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A honestidade do Professor Poseidonho

Professor Poseidonho era homem fora de série. Doutor e pós-doutor duas vezes, professor universitário dedicado a seus alunos. Além da dedicação às aulas, foi diretor de Centro, de Faculdade e de Instituto, considerado por todos como excelente mestre e gestor. 

A tudo somava qualidade das melhores. Era honestíssimo. Professor Poseidonho jamais pegaria um centavo de dinheiro alheio, nem aceitava que fizessem. Levava a coisa pública de forma transparente e impessoal, como deve e deveria ser. 

De tanto fazer, foi nomeado pró-reitor da Universidade, cargo importante, de alta responsabilidade - o que não abalou em nada sua humildade e simpatia.

Belo dia, professor Poseidonho caminhava pelo campus, por uma alameda quase deserta, quando encontrou um velho vigilante da Universidade, que fez efusivos sinais de que precisava falar com o Pró-reitor.

- Bom dia, professor! Preciso muito lhe pedir um favor.

- Pois não, se estiver ao meu alcance...

- Pois, professor, veja minha situação... Tenho um filho super estudioso, moleque dedicado mesmo. Já prestou cinco vestibulares, mas sempre morre na beira...

Nesse ponto, professor Poseidonho achava que o vigilante ia pedir aulas particulares, ajuda com livros ou algo do gênero, mas o homem completou:

- Aí, queria saber se o senhor pode dar uma força, arranjar uma vaguinha para ele. Basta colocar o nome dele no listão, em qualquer curso de humanas e...

Mal o homem falou, levou uma bronca homérica:

- O senhor me respeite, e se dê respeito! Imagina se faço uma coisa dessas. Ninguém passa em vestibular com nome colocado na lista, meu senhor, de favorzinho. Coloque seu filho para estudar mais e não me dirija mais a palavra.

Dado o recado, professor Poseidonho, vermelho de raiva, deu as costas ao homem. De noite, muito ofendido, contou a história à esposa e foi carinhosamente consolado, que as pessoas são assim, acham que as coisas funcionavam de qualquer forma atravessada. Os dias passaram, o pedido do vigilante foi esquecido, superado, e a vida seguia seu rumo. 

Passados meses, pouco depois da realização do vestibular daquele ano, Poseidonho caminhava novamente pela Universidade, quando avistou o tal vigilante.

Para sua surpresa, ao invés de não lhe dirigir a palavra, o homem passou a gesticular mais efusivo ainda que antes, chamando o cansado pró-reitor. A contragosto, pois, sobretudo, era bom com as pessoas, Professor Poseidonho foi falar com o homem.

- Professor! Gostaria de lhe agradecer. 

- E pelo quê? – perguntou, assustado.

- Meu filho passou no vestibular – comemorou.

- Pois parabéns a ele - respondeu, sisudo. 

- Já dei os parabéns, mas preciso agradecer ao senhor, pois meu filho passou no vestibular, hehe.

- E que o senhor quer dizer com isso?

- Nada, professor. Sei guardar segredos – falou, enquanto piscava um olho e ria em pretensa cumplicidade.

Já desesperado, Professor Poseidonho rebateu, gritando:

- Seu filho passou porque estudou, entendeu? Estudou! Não ajudei a ele, jamais faria isso, nem teria como fazer.

- Sim, professor. Eu sei, eu sei – afirmou, com um sorriso embevecido no rosto - não se preocupe; não se preocupe. 

Segurando o vigilante pelos braços, já quase perdendo a compostura, professor Poseidonho olhou no fundo dos olhos do homem e falou bem lentamente:

- Ouça! Pela última vez: não fiz nada, jamais faria e nem poderia fazer. Juro por Deus e por tudo que é mais sagrado: seu filho passou por mérito dele, porque estudou e passou.

Em choque, o vigilante foi caindo em si, até que murmurou:

- Quer dizer que ele passou sem ajuda?

- Sim...

- Porque estudou?

- Isso...

- Meu Deus... E eu dizendo para todo mundo que tinha sido o senhor, desmerecendo o menino...

 

Nesta hora, já sem forças, diante do pavor de uma vida inteira de honestidade destruída pela loucura do vigilante, que espalhava um ato criminoso inexistente, professor Poseidonho se deu por vencido e só conseguiu pedir, em quase sussurro:

- Homem... Vá para casa abraçar seu filho, pois ele merece. E, por favor, desminta isso tudo... 

Com um tapinha no ombro, o Pró-reitor se despediu quase sem reação, chocado com a descrença do pai. E cada qual foi para seu canto, assustados diante do incontrolável da vida.


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