terreno para tal. Lá, os grafites são todos dele. Foi lá também que Sebá realizou o Reduto Walls – um evento de grafitagem que chamou a atenção do país inteiro; e que não teve proporções maiores por falta de apoio. “Aqui [no Reduto] eu conheço desde os moradores mais convencionais até os ‘malacos’. E eles me respeitam porque sabem o que eu tento construir aqui. Por isso fiz o Reduto Walls, bancando do próprio bolso, trazendo as pessoas. Ninguém se interessou em ajudar. Não tive apoio nem mesmo pra cessão de muro pra pintar – muro que hoje tá muito pior, tomado por pichação, pelos usuários de crack. O cara que nega esse espaço está ignorando artistas que expuseram na Bélgica, na Alemanha, na Europa inteira. Tá desprezando uma obra avaliada em mais de cem mil reais – e eu não tô falando da tinta, tô falando de um trabalho humano valiosíssimo”, critica. “Esse bairro tem tudo pra ser uma Meca do grafite no Brasil, como acontece em São Paulo, pela magnitude que ele tem. Por isso que, mesmo sem grana, eu me meto a fazer, pego grana emprestada, me viro e faço. Não consigo me desligar do que eu sinto que preciso fazer. Eu tento mexer com tudo pra ver se as pessoas também se mexem”.
 
 
Críticas, aliás, não faltam no discurso contundente de Sebá. Ele faz duras objeções à política cultural, ao governo em todas as instâncias, à falta de incentivo, à truculência policial, ao desinteresse do empresariado, à sociedade. Enxerga as manchas mais tenazes da vida na cidade, reflete soluções, resmunga a apatia. Tudo fruto de quem o grafite o tornou. “Hoje meu trabalho é bem pop, mas eu não consigo me desligar do social. Faz parte da minha formação. Eu dei muita aula pra comunidade, dei aula pra institutos de recuperação de menores infratores em Belém e no Rio... Quem faz parte dessa raiz sabe do meu comprometimento com uma ideia de mundo melhor”. A relação do artista com o movimento hip hop e as questões sociais é intensa e apaixonada. “O hip hop não é uma música. Não é colocar um boné de aba reta. Faz parte de um contexto social, de uma ideologia, de um estilo de pensamento que vem desde Luther King. Existe uma espécie de irmandade do grafite e da cultura hip hop no mundo inteiro. Se você contata um grafiteiro na Alemanha pra fazer um trabalho lá, é bem provável que ele vá te receber, te dar guarida, te ajudar”.
 
O trabalho de Sebá Tapajós, sua inventividade e talento acabaram projetando-o mundialmente, muito além dos muros. No Brasil, ele virou querido de muitas celebridades. Recentemente esteve no programa Encontro com Fátima Bernardes, da Rede Globo; e também assinou a capa do novo DVD de Lulu Santos. Apesar de muito grato e feliz com o excelente momento profissional, o artista entende que o sucesso não toma o espaço cativo que é da rua. “O grafite se tornou algo mais high society. Ganhou até um subtítulo: ‘grafite fine art’, que é um grafite de galeria. Tem muita gente que se diz grafiteiro e não tem uma letra própria. Isso é muito relevante pra quem é realmente do movimento. Mas isso é um processo natural da disseminação. É o que tem de mais jovem na história da arte”, analisa. “Mas o grafite é a rua. Ele te traz uma bagagem de convivência que a pintura não te traz. As pessoas me cobram quando eu paro de pintar na rua. Eu gosto. Você tem que ter essa essência periférica. Quando a gente pinta na rua, a ideia é chamar atenção pra própria cidade. Pras suas mazelas, suas dificuldades, pra segurança pública”. Sebá, que perdeu um irmão pra violência nas favelas, acredita que o bom combate, porém, não se faz na mesma moeda da agressividade. “Eu acredito que a gente precisa falar de felicidade, em vez de insistir na dureza. É legal ver amigo que melhorou a sua comunidade com cor, com arte. Antes, ele pintava o carinha com arma; hoje ele pinta um passarinho, o filho dele brincando, a vista do alto do morro. Isso é tão mais contemplativo, lúdico... Acaricia tão mais a alma pro dia a dia de quem vive nessa região”.   
 
Hoje, Sebá quer proporcionar esse carinho para quem vive na beira dos rios. É parte de seu novo projeto, o #StreetRiver. Com o ambicioso plano de montar uma galeria de grafite fluvial, o artista tem pintado casas e barcos ribeirinhos – o que rendeu uma bela exposição na galeria do CCBEU, a convite dos também artistas plásticos Jorge Eiró e Geraldo Teixeira. “Eu sempre tive essa ideia de pintar as margens do rio. Tem muito do que eu ouvi na minha infância, aprendi com meu pai... A ideia do Ruy Barata de ‘Esse Rio é Minha Rua’. Além disso, Belém é turisticamente voltada pra zona portuária, pro rio. As pessoas vêm pra cá pra ver isso”, analisa. Desse tema, já surgiu a mostra, um documentário e as próprias obras do outro lado do rio. A imagem indígena, tema recorrente em seu trabalho, também segue presente nessa fase. O artista tem desenhado crianças de tribo em contato com elementos da cultura essencialmente urbana.
 
“Eu acho que o lugar mais original culturalmente no Brasil é a região norte. Tudo nosso vem dos nossos primeiros moradores, que foram os índios. Nossa gastronomia, nossa dança, nossa arte. E eu sempre fui louco por criança, vou ser pai esse ano... Então resolvi juntar essas coisas todas – meus grafismos, a figura da criança indígena, os elementos da contemporaneidade da moda. Foi assim que nasceu essa série dos índios pop. Acaba trazendo um discurso de como o capitalismo acaba corrompendo a cultura indígena, roubando sua essência. Tudo se mistura”, explica. Para ele, é importante celebrar ribeirinhos e índios como “povos da floresta – gente que nela vive e dela se sustenta”.
 
O momento não poderia ser melhor para o grafiteiro. O #StreetRiver é a costura perfeita de tudo que ele viveu até chegar aqui: a rua carioca, o rio santareno, os rumos de Salvador. E como não poderia deixar de ser, Sebá Tapajós está em paz com quem é e com o caminho que percorreu para sê-lo.
 

Comentário