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Cará ou inhame?

 
A confusão começou no momento do “terra à vista!”. Pedro Álvares Cabral achava que tinha chegado às Índias e, por isso, chamou os nativos que ora habitavam as terras brasilis de índios. Na carta que o escrivão da armada, Pero Vaz de Caminha, enviou ao rei de Portugal, a respeito da descoberta, ele errou ao registrar o que os índios comiam. Trocou a mandioca, então principal alimento dos tupiniquins, por inhame. “Muito inhame e outras sementes que na terra há e eles comem”, escreveu. E a confusão não parou por aí: registrava-se um equívoco histórico que até hoje é pauta de discussões acaloradas. A confusão fica maior ainda quando colocam o inhame (que é um rizoma, logo um caule que cresce horizontalmente, geralmente subterrâneo) e o cará (que é um tubérculo) na mesma frase (ou no mesmo prato, como queiram).
Há, inclusive, registros de regiões brasileiras em que os nomes são trocados! No Nordeste, por exemplo, o cará é chamado de inhame! No Centro-Oeste o cará é chamado de inhame-cará... Mas você já deve ter ouvido falar em inhame-cará, cará-mimoso, inhame-da-china, inhame selvagem...
Antes que você se desespere e saia questionando suas lições de História do Brasil, calma! Ambos têm muito em comum, a começar pelo valor nutricional inquestionável: a origem tropical...
Há diferenças, reconhecidas pela Embrapa, cujos estudos têm descortinado boa parte dos mitos em torno dos alimentos e matérias-primas consumidos no Brasil. O inhame pertence à família das aráceas e seu rizoma tem forma arredondada; sua superfície é coberta de fiapos e de ponta afilada. Sem mencionar que o inhame possui alto teor de açúcar! A planta tem aparência de uma folhagem de jardim e as folhas são largas, em um formato que lembra muito a forma de um coração.
Já o cará é da família das dioscoreáceas e ele é comprido, como a batata-doce, e tem “pelos” (fiapos) ralos. Comparado ao inhame, seu teor de açúcar é menor e sua planta tem folhas pequenas, bem parecidas com as da batata-doce.
Nesta “onda fitness” que temos vivido, percebo uma maior preocupação com a alimentação (o que é ótimo!) e muito se fala no IG (o índice glicêmico) – o cará, considerado um carboidrato complexo, tem índice moderado e é ótimo para ser consumido antes de treinos ou provas que exijam muito esforço físico. O inhame também é ótimo! Só prestem atenção ao nível de açúcar.
Cará, inhame, batata-doce... são todos deliciosos e versáteis na cozinha. Digo mais: a gente não usa nem metade da potencialidade de nossas matérias-primas. Participei de um evento recentemente e não me contive. A receita foi um surpreendente gnocchi de cará! Ficou delicioso e que cor linda, viva! 
Embora haja alguma confusão, é inegável perceber a riqueza que nasce no solo brasileiro.
Sorte a nossa!

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