REVISTA

Correção Política

 
Imagine algumas das cenas abaixo:
 
Cena 1 - Indústria convoca seus mais de cinco mil colaboradores para uma assembleia onde devem decidir se o refeitório pode substituir carne vermelha por soja.
 
Cena 2 - Renomada cadeia de lojas com mais de 300 pontos de venda convoca seus clientes para um plebiscito a fim de saber se pode aumentar em 10% o preço do ferro elétrico.
 
Cena 3 - Hospital com mais de mil leitos reúne os pacientes internos para discutir o melhor horário para que se apaguem as luzes.
 
Parece risível? Pois a continuar a onda do politicamente correto e da exacerbação do conceito de democracia não tardará a vermos com naturalidade esse cenário. Pode até soar coerente, pode parecer melodia aos ouvidos de alguns, mas do ponto de vista prático é um completo atraso.
 
Não precisamos de assembleísmo para tomar decisões que não sejam estratégicas, no mundo corporativo e até mesmo no universo público, atitudes como estas podem paralisar o sistema. Se a decisão pela soja no refeitório for tomada pelo nutricionista com seus gestores e não for do agrado público certamente haverá uma queda na frequência do restaurante ou uma intervenção do sindicato. Se o lojista decide elevar o preço do ferro elétrico e seus concorrentes não o fizerem haverá uma menor demanda pelo produto e ele avaliará se vale a pena a decisão tomada. A insatisfação no hospital poder ser medida pelo número de reclamações dos pacientes e seus visitantes. 
 
Ou seja, existem vários outros mecanismos de aferição da vontade popular que não seja o reducionismo às diversas formas de consultas públicas. O sistema é tão mais perfeito quanto mais seus mecanismos de auto-regulação sejam compreendidos e respeitados. 
 
O que assusta muito as vozes politicamente corretas é a visão de que as decisões devem ser compartilhadas, transparentes e outros termos do jargão. Decisões infelizes geram resultados igualmente infelizes e quem as tomou se não for capaz de entender sofrerá as consequências. Isso vale para empresas e governos, isso vale para famílias, para relacionamentos pessoais e tudo mais que envolver a árvore de decisões que devemos tomar diariamente.
 
São nossas decisões, isoladas ou compartilhadas que definem nosso futuro e temos que ter a devida compreensão dos seus efeitos. Decidir não é fácil, sempre temos várias escolhas em que muitas opções parecem absolutamente válidas. Temos sempre um anjo e um demônio em nossos ouvidos agindo como advogados de causas contraditórias. 
 
Decisões coletivas são fundamentais e merecem consultas e reflexões em grupo, mas devem ser reservadas às questões estratégicas. É por isso que nas empresas temos separadamente a diretoria executiva, das decisões diárias e o conselho de administração, para as questões estratégicas. Assim deve ser para se ganhar agilidade. 
 
Não podemos ficar reféns do politicamente correto nem da extrapolação do conceito de democracia sob pena de simplesmente ficarmos paralisados e nada decidirmos como numa assembleia de condomínio. Alguém quer ser síndico?
 
Só para ilustrar a tese, recentemente o governo bateu pé numa questão sobre a correção da tabela do imposto de renda na fonte. As reações das instituições, que reverberaram no congresso, o local certo para o clamor das ruas, fez com que o governo recuasse e atendesse o pleito social. Não foi preciso um plebiscito ou consulta pública, a insatisfação encontrou eco e obteve o resultado desejado. Se ninguém reclamasse o governo não recuaria. Assim são os mecanismos de proteção social, da mesma forma que uma empresa que não entende seus clientes, seu mercado, não prospera, governo que fica distanciado perde popularidade e não ganha eleição. Não precisamos de assembleísmo, precisamos participar mais do jogo democrático, dentro das regras dele com as devidas instituições, imprensa livre, congresso soberano, organizações sociais estáveis e até as redes sociais.

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