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Tinha tudo para dar errado

Tinha tudo para dar errado. Ela, efusiva. Ele, calado. Ele, absorto. Ela, um vendaval. Um copo na mão, a parede como companhia, um cigarro na mão esquerda. Tragadas excessivas. Dava para ver que ele era um falso fumante. Entre os dois, um mundaréu de gente entregue à festa.
A mulher se movimentava no lusco-fusco artificial com graça. Ele a olhava. Sério. Fixamente. Ainda bem que a moça não viu. Teria corrido da expressão estática do observador. Parou a dança, varou a multidão. Os braços para cima, mostrando as axilas depiladas, perfeitas. O colo nu com o tomara-que-caia. Vestida de negro. Sombra ao redor dos flamejantes olhos castanhos, a boca de carmim.
 
- Uma cerveja. – Ela gritou ao barman.
 
A música era alta.
Virou-se e pediu fogo ao primeiro desconhecido.
O desconhecido era ele! Estendeu a brasa do cigarro que detestava, mas o ajudava em interações milagrosas, como a que acabara de ocorrer entre ele e seu objeto de contemplação.
Ela acendeu e, em seguida, berrou que adorava o set list do DJ fulano de tal.
Ele não soube responder. Não conhecia a música, tampouco o DJ fulano de tal. Retraiu-se, frágil, em muxoxo adolescente.
Ela perguntou se estava tudo bem e, ao mesmo tempo, escapou de uma mão masculina de outro desconhecido tentando afagar seus cabelos, acenou para mais três amigos à esquerda, mandou beijo para um conhecido à direita. Não parava. Era um sucesso, quase uma vereadora de cidade pequena. Agradeceu o prestimoso portador do fogo e rumou para onde estava.
Ele, do seu posto, acompanhou o andar e pousou novamente os olhos onde ela parou para seguir a diversão. Sentiu-se mal nas próprias roupas, sentiu-se mal com a falta do que dizer. Jogou o cigarro no chão e apagou com a sola do sapato.
Sem demora recobrou o senso de oportunidade e caminhou ao centro da pista. Muitos dançarinos em variedade de estilos impressionantes. Sentiu-se à vontade para se mover com certo ritmo e do jeito que a parca coordenação motora permitia. Como um caramujo, aproximou-se aos poucos da mulher vestida de negro com belos olhos marrons.
Ela entendeu o movimento. Sorriu e requebrou. Bateu com as mãos, jogou o cabelo, desceu até o chão.
Por um momento, parecia que os dois estavam na mesma dança. Ela, esplêndida. Ele, o desengonço. Ela, leve. Ele, uma bigorna. Ela, solar. Ele, cinza. Ela, integrada, ele dissolvido.
Ela com um sorriso franco e aberto que não poderia ser chamado de nada menos do que radiante.  Ele tenso, travoso, encrespado, ansioso pelos próximos passos.
O que viria depois da dança?
Enquanto ele confabulava com seu eu mais pessimista e a réstia de esperança que o mantinha vivo, ela lançava o corpo no espaço em perfeita harmonia com a luz e som. Nem aí.
Ela, um milagre na pista.
Ele, um desastre por dentro.
O homem estava prestes a agradecer ao criador pela dádiva, quando outra aparição se interpôs ao par: uma loira de réveillon em Balneário Camboriú, uma visagem espetacular trajada em microvestido vermelho, brotada do chão, de debaixo da mesa, do globo espelhado, detrás do balcão, dos pick-ups, do copo de caipiroska, sabe-se lá de onde. Olharam-se, se identificaram, se permitiram.
Ao poucos os movimentos sincopados das mulheres foram se afinando e ele, claro, foi posto de lado tal um penetra no glorioso evento feminino formado de uma hora para outra.
Logo, elas atraíram todos os olhos. Formou-se um círculo. Magnéticas. Insinuantes, sensuais, irmãs de frisson, a dupla sustentou uma simbiose inabalável até o fim da festa.
Saíram juntas. Mãos dadas, riso frouxo, modernas, trançando pernas, fantásticas.
A lady in black ainda acenou para ele antes de cruzar a porta.
Quase sozinho no salão, ele acendeu mais um dos mágicos cigarros de interação, desta vez para aliviar a derrota.
Tinha tudo para dar errado.
E deu.

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