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Um altar à natureza

Por: Rodrigo Viellas

Foto: Rodrigo Viellas / Divulgação

 

 

“Em Alter do Chão, não se sente dor, tem um povo pobre, mas acolhedor. Por Deus foi criado, as suas belezas, suas lindas praias são da natureza. O seu lago verde é de admirar, por toda essa gente que vem visitar. Peixes saborosos, é de apreciar, nessas belas praias, em noites de luar”. Esses são os versos do hino não oficial do pequeno povoado no interior do Pará, que encanta o mundo e a cada ano atrai mais e mais visitantes pela sua beleza exuberante, por sua opulência de águas, pela sua cultura secular. Este marambiré, entoado pelo tradicional grupo Espanta Cão, sintetiza o que é este lugar abençoado pelo Tapajós, o rio de águas claras e quentes.

Alter do Chão é uma vila cosmopolita. Tem gente de todo canto. Sua população é 7 mil habitantes, boa parte descendente dos Borari, etnia indígena que ocupa a região há séculos, bem antes da chegada dos portugueses. O encontro entre os povos tão distintos deu origem ao Sairé, festividade comemorada há mais de 350 anos e que celebra o contato dos Borari com os jesuítas, com elementos religiosos e profanos. Parece que desde de sempre o vilarejo tem vocação para receber quem é de fora. É comum andar pelas suas ruas e ouvir diferentes sotaques. Paulistas, cariocas, mineiros, argentinos, franceses, italianos, noruegueses, venezuelanos, ingleses e tantos mais que escolheram Alter para viver. Não é raro quem vem passar uma semana e fica três meses. Não é difícil encontrar pessoas que vieram apenas para uma temporada e nunca mais foram embora. Alter tem disso. É isso. Um encantamento pela natureza, pela beleza, pela tranquilidade. Pela vida comunitária com culturas do mundo todo. Essa característica peculiar faz com que o visitante tenha experiências únicas na sua estadia na cidade. Na praça Sete de Setembro, que fica em frente à Ilha do Amor, principal praia e cartão postal de Alter, é possível se deliciar com o vatapá de frango da Tininha ou com a cozinha internacional do restaurante Italiano. Você pode almoçar a galinha caipira na barraca da Dona Jô ou então atravessar a pracinha e pedir um hambúrguer de cordeiro no Mãe Natureza.

A região é bem marcada pela sazonalidade. E isso se reflete tanto nas paisagens naturais quanto no cotidiano da vila. De janeiro a julho, época das chuvas, o clima é mais ameno, as ruas mais vazias de turistas e as praias praticamente desaparecem. Mas nem por isso Alter do Chão deixa de ser um ótimo destino nesse período. Com a cheia, surge a Floresta Encantada, um igapó a cerca de 3km do centro da vila por via terrestre. Também é possível ir de bajara ou lancha, passando pela Ilha do Amor e atravessando o Lago Verde até chegar no Caranazal. Lá, a dica é parar no restaurante que leva o nome da localidade, mas que também é conhecido por ser proprietário, seu Luiz. A boa pedida é um tambaqui na brasa para o almoço. Ao lado do restaurante há algumas catraias que fazem o passeio para dentro da Floresta Encantada, ao preço de R$ 30, com capacidade para até 4 pessoas. Na calmaria dos remos, navega-se por entre as árvores, com muitos pássaros, macacos e peixes. É um lugar mágico, único.

No verão as praias emergem do Tapajós e há muitas para se escolher. A Ilha do Amor é a mais conhecida. A travessia é feita por catraias ao preço de R$ 5,00 por viagem. Não demora quase nada para chegar ao paraíso. Areia de praia, água clara e quente, pouco mais de uma dezena de barracas com cerveja gelada, sucos de frutas típicas, peixes da região, petiscos locais, como o bolinho de piracuí, feito de farinha de Acari. Se chegar cedo, é possível pegar uma barraca bem na beira d’água e aproveitar o dia com água nos pés. Para quem não quer atravessar para a Ilha, é possível ficar na Praia do Cajueiro, com barracas e público mais local ou ainda buscar o Lago Verde, mais tranquilo, mas sem estrutura de bares e restaurantes – por isso é preciso levar água e comida se for passar o dia. Se você quer um serviço mais exclusivo, pode ir na praia de um dos maiores hotéis da vila. Com espreguiçadeiras na areia, tem carta de vinhos, cervejas especiais e cozinha de primeira. 



Passeios
Há ainda praias nas quais só é possível o acesso por barco, como a Ponta do Muretá, Ponta da Valéria e Ponta do Cururu. Está última com um pôr-do-sol sensacional. De dentro d’água se contempla o sol baixando no Tapajós, colorindo o céu com tons de vermelho e laranja. Tem muitas lanchas que fazem esses passeios. Dê preferência aos cadastrados na Associação de Turismo Fluvial de Alter (ATUFA), com uma base na orla da cidade. É só perguntar para qualquer pessoa, que vai saber lhe indicar. Com tantos passeios, bom mesmo é ter um guia no seu grupo para mostrar não apenas as melhores opções de Alter, mas contar um pouco sobre a história do lugar. E para isso não existe ninguém melhor do que a Neila Borari. Nativa, indígena, compositora, artesã e também guia, conhece tudo sobre a região. Da cerâmica ao artesanato. Da Resex Tapajós/Arapiuns à Floresta do Nacional do Tapajós. Dos quitutes mais simples à culinária internacional. Nascida e criada em Alter do Chão, há anos montou uma agência turística, com pacotes diversificados e riquíssimos de belezas naturais e cultura da terra. É possível fechar grupos de todos os tamanhos, até mesmo individual, para conhecer o Canal do Jari e suas vitórias-régias enormes, o igarapé do Jamaraquá, a ponta do Icuxi, no rio Arapiuns ou tantos outros roteiros de tirar o fôlego pela região. Para quem pode passar mais dias, a boa pedida é fretar um barco e se hospedar nele. Há dos mais simples, do tipo regional, onde se dorme em rede, até iates de luxo, com suítes com ar condicionado. Daniel Govino Gutierrez e Marcelo Cwerner, são empresários especializados neste tipo de locação e experientes em organizar esse serviço. Ambos paulistas (que escolheram Alter do Chão para viver), eles trocaram os fechados escritórios de São Paulo pelo vento no rosto das embarcações do baixo-amazonas. Organizam casamentos em praias desertas, festas em picos paradisíacos e viagens inesquecíveis pelos rios e comunidades no entorno da vila.


Gastronomia
Depois de tantos passeios é preciso reabastecer o corpo e há ótimas opções em Alter do Chão. Na orla da cidade, estão localizados dois belíssimos restaurantes, no que tange à qualidade dos pratos e serviço. Um deles, o Ty, é administrado por Juana Calcagno Galvão. Com um cardápio de releituras de comidas típicas requintadas, como os pratos Pirarucu com banana da terra, redução de tucupi e crisps de Jambu; e filé ao molho de açaí com purê de panc (plantas alimentícias não-convencionais). As sobremesas seguem a mesma linha: Panna Cotta de Tapioca (com ganache de açaí e calda de taperebá) e Pudim de Cupuaçu com calda de cumaru. O Farol da Ilha é comandado por Débora Diniz, que tem em seu currículo ter cozinhado para o Príncipe Charles quando visitou Alter do Chão. O destaque do Farol fica por conta das entradas: ceviche de peixe com banana da terra; bolinho de feijão de Santarém e guacamole com pirarucu defumado. Ambos têm como vista a Ilha do Amor. O Ty é um ambiente lounge praiano, enquanto que o Farol da Ilha é construído em madeira rústica. 



Na Praça Sete de Setembro, ficam as barracas de comidas típicas, como pastel, bolinho de macaxeira, e os imperdíveis chips de banana frita, uma iguaria de Alter do Chão que pode ser encontrada em vários pontos. A praça tem também restaurantes que recebem o maior número de turistas da vila. O Italiano, com destaque para as massas, risotos e pizzas; o Arco-íris, com pratos individuais de peixes e carnes, o Mãe Natureza, com uma comida mais simples (mas não menos saborosa) e o Butikin, ótimo para petiscos.

Colados um no outro, as mesas dos clientes se misturam e é possível fazer pedidos e mais de um, sem qualquer problema. Donos e garçons são todos amigos e o que vale é atender bem os visitantes. Todos funcionam a partir das 18h. Para o almoço, uma sugestão de comida gostosa e preço honesto é o Piracuí, que fica nos altos de um comércio, também na praça Sete de Setembro. Prato feito aqui não significa baixa qualidade, muito pelo contrário. Tanto a comida quanto a apresentação são maravilhosas! As opções são peixes na chapa (tambaqui, filé de pirarucu fresco ou surubim), carne e frango, com direito a acompanhamentos variados. 

Um pouco mais afastado do centro fica a Pizzaria Amazônia. O proprietário, José Salinas, é uma figura, um bon vivant. Trabalha descalço assando duas pizzas no forno a lenha, enquanto canta e dança ao som dos mais variados ritmos. A massa é deliciosa e ele faz apenas 25 por dia. É preciso mandar mensagem para reservar a massa (e para não perder a viagem). Funciona de sexta a domingo, no começo da noite.

Ingredientes de primeira, atendimento de primeira, lugar de primeira. A pizza Stella tem especiarias e vem com as bordas dobradas, em formato de estrela. Tem ainda a de camarão, flambada com cachaça de jambu. 

Para quem quer comer uma refeição mais informal, o X-bom tem lanches deliciosos, como o hambúrguer de piracuí, o X-Banana e Hambúrguer de bacon. Tudo caseiro, artesanal, com muito molho, queijo e salada. Ao lado fica a ‘sucaria’ Sabor da Fruta, que vende sucos geladíssimos e tão consistentes que dá pra tomar com colher. A hamburgueria Mamute também é artesanal e tem sanduíches com picanha e filé de frango, além de um tira-gosto de linguiça caseira. Há ainda o churrasquinho do Plínio, um dos mais tradicionais da vila. Tem espetinho de carne, língua de boi, asinha de frango, linguiça e, na alta temporada, ainda tem o de Pirarucu. As palavras de ordem são simplicidade e bom atendimento. 

Vida Cultural
Mas Alter não é feita apenas de belezas naturais e boa gastronomia. A cultura é parte importante na vila que tem uma história secular e que mescla os costumes indígenas com tradições lusitanas. A festa do Çairé tem mais de três séculos e meio de atividade e é uma das festividades mais antigas do estado do Pará. A parte tradicional tem a procissão de barcos, retirada e levantamento dos mastros do Divino Espírito Santo, danças típicas como a desfeiteira e ladainhas entoadas num barracão de palha, construído especialmente para o evento. O Arco do Çairé, em formato de semicírculo, é feito com cipó ou madeira, adornado com fitas e flores coloridas, que simbolizam a fartura de alimentos na região. O arco possui três cruzes centrais, que representam a Santíssima Trindade (Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo) e uma cruz na parte superior que representa a junção das três pessoas da Santíssima Trindade, em um só Deus. Atualmente a festividade acontece no terceiro fim de semana de setembro e que há 20 dias ganhou ainda a disputa dos botos. As agremiações ‘Boto cor-de-rosa’ e ‘Boto Tucuxi’ fazem uma apresentação cênica com alegorias contadas em enredos folclóricos. Personagens como a ‘Rainha do Çairé’, ‘Boto Homem Encantador’, ‘Curandeiro’ e ‘Cabocla Borari’, se apresentam para um público de 5 mil pessoas, no Lago do Boto, o Sairódromo. A festa, em si, atrai cerca de 40 mil pessoas por dia a Alter do Chão. Turistas da região, mas também de todo o Brasil, Europa e Estados Unidos. A cobertura é feita pela imprensa de todo o mundo. Há pouco mais de 10 anos o carimbó ressurgiu como movimento cultural em Alter do Chão. Liderados pelo Mestre Chico Malta, vários grupos se formaram e hoje se apresentam na vila. 



Qual a melhor época para conhecer Alter do Chão? O ano todo! A vila é tão rica e tão diferente ao longo das temporadas que é como se fossem dois lugares distintos, cada um com suas particularidades, mas todas deslumbrantes. Alter tem um monte de coisas para fazer, mas às vezes é não fazer nada. Se permita ser preguiçoso, diminuir o ritmo, se embalar na rede sem ver a hora passar, tomar um café da manhã demorado ou simplesmente deitar na areia da praia e deixar o dia passar.


O que comprar
Aproveite a sua estadia em Alter do Chão para visitar comércios locais e comprar produtos que você só vai encontrar aqui na região. A Ekilibre tem uma linha de produtos de higiene que são totalmente naturais. Sabonetes, xampus em barra e pastas de dente totalmente livres de produtos químicos. Apenas matéria-prima que se extrai da Natureza. Tem ainda protetor solar, óleos essenciais e repelente. Vale também conhecer a Araribá, loja com produtos indígenas de todo o Brasil. Tem pulseiras, colares, redes, cerâmicas, máscaras, bordunas e mais uma infinidade de artigos. É quase como visitar um museu, de tantos itens que tem. Para quem gosta de decoração não pode deixar de conhecer o Atelier Eduardo Basso. Artesão e carpinteiro, Eduardo constrói móveis rústicos de madeira caída, marchetaria, objetos pequenos, além de pranchas de stand up de madeiras e até embarcações maiores, como veleiros. Bom de conversa e com um trabalho primoroso, tem clientes no Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e até na França. Todo sábado na parte da manhã acontece a Feirinha Agroecológica, no terminal rodoviário de Alter do Chão. São produtos orgânicos diretamente da horta da AMABELA, uma associação de camponesas de Belterra. Como a produção é familiar, há sempre uma surpresa de frutas e verduras da estação: araçá-boi, uxi, pupunha, cará, pequiá e mais um monte de coisas legais. É possível encontrar também ovos caipira, mel e própolis de abelha nativa, óleos de andiroba e copaíba e muito mais. Além dos produtos orgânicos, a alimentação saudável também está presente. A curitibana Denise Rodrigues, da Tribo do Sol, trabalha com alimentação viva: queijos vegetais, uma série fermentados, probióticos e desidratados. A venezuelana Mari Carrilo trouxe do seu país a guacassaca,um molho a base de ervas que vai bem com peixes, carnes e até em pães. Quem faz bastante sucesso na feirinha é a Como em Casa, do Leandro Nogueira. São alimentos naturais e veganos, sucos detox, pastas naturais de amendoim, pães caseiros de açaí e banana verde e farofa de castanha. Tudo muito saudável e saboroso.

Onde ficar

Há todos os tipos de hospedagem na vila, para todos os gostos e bolsos. Se você quer contato com a natureza, a Maloca Viva oferece quartos sem parede no meio da mata e espaço para meditação. A Vila de Alter é uma Pousada de Charme, exclusivíssima, com apenas 6 chalés com hospedagem de luxo, mas totalmente ambientados ao cenário natural. Fica no meio de um bosque com macacos guaribas, bichos preguiças e muitos pássaros como vizinhos. A Vila de Arumã tem chalés suspensos e muito bem decorados. Mas em quesito de vista, ninguém ganha da Vila Flor, que fica no alto de um morro, com piscina infinita abastecida com água do aquífero e de onde é possível se avistar o Tapajós  e morro da Piroca. Para quem está no esquema mochilão, os redários são uma opção boa e barata. O Surara é o melhor deles. Ambiente  familiar, café da manhã gostoso, bem localizado (fica na orla da cidade, em frente a Ilha do Amor) e é administrado por uma família tradicional de Alter do Chão. Prepara-se para ouvir muitas histórias do seu Laudeco sobre a região. Se você tiver um pouco de sorte, pode aproveitar para sair com ele em pescarias e depois desfrutar um peixe assado na brasa.


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