REVISTA

Um novo tempo

Texto: Angela Sicilia

Ilustração: Felipe Moia

Com a proximidade do fim de ano, em um 2020 tão atípico e duro, uma névoa de incertezas se apresenta... Será? Haverá Natal? E o réveillon? Como celebraremos a chegada de um novo ciclo para a humanidade?

Há um poema, de Carlos Drummond de Andrade, que me foi apresentado há alguns anos. Ele dizia, em resumo, que o ano novo é só o dia seguinte ao 31 de dezembro; que só podíamos considerá-lo assim se, de fato, quiséssemos um novo tempo, “porque o ano novo repousa desde sempre dentro da gente”. Nunca mais esqueci da sabedoria deste tímido mineiro, de quem minha mãe tanto gostava.

Temos motivos para celebrar? Esta é uma resposta pessoal e intransferível.

Devemos comemorar o que temos – pouco importa se é pouco, se não é igual ao que havia no passado. Precisamos, urgentemente, rever nossas relações com o alimento, com as pessoas, com o mundo – porque os recursos não são inesgotáveis. Precisamos repensar nosso consumo, o desperdício... Um privilégio que muitos não têm consciência.

Olhe o seu lixo: se você está desembrulhando mais que descascando, saiba que, provavelmente, está consumindo mais processados e ultraprocessados do que deveria. As cascas estão indo para o lixo? Talvez seja hora de você ver uns vídeos de como fazer carne vegetal a partir da casca de banana; a casca de tangerina e laranja, em álcool, se transformam em um belo desengordurante. Casca de ovo moída e misturada à terra das plantas faz um bem danado. Borra de café também. 

Você está cozinhando para mais pessoas? Que tal doar um pouco de alimento para entidades responsáveis? Ou doar para o vizinho idoso que, por medo, não está saindo à rua (ele vai ficar muito feliz de ser lembrado, vão por mim!).

Valorizar o que se tem é a maneira mais inteligente de ser feliz. Queríamos o peru, o panettone importado. Queríamos mais embrulhos sob a árvore, o champanhe importado, a família e amigos todos presentes. Mas se a boa parte disso não for possível, pensemos em tudo que vivemos nesses últimos meses. 

Você está pronto para um feliz futuro novo? Porque ele dependerá de suas escolhas, de inclusão, de solidariedade, gentileza e generosidade.

E não esqueça de marcar o começo desse novo tempo em seu coração... porque na “folhinha”, ele começa dia 1º de janeiro... Mas, para você, pode ser amanhã.


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