
Acho que tenho uma interpretação muito livre de trabalho, porque penso que estar vivo já dá tanto trabalho que não queremos fazer mais nada." A frase é de Andy Warhol, mas poderia, perfeitamente, ter sido dita pelo artista plástico paraense Emmanuel Nassar, com a diferença de que é este trabalho de estar vivo que dá a ele a vontade de trabalhar. E, no fundo, era isso também que estimulava Warhol a pegar seus pincéis.
Com o título, cunhado pela crítica e muito bem aceito pelos admiradores de sua obra, de "representante da pop art brasileira", Emmanuel encontra nas banalidades que sempre permaneceram no anonimato da vida cotidiana do cidadão comum terreno fértil para sua inspiração.
Emmanuel nasceu em Capanema, no nordeste do Pará. Antes dos cinco anos, por conta do trabalho de seu pai, já tinha vivido em Bragança e Santarém, quando sua família decidiu mudar de vez para a capital do estado, onde o artista cresceu.
Sem ter ainda descoberto sua veia artística, prestou vestibular para Engenharia Civil. Ingressou na faculdade e foi quando, finalmente, nas suas primeiras férias de julho, teve uma grande
oportunidade, algo que mudou sua vida completamente: uma viagem à Europa.
No antigo continente, Emmanuel entrou em sintonia com a arquitetura, com a arte, sentiu alguma coisa que sabia nunca ter sentido antes e voltou às terras brasileiras com uma inquietação,
com uma enorme necessidade de mudar profundamente, de transformar sua vida, e percebeu que a engenharia não teria lugar nos novos planos. Decidiu, intuitivamente, quase que inconscientemente, mudar para o curso de arquitetura e foi, então, que começou a trajetória deste grande artista. "Foi
na escola de arquitetura que tive contato com as primeiras noções de arte, conheci também colegas que já eram artistas, que já estavam envolvidos com esse mundo; e fui ficando muito à vontade com tudo isso. Era o meu caminho que, aos poucos, fui tomando".
Quando foi em busca do primeiro emprego, uma nova surpresa na vida de Emmanuel: a ublicidade. Trabalhou como redator em uma agência e acredita que esta experiência tenha, também, enorme influência sobre suas obras, pois foi assim que teve contato com o pop, com o que havia de mais
contemporâneo e "moderninho" no mundo de então. "Acho que foi por meio dessas duas experiências (a publicidade e arquitetura) que eu fui descobrindo a arte. E acho também que
elas explicam muito a minha obra artística. A minha noção de espaço vem da arquitetura, e a presença de elementos da pop art, da publicidade."
Mas quando Emmanuel resolveu virar artista de vez? No auge dos loucos anos 70 e de seus jovens 20 e poucos anos. E, como com essa idade ninguém sabe ao certo o que quer mesmo da vida, o artista costuma estabelecer como início real de sua trajetória artística a década seguinte, já que nos primeiros dez anos não houve uma produção regular e muitas obras foram destruídas ou bastante modificadas posteriormente. Em 1984, expôs pela primeira vez fora do Pará, no Rio de Janeiro, e, a partir de então, a caminhada de Emmanuel é ascendente, sempre.
Pop arte
Um tabuleiro de jogo de um parque de diversão que quase ninguém mais frequenta, placas de ferro abandonadas em um lixão qualquer, engrenagens de uma antiga fábrica, o ato cotidiano de acordar, comer e dormir... O que existe de mais anódino nesta vida é o que há de mais importante e profundo para Emmanuel. "Acho que reproduzo um pouco a maneira de viver. Basta que eu aja como eu sou para revelar a maneira como as coisas acontecem no dia-a-dia. Não preciso me dedicar a observar a vida de ninguém, basta que eu reproduza a minha vida. Não quero viver como pesquisador, não quero viver com olhos de observador", afirma categoricamente.
Para o artista que existe em Emmanuel, a vida cotidiana de qualquer cidadão comum possui elementos suficientes para inspirar criações artísticas e, considerando-se um alguém como qualquer outro, Emmanuel vai cada vez mais fundo em si mesmo para criar. Sua estética está profundamente ligada ao fazer humano, às questões humanas, embora pouco faça uso da figura humana. Pode-se dizer que seu trabalho tem algo do modernista Volpi ou do escultor e artista plástico Alexander
Calder, mas é a rua, para ele, como era para os artistas da pop art norte-americana, sua maior influência, a maior das inspirações.
Como brasileiro, paraense, procura passar em suas obras as dificuldades e adversidades que qualquer cidadão, em especial os artistas, precisa enfrentar. "Transporte é um problema para qualquer um no Brasil inteiro, agora imagine o transporte intermunicipal de obras de arte. Eu não tinha escolha, precisava incorporar essa questão ao meu trabalho", explica Emmanuel.
E, como em uma espécie de crítica – mas também para facilitar e viabilizar suas idas e vindas –, o artista decidiu que suas obras não mais viajariam com embalagens protetoras; e o que quer que aconteça pelo caminho acaba incorporado como conceito. "Essa medida é uma resposta à minha realidade e funciona como um elemento de continuidade do meu
trabalho", explica.
Emmanuel conta, com toda a naturalidade que lhe é própria, que, certa vez, uma obra sua foi furada por um descuido em uma quina de mesa e, em vez de inutilizá-la, preferiu fazer
um remendo, algo grotesco, uma prótese bastante visível. E garante que isso faz parte da sua estética, da sua liberdade no fluxo da criação. "O que poderia ver como uma adversidade,
preferi ver como uma possibilidade de construção contínua", explica o artista, que garante que possui outras tantas histórias para contar como essa.
Com uma estética tão peculiar, Emmanuel acaba por produzir algo muito interessante: é difícil conseguir identificar o que foi feito por ele, o que já foi recolhido pronto da rua ou do lixo e
o que foi sendo incorporado por meio do manejo descuidado dos transportadores e arrumadores de exposições. É como se todos nós participássemos um pouquinho da construção de
seu trabalho. E é mesmo dessa forma que ele pensa. "Eu sou apenas um instrumento. O que eu faço não é de responsabilidade exclusiva minha, não me pertence", diz Nassar, com um quê de reflexão."É íntimo, é pessoal, é verdadeiro."
Hoje, Emmanuel vive com um grande amor no litoral paulista. Aliás, foi esse amor que o fez sair de Belém há três anos. É claro que houve também uma forte influência de contratos firmados com galerias de São Paulo, era um bom momento para mudar de cidade, mas o artista faz sempre questão de enfatizar que foi por esse amor que deixou a capital paraense.
E alguém tão emotivo, tão passional, não poderia jamais ter uma estética racional, consciente demais. Emmanuel nunca cansa de repetir que suas criações são produzidas de forma inconsciente, são construções que vão, assim, surgindo, meio que espontaneamente. Elementos que
dele vão se apoderando e, pouco a pouco, incorporando-se em sua estética e, então, só depois é que o artista consegue identificá-los e ter alguma noção do que foi feito. Por isso,
Emmanuel se deixa levar cada vez mais fundo dentro de si mesmo, deixa aflorar suas raízes amazônicas para misturálas com os comportamentos que foi adquirindo ao longo da vida, em outras cidades, em outras situações. Para ele, o queé pessoal é verdadeiro, profundamente verdadeiro. "Acho que a minha chance de atingir uma autenticidade e uma desejável aproximação com a nossa realidade é me aprofundar em mim mesmo, nas minhas coisas, no que me cerca mais próximo,
na minha vida". "Se eu for muito no meu pessoal, acho que consigo estabelecer uma comunicação com as pessoas. Noíntimo, temos maior chance de nos tocar, de conversar sobre coisas essenciais que nos envolvem." |