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REVISTA

Uma busca constante

 
 
 
Criado e crescido em meio ao artístico, Zoca vai além do que foi herdado e vive uma procura por trocas e experiências que o transformam a cada novo trabalho. 
 
 
É comum se ouvir dizer que o processo artístico é algo que está mudando, evoluindo o tempo todo. José Fernandes, o Zoca, é - literalmente - um exemplo disso. Ele poderia ter se dado como satisfeito só pela herança genética, já que é filho da também artista plástica Dina Oliveira, e tem o desenho, a pintura e outras formas de expressão presentes nas demais relações familiares, com avós, tios e primos desde sempre. Influências que não apenas indicaram um determinado caminho, mas possibilidades, como ele diz. Com ênfase no plural mesmo.
 
Talvez por isso, de forma intencional ou não, escolheu caminhos que foram "testando" essas possibilidades, ou habilidades, em vários níveis ao longo do tempo. Na escola, por exemplo, tinha nas folhas de caderno o seu suporte cotidiano de desenho, quando ele admite ter encontrado ali uma "caligrafia" humana. "As pessoas, mesmo que abstraídas, são sempre uma referência", confirma ele, que segue para sua quarta exposição individual, pela Elf Galeria.
 
A relação se intensificou durante a faculdade de Arquitetura, na atuação profissional em Comunicação Visual e Design Gráfico, no mestrado em Comunicação, Linguagens e Cultura e como professor de Desenho e Artes Gráficas. Até chegar ao ano de 2013, quando ele se dedica a um processo de criação em atelier de artes visuais, montado e mantido em Belém mesmo. Processo esse que vem mudando/aprimorando sua forma de replicar exemplos da "caligrafia" que ele encontrou ainda nos tempos de colégio. 
 
As inspirações se acumulam, e nem sempre de forma específica. Pessoas, próximas, como amigos e parentes, ou distantes, no tempo e no espaço. "Acho que existe um universo de referências, não apenas visuais, na literatura, na música, nas memórias, na paisagem urbana", detalha, citando ainda artistas de época, El Greco, James Ensor, Jackson Pollock, Willem de Kooning, Dubuffet, Giacometti, Francis Bacon, Lucian Freud, Anselm Kiefer, Jean-Michel Basquiat, Iberê Camargo, dentre outros. 
 
 
 
 
Nesse trabalho mais recente, e composto apenas de criações inéditas, datadas quase todas do ano de 2016, ele entende que a expressão aparece de forma diferente da última exposição. Como uma conciliação entre as experiências das duas mostras anteriores com elementos gráficos do desenho e a matéria, própria da pintura. "A cor é utilizada de maneira mais intensa nas pinturas e o corpo humano, menos realista, mais fragmentado, ou representado em síntese, é seguidamente composto e decomposto", avalia. 
 
 
 
 
 
 
Tendo participado também de exposições coletivas - "que permitem contrastes e diálogos entre os participantes", pontua -, aqui e fora, Zoca acredita que fazer uma individual, nesse momento, permite uma visão mais ampla do processo, do momento pelo qual atravessa o artista. "E tudo isso em uma galeria que acaba de completar 35 anos de um trabalho muito consistente", reconhece, afirmando ter na Elf uma recepção "sempre muito boa, profissional e generosa".
 
Aos 42 anos de idade e casado com a também arquiteta e designer, Daniella Jacob - que muitas vezes lhe acompanha nos diversos projetos artísticos -, Zoca não titubeia em afirmar que a atividade de representação gráfica e pictórica sempre fez parte de seu cotidiano, pessoal e profissional. E que a representação da figura humana vai além da simples retratação. "As imagens talvez expressem a diversidade não só humana, mas de personagens que há em cada um de nós. Acho, portanto, que tentam falar da condição do indivíduo e se revelam nessa tensão entre a nossa fragilidade e a força de nossa luta diária", explica.
 
Não há direcionamento a um determinado público, e sim ao diálogo com quem, de repente, encontra um reflexo na tentativa de expressão pessoal do artista. "Ocorre que as leituras das pessoas podem, e devem ser extremamente variadas. Perceber essas respostas é sempre muito curioso, por vezes inusitado, e interessante para mim", relata. E no que depender dele, não vão faltar as mais variadas respostas, já que a ideia é explorar, a longo prazo, outras linguagens, como gravura, escultura, animação, cinema, cenografia... "Acho que ainda tenho muitas possibilidades de experimentação, pesquisa, troca e aprendizado", justifica.
 
 
 
 
 
 
 
 
Há quatro anos dedicado ao atelier, mas sem deixar de lado a atuação como arquiteto, "Zoca" diz ver um movimento crescente pelo mercado de arte na capital paraense. Mas afirma que sempre é possível fazer mais, embora já haja novos espaços expositivos e mesmo a manutenção e renovação de espaços consolidados - como é o caso da própria Elf. "Sempre é possível estimular parcerias, iniciativas e fomentar o interesse pela produção e circulação da arte. Hoje é frequente o esforço coletivo", analisa, citando o projeto Circular Campina-Cidade Velha como um ótimo exemplo da possibilidade de juntar esforços. "Nossa textura cultural é muito rica e a produção criativa da cidade, muito forte, sempre se renova", reforça.
 

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