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REVISTA

Um sonho de valsa

Você sonha conhecer uma cidade fascinante, que além de bela, tem cultura e tradição? Então seu destino é Viena, a capital europeia da música, que por coincidência também é chamada de “a capital dos sonhos” (em Viena também atuou Sigmund Freud, o pai da psicanálise e autor da teoria dos sonhos). A cada começo de ano, Viena é dominada pela febre de valsa: mais de 450 bailes são festejados na capital, nos meses de janeiro e fevereiro. E para os que desejam vivenciar um “sonho de valsa vienense”, não é necessário pagar entrada, nem chamar a fada madrinha. A cidade da música e dos sonhos é, em si, uma promessa de encanto.

Um passeio por Viena tem de começar na cidade antiga que compõe o chamado “primeiro distrito de Viena” (1.Bezirk). No coração da cidade antiga encontra-se a imponente catedral de Santo Estevão (Stefansdom), o símbolo de Viena, também carinhosamente conhecida pelos vienenses como “Steffl”. Construída em 1137, originalmente como uma igreja em estilo românico e constantemente expandida e reconstruída ate o século XVII, a atual catedral de Santo Estevão reúne vários estilos arquitetônicos, que vão do gótico ao barroco. A catedral foi severamente atingida durante o bombardeamento de Viena, em abril de 1945, durante a Segunda Guerra Mundial, e reconstruída graças aos esforços coletivos dos cidadãos de Viena e dos outros estados federais da Áustria.

A catedral impressiona pela riqueza de detalhes e pelas várias obras de arte em seu interior. Dica para os “fortes”: uma visita às mórbidas catacumbas, localizadas na parte subterrânea da catedral. As catacumbas abrigam os restos mortais de membros da família Habsburgo (a mesma família da Imperatriz Leopoldina, esposa do imperador Dom Pedro I) e inúmeros corpos de vítimas da peste negra, que dizimou a cidade no século XVIII. Com os cemitérios lotados, a única solução era levar os corpos para as catacumbas da catedral de Santo Estevão.

Uma pequena curiosidade: ao lado oeste do salão da torre norte, você encontrará uma escultura de Jesus, da cintura para cima, de mãos atadas e coroa de espinhos, o rosto contraído de dor. Esta figura é carinhosamente chamada de “Senhor Deus com dor de dente” (Zahnwehherrgott). A lenda conta que jovens bêbados, vendo a triste imagem, ataram um pano ao redor do rosto para ajudar com a “dor de dente”. Logo depois foram vítimas de uma forte dor de dente, que só foi curada quando voltaram à catedral e pediram perdão. Há uma cópia da mesma estátua no exterior da catedral (veja se você a encontra!).

Logo atrás da catedral, na rua chamada Domgasse, encontra-se um museu estadual dedicado à memória de Wolfgang Amadeus Mozart (Mozarthaus), que viveu e atuou em Viena até sua morte, em 1791. O apartamento do segundo andar é a única residência preservada de Mozart e sua família, que viveram neste endereço entre 1784 e 1787. No apartamento da Domgasse, Mozart compôs a famosa ópera “As Bodas de Fígaro”. Da janela da sala, de preferência ouvindo a ária “non son piu cosa son, cosa faccio” em seu iPod, olhe para a estreita rua diante de você (a chamada Blutgasse). A ruela é uma “verdadeira máquina do tempo” com suas fachadas barrocas e seus paralelepípedos. Imagine estar vendo isso com os olhos de Mozart, envolvido na criação das Bodas de Fígaro, dando uma olhadinha da janela da sala. Para aproveitar melhor chegue cedo, pois o museu é a atração favorita dos turistas.

Ao lado da catedral de Santo Estevão encontram-se os fiacres, charretes em estilo antigo puxadas a dois cavalos, com as quais é possível explorar confortavelmente – e em grande estilo – o centro histórico da cidade e a Ringstrasse (a rodovia em forma de “anel” ao redor do primeiro distrito). Alternativamente, Viena oferece uma excelente rede de transportes públicos, que inclui ainda metrô (U-Bahn), bondes elétricos (Strassenbahn) e ônibus.

A próxima parada é a sede da corte imperial vienense, a imponente corte imperial (Hofburg), onde a família imperial costumava residir no inverno e hoje residência do presidente da república austríaca. Aproveite o passeio entre as elegantes ruas comerciais do primeiro distrito e aprecie as fachadas dos edifícios históricos do Graben e do Kohlmarkt (o antigo mercado de carvão) até se deparar com o deslumbrante pórtico da corte imperial.

No caminho, entre catedral e corte imperial, na esquina da praça de São Miguel, descubra uma pequena pérola: a igreja de são Miguel (Michaelerkirche), uma das igrejas mais antigas de Viena, onde foi tocado pela primeira vez o famoso réquiem de Mozart (vale a pena uma visita!).

Na praça Maria Theresia (a ilustre senhora sentada ao trono, no centro da praça) encontram-se os edifícios gêmeos do museu histórico de artes (Kunsthistorisches Museum) e o museu de história natural (Naturhistorisches Museum). O museu de artes abriga pinturas de mestres antigos como Dürer, Rafael, Caravaggio, Ticiano e Rubens, além de uma exposição de objetos de arte do Egito antigo (incluindo múmias) e coleções de arte grega e romana. O museu de história natural é uma boa pedida para quem viaja com crianças (os esqueletos de dinossauros e o dinossauro rex que se move e urra para os espectadores são alguns dos grandes favoritos da criançada). Para os adultos: confira a pequena [mas de fama enorme] “Venus de Willendorf”, uma das mais antigas figuras femininas do mundo (datada do período Paleolítico). Uma das várias curiosidades: o cachorrinho de colo da imperatriz Maria Theresia. “Empalhadinho” para a posteridade (e para adultos e crianças).

Mais adiante, um complexo de museus de arte moderna, onde se pode ver a coleção privada de obras de pintores condenados (e redescobertos) durante o terceiro Reich: no MUMOK você encontrará artistas como Egon Schiele, Gustav Klimt e vários representantes do movimento artístico conhecido como a secessão. O famoso “O Beijo” de Gustav Klimt está entretanto na Pinacoteca do Palácio Belvedere, para amantes de pintura também visita obrigatória.

Não perca uma visita ao palácio Schönbrunn, a residência de verão da família imperial Habsburgo, onde é possível ver o quartos do imperador Franz Joseph e sua esposa imperatriz Elisabeth (conhecida como “Sisi” e ícone da capital). Os jardins barrocos do palácio também convidam para um relaxado passeio. Para viajantes com crianças e amantes de animais, o jardim zoológico mais antigo do mundo é logo ao lado: o zoológico Schönbrunn oferece muitas atrações, por isso reserve pelo menos a metade de um dia para a visita.

Imortalizada pelo filme de Carol Reed “O Terceiro Homem” que retrata Viena pós-Segunda Guerra, ocupada e dividida em zonas pelos quatro poderes aliados (Estados Unidos, Inglaterra, França e União Soviética), a roda gigante do Prater é também um símbolo de Viena e convida para um passeio descontraído no parque com direito a algumas travessuras e algodão doce.

Para quem quer explorar a história de Viena e da Áustria, em geral, são interessantes o museu da cidade de Viena (Historisches Museum der Stadt Wien) e o museu do povo judeu (Jüdisches Museum). Este último retrata a cultura e história dos judeus vienenses das origens da cidade até o holocausto. Como consequência da indexação da Áustria pela Alemanha, em 1938, estima-se que 65.000 judeus vienenses foram mandados para campos de concentração, dos quais um pouco mais de 2.000 sobreviveram. O museu tem duas localidades: na Dorotheergasse e no Judenplatz.

Famosa por seu legado musical, Viena continua uma das mais influentes capitais da música na Europa. Viena é o berço da valsa vienense (uma valsa com um compasso levemente irregular, de charme inconfundivelmente vienense) e o lar de inúmeros compositores ilustres como Wolfgang Amadeus Mozart, Joseph Haydn, Ludwig von Beethoven, Franz Schubert, Johann e Josef Strauss (pai e filho e “reis da valsa”), Johannes Brahms, Gustav Mahler, Arnold Schönberg... (a lista é longa!!!).  É possível achar vários museus e casas de músicos em Viena.

A ópera nacional de Viena (Wiener Staatsoper), cuja orquestra é formada pelos integrantes da orquestra filarmônica de Viena (Wiener Philarmoniker) é mundialmente aclamada por cultivar a tradição e estilo clássico genuinamente vienense. Porém, assistir a uma ópera na Staatsoper é um prazer que custa caro. Uma alternativa é assistir de Stehplatz (de pé, mas com uma boa vista do palco). Entretanto, viajantes com um budget limitado e sem paciência para esperar na fila da Staatsoper por um ticket mais em conta têm muitas opções em Viena. Para quem quiser vivenciar uma ópera ou opereta em bom estilo vienense sem extrapolar as finanças, a parada obrigatória é a ópera popular de Viena (Volksoper Wien). Para concertos sinfônicos, a orquestra sinfônica de Viena (Wiener Symphoniker) é o endereço certo. No centro da cidade você também encontrará vendedores de concertos para turistas, nem sempre baratos. Mas se ouvir músicos fantasiados de “Mozart” não for o seu estilo e você preferir vivenciar a verdadeira cultura musical de Viena, recomendo um concerto, ópera ou opereta em uma das “casas de música” tradicionais de Viena.

Viena também é uma referência quando o assunto é a culinária. A cozinha vienense foi influenciada pelos povos que constituíam o antigo Império Austríaco, também chamado império Austro-Húngaro. Entre os pratos principais mais famosos de Viena estão a Wiener Schnitzel (bife de porco ou gado, empanado e frito, usualmente servido com batatas cozidas com cheiro-verde ou salada de batatas) e o Tafelspitz (cozido de carne com verduras).  Famoso é também o Gulyás ou Gulasch, um ensopado picante de origem húngara que pode também ser acompanhado de Semmelknödel (bolinhos de massa de pão e condimentos, de origem tcheca). Para quem prefere pratos mais leves, a maioria dos restaurantes também oferece opções vegetarianas e vegans (pratos livres de produtos de origem animal), já que na Europa o número de pessoas que abrem mão do consumo de carne e derivados de animais (regularmente ou permanentemente) é relativamente alto.

Mais o melhor ainda está por vir: as sobremesas! Não deixe de experimentar Germknödel, Palatschinken, Apfelstrudel, Marillenknödel e Kaiserschmarrn. Como outros pratos da cozinha tradicional vienense, essas são sobremesas “pesadas,” feitas à base de massa de trigo, servidas quentes e com muito açúcar! Para muitos, uma refeição completa.

Entre os passeios em Viena, nada como dar uma pausa num café vienense para recarregar as energias (e as calorias!). A tradição das casas de café vienenses data da invasão turca em 1683. É contado que após a derrota e retirada da armada turca, foram deixadas para trás centenas de sacos de café. Estes foram presenteados pelo rei polonês ao heróico comandante Kolschitzky que abriu com eles o primeiro café vienense. Não deixe de saborear o famoso Wiener Mélange e experimentar as inúmeras criações de bolos e tortas doces da cozinha vienense. Um ícone das casas de café vienenses é a Sachertorte, um fino bolo de chocolate escuro, coberto com chocolate e com uma leve camada de geleia como recheio. Viena tem inúmeros cafés, mas se você quiser experimentar uma casa de café especial, visite o Café Central, localizado no elegante Palais Ferstel na Herrengasse, 1º distrito. Este era um ponto de encontro favorito dos intelectuais vienenses para ler jornais, discutir ideias e ouvir a notícias (além de tomar bastante café, diga-se de passagem). 

Despedir-se de Viena não e fácil. Mas antes de partir, não deixe de assistir ao pôr-do-sol na capital da música e dos sonhos. O melhor lugar para uma vista panorâmica de Viena (e um pôr-do-sol de tirar o fôlego) é o prédio mais alto da cidade: a Donauturm, uma torre de rádio que também é observatório e restaurante giratório.

Segundo Freud, o pai da psicanálise, o sonho significa a presença de um desejo. Como não sonhar com Viena? Espero que seu sonho se torne em breve realidade.


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