REVISTA

A Lavadeira

Texto: Fernando Gurjão Sampaio

Ilustração: Felipe Moia

Desde muito antes da popularização de máquinas modernosas, com centrífugas velocíssimas, havia a Lavadeira que vinha, de tempos em tempos, separar as roupas por cores, tipos e usos, para depois, cuidadosamente, fazer um rol detalhado das peças que iriam ser lavadas. Depois, saia com a trouxa equilibrada de forma acrobática na cabeça pelas ruas da cidade, até sua casa, bairro distante, para lavar, secar e passar as roupas dos clientes.

Na minha memória de criança, a Lavadeira era presença onipresente, marca incontestável da infância.

Acontece que o tempo mudou, as coisas “avançaram” e tornou-se normal encontrar máquinas lindíssimas, que lavavam, secavam e só faltavam vestir, nos corredores das lojas de Belém. Cada vez mais baratas, as maquinas de lavar deixaram de ser luxo para se tornar algo popular.

Nisso, as lavadeiras foram sumindo até virarem coisa de lembrança de infância, coisa que, no viver dos mais novos, talvez nem tenha existido – os mais novos que sempre viram as máquinas a centrifugar o bucho repleto de roupas.

Mas, na minha casa - coisa estranha - a Lavadeira seguiu firme.

Já na Universidade, ainda havia a trouxa de roupa recém-chegada na mesa da sala, exalando cheiro de roupa limpa, esperando o dia seguinte para ser guardada.

Daí, lembro que, belo dia, ao perceber aquele atraso, meu pai começou a ser “pressionado”. Não era mais crível que ainda se usasse serviço tão antiquado, ainda mais com aquelas modernidades muito mais cômodas. 

Apesar disso, meu pai seguia firme com a Lavadeira de sempre. Se bem que, agora, nem era mais a Lavadeira da minha infância, ela já velhinha. Agora era seu neto que vinha e arrumava tudo, e sua filha, que lavava, secava e dobrava.

Só que não satisfeitos com aquela teimosia, meu pai foi presenteado com uma moderníssima máquina último modelo, potência máxima, capacidade de muitos quilos, toda prateada e com bucho de centrífuga na frente, igual máquina norte-americana. Constrangido, ele aceitou o presente e a vida seguiu.

Meses depois, anos até - nem sei – dei com uma caixa de papelão enorme em um canto discreto do quintal do pai. Fui fuçar e, para meu espanto, lá estava ela, a máquina potência, promessa de futuro em casa, empoeirada tal qual esquecimento.

- Pai, essa é aquela máquina que o senhor ganhou de presente?

- É sim – respondeu ele, sem jeito.

- O senhor nunca instalou? – perguntei, entre risos espantados e incrédulos.

- Ah, filho... instalei não.

- E por quê?

Então ele desabafou, como se guardasse um terrível segredo.

- Filho, a Lavadeira quase não tem mais clientes... Somos somente nós e mais duas famílias. Se instalo a máquina e deixo de chamá-la, ela ficaria numa situação muito complicada. Não posso fazer isso com ela... Só não conte para ninguém, porque todo mundo acha que instalei a máquina.

E, bem... havia tanto amor naquelas palavras, tanta preocupação genuína, tanta humanidade, que nada mais precisava ser dito. Ali nasceu um segredo nosso.

A máquina seguiu encostada no seu canto cativo. A Lavadeira seguiu indo e vindo, seus prepostos em fabulosos equilíbrios da trouxa imensa, da roupa sempre branquíssima, até que ela muito velha; até que a filha se empregou; até que o neto estudou. Assim, lavar roupa também tornou-se antiguidade para eles. Para todos, lembranças de tempos idos. Para mim, lembrança da humanidade de meu pai, lembranças boas de se importar com o próximo antes de tudo.

 

P.s.: Com a antiguidade de lavar roupa também estabelecida para a Lavadeira, meu pai se rendeu à máquina de lavar, uma novinha, que dentro em breve encherá seu bucho das roupas que ainda têm o cheiro da minha infância.


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