REVISTA

Todo mundo e ninguém

 
De repente, não mais que de repente, todo mundo virou fã de Star Wars e aguarda, com ansiedade indisfarçável, o próximo filme de super-herói, mesmo que nunca tenha ouvido falar do tal personagem. Mas, não só: de repente, não mais que de repente, todos defendem minorias com unhas e dentes e textões no Facebook. Os vilões preconceituosos, bobos, chatos e feios desapareceram – não que façam alguma falta. Não estranhem, mas, como uma verruga crescida na testa da noite para o dia, todos falam do casamento da Preta Gil (que a essa hora já deve ter sido esquecido ou terminado ou as duas coisas) e da última asneira do Danilo Gentilli, que há anos não diz nenhuma asneira que provoque um mínimo sorriso de canto de boca (se é que algum dia disse), e da nova vida da ex-modelo que encontrou Jesus, o bíblico, não o ex-namorado de Madonna.
 
De repente, como a flor que brota na fresta do asfalto, o País se tornou um lugar insuportável de tanta corrupção, como um lançamento balado do iPhone 10, assim, anunciado de chofre. Mas aí nem é todo mundo que fala. Só alguns, os que, geralmente, toleram pequenas e grandes corrupções ou são maus observadores dos infernos do dia a dia. De repente, não mais que de repente, todo mundo odeia as segundas, ama as sextas e vê os domingos como dias cinzas e tristes, como se o calendário não tivesse quartas cosidas com linha fina da poesia. Sem mais nem menos, todo mundo passou a gostar mais de bicho do que de gente, a ter compulsão por séries americanas, a fazer mestrado em alguma coisa sobre arte e sociedade ou novas teorias de alguma coisa. De repente, como uma festa surpresa eterna e muito bem organizada, todo mundo é analista de mídias sociais, fotógrafo, DJ ou aspirante a chef de cozinha.
 
De repente, assim do nada, pluft, todos não acreditam em deus e fazem da descrença uma das religiões sob o signo da chatice, tanto quanto o culto ao futebol, outro esporte que está em alta entre todo mundo, que agora tem aflições com a tabela do campeonato europeu. Sim, todo mundo torce agora para um time inglês, espanhol, alemão, italiano. Como num passe de prestidigitação, todo mundo anda meio deprimido e vê um certo charme nesse princípio de depressão que nunca chega e, ao mesmo tempo, está mal humorado com a vida e intolerante sobre qualquer assunto em torno de qualquer pergunta. E, todo mundo acredita que esse traço sutil de violência e frustração com o mundo é algo deveras engraçado. De repente, como uma estrela cadente sem
tempo para pedidos, o sarcasmo, esse traço ingrato e inconveniente para os que nascem com ele, pôde ser cultivado em estufas e virou moda. 
 
Com muita alegria, ciente da relação com o planeta, todo mundo, de repente, num átimo de segundo, virou ciclista e adotou um dieta rica em fibras e proteínas. Todo mundo, secretamente, sem admitir nem para si, quer um carrão para furar os engarrafamentos e parar nas portas de boate.
 
Quando vi, todo mundo passou a fumar cigarros eletrônicos, ora veja, para pôr fim ao vício analógico e comprou um pau de selfie e uma GoPro para exibir a si mesmo como sua vida sem grandes lances é incrível. Todo mundo decretou o fim do Jornalismo impresso, do mundo por um asteroide ou chuva de lava, do autor, do indivíduo unidimensional, do amor, de tudo que ficou no século 20, numa boca só, de repente, assim, como fosse algo natural e previsto, como uma chuva torrencial no meio do verão. 
 
Todo mundo quer um lugar ao sol por estar predestinado a ter felicidade em largas doses guardadas em alguma prateleira de uma loja de departamento em Miami e por acreditar que é único e diferente, vejam só que engraçado e extraordinário. Como numa epidemia de amnésia em que todo mundo esquece que ninguém é igual a ninguém. De repente, não mais que de repente.

Comentário