´╗┐´╗┐

REVISTA

A cozinha mais assustadora do mundo!

Ela estava cozinhando a ave mais linda do mundo. Seu pescoço era comprido, suas penas azuis vivas, seu bico laranja: era um Dodô – criado magnificamente em terras brasileiras, em uma única sala sem luz, que permitia suas penas atingirem uma pigmentação azul fluorescente, uma carne amarelada macia, livre de gorduras e um belo bico alaranjado.

De tão belas e exóticas, as penas eram vendidas para escolas de samba (e mulheres vaidosas), portanto na cozinha eram separadas cuidadosamente e acomodadas em caixas de plástico, hermeticamente fechadas entre camadas de seda, para garantir que as penas não amassassem, mantendo, desta forma, sua textura aveludada.

O bico era separado e escaldado em uma solução de água, sal e vinagre; depois polido e embalado a vácuo. Seria destinado aos melhores artesãos da Suíça, que a partir daquela matéria-prima tão valiosa, manufaturariam belas armações de óculos, relógios e arremates para pulseirinhas de couro masculinas.

A carne – naturalmente – era aproveitada pela cozinha. Dourada em manteiga quente e depois assada (coberta por uma bexiga de porco), hidratada em vinho do Porto, besuntada com manteiga de trufas – tudo para garantir uma boa cocção e o resultado final “macio e suculento”.

Depois de depenado e debicado, o Dodô ficava do tamanho de uma codorna grande. Com seus pés fazia-se o caldo, que reduzia bastante para virar o molho. As vísceras eram jogadas no lixo. Mas me comentou o cozinheiro que, vez ou outra, a família de chineses que vivia no final da rua, pedia as vísceras para fazer remédio, ou sabe-se lá o que mais.

Eu assistia tudo aquilo inerte. Não era minha cozinha. Mas era convidado a sentar-me à mesa. Deveria me portar como um estagiário. Essa era a condição. 

Às 19 horas eu deveria falar ao público: uma mesa de jornalistas e pessoas importantes, o que sempre me dava medo. Eu teria 10 horas para pensar exatamente o que eu diria. E 10 horas para me acalmar.

Ela chegou sorridente e linda como sempre. Com seu uniforme bonito, voz tranquila e um sorriso confortante. Ela é minha amiga. Ajuda a me proteger.

Então nos sentamos à mesa. Foi quando ela disse que ELE viria. E eu tive medo.

Por volta das 18h ele chegou. Com sua pele desenhada e barba afiada, ele tinha os braços de um lenhador e nunca sorria desnecessariamente. Tive medo dele.

Ele se sentou e todas as luzes foram apagadas, à exceção de um holofote, que focou seu rosto.  Eu corri pela porta rapidamente, vestindo minha velha camiseta e com meu uniforme amassado em mãos.

Corri para uma lavanderia do outro lado da rua e pedi para que meu uniforme fosse engomado. Noventa centavos seriam necessários. Eu tirei 6 reais da minha carteira e comprei 2 picolés.

E assim eu me escondi na lavanderia.


Comentário