´╗┐´╗┐

REVISTA

Charme x comodidade

Escreverei uma obviedade logo nesta minha reestreia na Revista Leal Moreira: não se faz mais cinema como antigamente. Não me refiro aos filmes em si, que, é claro, hoje dispõem de um aparato tecnológico impensável no século passado, aparato que, de quebra, lhes permite enveredar por gêneros outrora inexistentes. Nem, tampouco, falo da arquitetura das salas, que incorporaram avanços como as poltronas ergométricas e os suportes para copos. Não falo nem mesmo da migração maciça dos cinemas de rua para os shopping centers, cheios de seguranças e vagas de estacionamento. Tudo isso é jogo jogado. Perdeu-se um pouco de charme, admito, mas ganhou-se em comodidade.

Então, pergunto-me, por que tenho ido pouco ao cinema?

Há uma primeira resposta, igualmente óbvia. Não foram só os cinemas que se tornaram mais cômodos, ora. A minha casa – e a sua, tenho certeza – também se tornou mais confortável. Por exemplo: passou o tempo em que as pessoas iam ao cinema para usufruir de seu ar-condicionado central no auge do verão; hoje, com as facilidades de crédito, o ar-condicionado caseiro está ao alcance de muito mais gente. Ufa, porque o aquecimento global está aí... Além disso, agora há filmes disponíveis não só nos velhos canais de TV aberta, mas também em dezenas de canais por assinatura, em DVDs e em Blu-rays (paro aqui apenas porque não estou entre os que os baixam da internet).

Há, porém, uma resposta menos óbvia, porque pessoal. Hoje, vou muito pouco ao cinema porque mudou o modo de se assistir aos filmes coletivamente. Nasci em 1963. Ou seja, quando criança, ainda peguei o tempo em que “ir ao cinema” soava quase como “ir à missa”. As pessoas botavam suas melhores roupas e havia todo um cerimonial envolvido. As salas de exibição ficavam nas principais avenidas, eram enormes e, como num espetáculo de teatro, tinham cortinas que se abriam para revelar a tela na qual o filme seria exibido. Se o filme fosse muito longo, havia intervalo.

Uma ponte longe demais (1977), do diretor inglês Richard Attenborough, dramatização de uma operação semifracassada dos “aliados” durante a Segunda Guerra Mundial, tinha 183 minutos. E intervalo após hora e meia de projeção. (Quem tem paciência para um filme de 183 minutos hoje em dia?) Naquele tempo, enquanto a fita rodava, a plateia estava concentrada no que acontecia com Sean Connery ou Gene Hackman sob balas de festim alemãs na Holanda. A sala permanecia silenciosa e escura, a não ser pela iluminação indireta das granadas cenográficas que explodiam na tela.

Por já ser naturalmente dispersivo, sinto falta da concentração que o cinema me impunha. Um dos grandes baratos era que ele, de fato, nos fazia esquecer a vida lá fora. Hoje, esse esquecimento tornou-se uma utopia. A vida lá fora insiste em entrar na sala escura – por intermédio dos celulares que, mesmo quando não tocam (!) e são atendidos (!!), se iluminam ao serem acionados para a conferência das mensagens.

Outro dia, um conhecido meu tentou argumentar com uma senhora que, ao seu lado, digitava freneticamente no aparelho, aparelho cuja luz atrapalhava a imersão cinematográfica de quem estava em volta. “Mas eu preciso responder...”, foi a resposta, entre irritada e angustiada. Pouco provável que ela fosse uma neurocirurgiã à distância ou uma ministra do STF e de fato precisasse responder bem naquele momento. No entanto, se a tal senhora sentia que “precisava” responder, isso era verdade – para ela ou para uma parte do seu inconsciente. Volta e meia, as revistas semanais publicam matérias sobre as novas doenças sociais fomentadas pelo vício em alta tecnologia.

Na verdade, estamos tão mergulhados neste novo mundo interconectado que nos solicita a todo instante, por mensagens de e-mail, torpedos ou recados nas redes sociais, que temos dificuldade de perceber o quanto isso é antinatural. Contudo, até isso é jogo jogado: ninguém pretende revogar os avanços tecnológicos dos últimos quinze ou vinte anos. Resta-nos aprender a aproveitar desses avanços sem que eles criem exigências humanamente inalcançáveis, sem que se tornem fonte de ansiedade permanente.

Mas estou me dispersando. De volta ao cinema, rápido, de volta ao cinema...

Desenvolvi a seguinte tese. Antigamente, assistíamos à TV como quem ia ao cinema: todos juntos diante de um único aparelho, na medida do possível quietos etc. Hoje, nos portamos no cinema como se estivéssemos em casa: atendemos telefones, falamos alto, zapeamos etc. Bem, zapear ainda não zapeamos, mas temo que, mais cedo ou mais tarde, alguém invente uma forma interativa de se ir ao cinema. Cada poltrona terá botões que permitirão ao espectador assistir ao filme desejado – e trocar quando ele perder o interesse. No telão, será exibido o filme escolhido pela maior parte dos espectadores. De dois em dois minutos, o sistema fará outra verificação e...

Com licença que vou ali registrar uma patente e já volto.


Comentário