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REVISTA

A arte de ressignificar

Premiado, reconhecido, ovacionado, Marinaldo Santos impressiona não só por toda a capacidade e história de artista plástico que se criou só, a partir dos próprios talentos, mas pelo dom de enxergar a arte em qualquer canto e “ceder” esse olhar aos outros.

 

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Da paixão de menino aficionado por museus, Arqueologia e Biologia nasceria uma relação intensa com a arte. Uma relação que nasce longe da academia e perto de tudo aquilo que estimulava seus olhos e mãos a produzir. Primeiramente, em forma de desenho e pintura. Depois, e de modo a consagrar definitivamente seu estilo e seu nome como artista plástico, em meio à manipulação e reaproveitamento/transformação de objetos. Paraense e orgulhosamente um autodidata das artes visuais, Marinaldo Santos, aos 55 anos de idade e 31 de atuação, segue disseminando um frescor em cada criação que estimula a concepção de que a arte pode, sim, estar em todo lugar, a qualquer momento.

Em uma simplicidade milhas e milhas distante de ser simplório, ele resume de forma precisa como é capaz de misturar, meio que de forma sinestésica, o empírico à refrescância do novo que exala em tudo o que faz. “Meu trabalho expressa referências da arte pop, elementos do cotidiano, cores e periferias”, declara, certo de que a frase pequena abarca um tanto sem fim de possibilidades.

Sua mais recente exposição, “Quem Te Viu Quem Te Vê Achados Não Perdidos”, é a prova cabal dessa capacidade tão peculiar que Marinaldo tem de ressignificar o que pode ser, em um primeiro momento, banal. Em 27 peças, recortes, objetos, desenhos, colagens e outros itens todos coletados ou oriundos de espaços tão vibrantes e ao mesmo tempo ordinários: as feiras livres, mercados e periferias da capital paraense. “É a demarcação de um ponto da minha carreira em que meu trabalho está mais amadurecido, mais elaborado”, autoavalia-se.

E esse reconhecimento não é apenas próprio. A maioria dos aplausos e críticas favoráveis, bem como as premiações que ele coleciona ao longo de três décadas de carreira estão quase que constantemente ligadas a sua forma de lidar com objetos. E também a salões de arte. “São os pontos mais marcantes de toda a minha carreira”, admite. “E foi uma forma que achei de testar o potencial do que eu fazia. Salões são bons porque o seu trabalho é julgado por vários críticos, diferentes pensamentos de linguagem e você acaba tendo uma avaliação melhor, mais ampla”, justifica.

Em 2015, com a exposição “Urbano Pop”, ele ocupou pela primeira vez, sozinho, uma galeria em São Paulo, a Berenice Arvani, localizada em uma das ruas mais famosas da capital paulista - a Oscar Freire. Entrou no circuito já com oito das 40 peças vendidas e sob a curadoria da crítica paulistana Aracy Amaral. Durante o período da exposição, foi descrito pela crítica especializada como um artista de extrema inteligência visual. “Tanto no ano passado em São Paulo, quando a mostra teve grande repercussão, quanto agora em Belém, são exposições que mostram muito realmente o aproveitamento de materiais que foram transformados em arte”, reforça.

Nascido em Icoaraci, distrito de Belém, Marinaldo Santos, ao falar de sua trajetória artística traça, inevitavelmente, uma linha do tempo ao lembrar do que lhe levou a criar: as coleções de insetos os quais ele acabava reproduzindo em desenhos, que lhe levaram aos livros de pintores, que lhe levaram a desenhar aleatoriamente, que impressionaram alguém que gostou tanto a ponto de comprar essas primeiras obras.

Em 1984, ele tem suas composições apresentadas ao público pela primeira vez em uma exposição coletiva, dividindo espaço com artistas já então conhecidos do público, como Emmanuel Nassar, Osmar Pinheiro, Pedro Conduru, Simões, dentre outros. As obras começam a ganhar o mundo, Alemanha, Miami, Holanda, SP, Rio de Janeiro - onde chegou a trabalhar com a única herdeira do grande arquiteto e proprietária de uma galeria de arte contemporânea que leva seu nome, Anna Maria Niemeyer [1930-2012]. De salões de arte como participante, perdeu a conta em quantos esteve. Só pelo Arte Pará, reconhecido evento de arte contemporânea promovido há mais de 30 anos pela Fundação Rômulo Maiorana (FRM), ganhou três vezes o primeiro prêmio.

“Defino meu trabalho hoje em dia como um trabalho experimental, contemporâneo, em que eu posso mexer com vários tipos de materiais. De uma tampa de garrafa, até um selo, alumínios, copos plásticos e outros. É multifacetado”, detalha, lembrando que foi pelo campo da experimentação que iniciou uma fase pintando sobre sacos de papel de cimento, passando em seguida para outros suportes, como madeira e outros materiais. Foi justamente essa fase “beta” que lhe levou às premiações locais e nacionais, bem como a expor fora.

Sem qualquer falsa modéstia, Marinaldo não nega seus objetivos. Quer, sim, tornar seu trabalho cada vez mais conhecido, da mesma forma como não pretende sair da linha do aprendizado, de explorar e aprender a lidar com outras plataformas e materiais. “Mas que tudo isso seja de acordo com o seu tempo”, pondera ele, que ainda não vê em Belém, onde mora até hoje e de onde se cerca das mais diversas fontes de inspiração, um movimento em prol da criação de um mercado promissor de arte. “As pessoas agora estão começando a comprar e adquirir arte, mas o grande problema é que não termos galerias de grande porte. E nem muitas pessoas especializadas em formar público para a criação desse mercado”, lamenta, estendendo esse entendimento ainda à situação de novos artistas e daqueles que mexem em outros formatos, como fotografia e grafite.

As motivações que lhe trouxeram à trajetória de artista plástico com um trabalho que se confunde com suas próprias origens e referências podem ser as mesmas de quando tudo começou, mas há uma densidade, uma intensidade, e mesmo uma responsabilidade maior diante do que se propõe a apresentar hoje. “É pelo amadurecimento e idade que meu trabalho se encontra no patamar em que está hoje, e isso me ajuda a criar muito mais intensamente do que antes. Quando você vê a aceitação dentro e fora do mercado de arte, o incentivo é muito maior. Minha relação com minha arte hoje é de uma responsabilidade muito grande, me exige um foco bem maior”, garante Marinaldo.


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