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Tão longe, tão perto

 
Em entrevista para a série Belém 400 anos, Emmanuel Nassar diz que tanto ele quanto sua obra nunca se afastaram da cidade e segue abordando sobre si mesmo e o seu entorno, em questões que vão do individual ao coletivo.
 
É impossível falar da obra de Emmanuel Nassar sem que se remeta às origens de sua família. Nascido no interior do Pará, no município de Capanema, em 1949, ele foi morar em Belém aos cinco anos de idade. Por causa da atividade do patriarca, que atuava com a venda de tecidos e outros produtos de armarinho, ele viveu entre municípios do interior, até se mudar para a capital, onde se formou em Arquitetura, em 1974, na Universidade Federal do Pará (UFPA). Neto de um sírio que trouxe o comércio de espelhos e pentes para o interior do Pará, ele foi fortemente influenciado pelas atividades mercantis, que logo se expandiram para a capital, onde os Nassar se estabeleceram com uma ampla cadeia de lojas de tecidos, espalhadas por vários municípios paraenses. 
 
As atividades do rentável ramo foram herdadas pelo pai do artista, que na posição de gerente, levava o menino para acompanhar a rotina comercial. “Passei minha infância dentro de lojas de tecidos e bugigangas. Aprendi a expor, dar descontos e a fazer embrulhos como ninguém... Na verdade, eu adoro mercado! Comprar, vender, trocar sempre foi um fascínio para mim”, revela. Foi a partir dessa época que ele desenvolveu sua capacidade de negociação, que lhe é útil até hoje na sua atuação como artista.   
 
A herança desse período vai além da habilidade comercial e se reflete em seu repertório artístico. Enquanto o menino Emmanuel circulava pelas ruas do comércio de Belém, onde funcionava o Armazém Nassar, ele se deslumbrava com a arquitetura local, as cores dos anúncios propagandeados na rua e outros artifícios publicitários, estampados nas invólucros dos tecidos comercializados por sua família.
 
“Sua infância foi um movimentado convívio com mostruários de estamparias, com brincadeiras inventadas entre embalagens e miudezas, pontuadas por inúmeras visitas ao depósito repleto por um festival de coloridos tecidos. Os olhos impregnados de estampas estocaram formas e cores, conservando-as em delicado relicário, escondido na memória”, define a pesquisadora e crítica de arte Marisa Mokarzel, no artigo “Emmanuel Nassar: nas margens do urbano” (2011). 
 
Para esta entrevista à revista Leal Moreira, o artista abriu as portas de sua casa, no bairro do Marco, onde esteve por alguns dias para a celebração do Círio de Nazaré, antes de voltar para São Paulo, a outra cidade em que mora e passa a maior parte do tempo. “Costumo dizer que São Paulo, para mim, é um bairro afastado de Belém”, resume, se dizendo fiel às suas raízes. Nesta conversa, ele resgata algumas de suas memórias, relaciona aspectos da cidade à própria obra e conta o que gostaria de ver na Belém de 400 anos.
 
Você já revelou em entrevistas que algumas de suas obras trazem o elemento da “improvisação”. Como o improviso se manifesta em seu processo criativo?
Digamos que eu já entendi, desde as minhas primeiras exposições, que imprevistos acontecem e a gente tem de fazer, de executar, aquilo que é possível ser feito. Como quando você está trabalhando em uma peça e, por acidente, ela se quebra (ou rasga, racha, parte ao meio, sofre um arranhão...). Acabei me tornando até bastante conhecido pelos meus métodos de “gambiarra”, de “arranjo”. Porque em vez de reclamar do imprevisto que aconteceu, eu o absorvi e incorporei ao trabalho. Alguns trabalhos meus são remendados mesmo. Eu diria até que a verdadeira expressão de mim mesmo é esse tropeço, essa rasura, esse remendo. Costumo dizer que o tema principal da minha obra sou eu. Porque estou sempre trabalhando com minhas contradições e tensões. 
 
 
Em que momento você percebeu que queria trabalhar com arte? 
Se um dia eu resolver fazer uma autobiografia, vou tentar reunir todas essas lembranças. Mas, ainda não me sinto capaz disso. Escolhi as Artes Plásticas para me expressar e me sinto mais à vontade com ela. A descoberta veio aos 19 anos, quando eu fazia o primeiro ano de Engenharia. Impactado por uma primeira viagem de turismo à Europa, que fiz ainda no primeiro semestre do curso, resolvi mudar de curso e acabei entrando em Arquitetura. Este fato me abriu um enorme horizonte e foi ali que tive o primeiro contato com o exercício do desenho e da pintura. Naquele mesmo momento, ganhei o primeiro emprego e me tornei redator de publicidade. Então, foram várias descobertas ao mesmo tempo, todas relacionadas com a comunicação visual e criatividade. 
 
É verdade que considera a profissão de artista a melhor do mundo e enxerga nela a flexibilidade de fazer abordagens sob diversas perspectivas – da Sociologia à História? Há um desafio maior em ser artista no contexto da Amazônia?
Foram muitas dúvidas até chegar à conclusão de que não sou nada. E não ser nada é libertador. É por isso que eu digo que ser artista é o exercício ilegal de todas as profissões, porque um artista pode fazer Engenharia, Arquitetura, Comunicação, História, Psicologia, Jornalismo... Tudo ao mesmo tempo! A liberdade é grande e é possível viver muitas alegrias na profissão, mas o risco é imenso e não há nenhuma garantia de sucesso, seja aqui ou em qualquer lugar.
 
Não raro, sua produção remete à sua história pessoal, visitando suas origens, sua noção de territorialidade e pertencimento, numa leitura do individual ao coletivo (sugeridas pelas iniciais do seu nome). Podemos observar isso em obras antigas, como a série “Bandeiras”, até “Da Margem para o Limiar” e na recente série “Amassados”, apresentada na galeria Mul.ti.plo Espaço Arte, no Rio de Janeiro. Fale sobre essas relações.
Considero meu trabalho um autorretrato. As escolhas são sempre um retrato fiel do autor. O uso que faço de minhas iniciais remete à difícil negociação entre o “E”, de indivíduo, e o “N”, de coletivo. Por causa da posição no espaço, algumas pessoas acham que se trata de uma rosa dos ventos meio louca... E é! É como a minha própria bússola, meu instrumento de navegação. Algumas coincidências reforçam essa ideia: o E e N poderiam simbolizar Eu e Nós, por exemplo.
 
Em “A Poesia da Gambiarra” (2003), a exposição trazia alguns aspetos do processo de globalização nas periferias de cidades amazônicas. Como surgiu essa investigação?
Não existe uma pauta de pesquisa. Eu sempre estou dizendo a mesma coisa, de diversas formas. No fundo estou sempre falando de mim e das minhas relações com o meu contexto. O título de Gambiarra que dei a uma pintura, em 1988, talvez seja uma síntese. É o arranjo possível, o que deu pra fazer, o improviso, o equilíbrio precário das coisas. Mas, na verdade, sou mais influenciado pela maneira de olhar do que por aquilo que vejo. E algumas das maneiras de olhar aprendi na História da Arte, na lição de alguns artistas como Andy Warhol, Calder e Volpi, e com soluções da cultura popular: nos barcos, brinquedos, oficinas mecânicas... “Gambiarra” é um conceito, uma maneira de ver, uma síntese.
 
 
Você tinha algum medo ou preocupação, no começo da carreira, de ter seu trabalho rotulado e limitado pelos críticos, de ser categorizado como “regional” ou “exótico”? Como encara essa questão hoje, os artistas locais ainda correm o risco de passar por essa rotulação?  
O perigo é permanente. Mas a minha preocupação não é exatamente com os críticos, embora eu respeite e tenha até bastante curiosidade pelo que eles pensam e escrevem. Trata-se de buscar o equilíbrio entre o que diz respeito ao E e ao N. São muitas as leituras possíveis e encontrar a dose certa de regional e universal é como preparar uma boa comida: tem que saber temperar.
 
Outro aspecto que sua obra discute é a linha imaginária entre erudito e popular, da arte e da não-arte, da geometria e da figura, do real e do virtual. De onde vem essa inquietação e por que esse confronto interessa a você?   
Não vejo como um confronto. Trata-se, como disse, de encontrar a dose certa de promover este encontro. É como um jogo onde o grau de dificuldade aumenta com o desafio de juntar tantas diferenças. Não sou um erudito, na forma como costumamos entender. O contato com o mundo, o ingresso na escola de Arquitetura, as minhas primeiras viagens para o exterior... Tudo isso me causou um grande impacto. Acho que essa polaridade, esse choque, aconteceu e permanece como uma espécie de tema central do meu trabalho. Esta é uma questão pessoal de identidade e também talvez o maior desafio em um ambiente de tantos contrastes, como o nosso. Às vezes, me sinto angustiado com isso. Mas devo confessar: em muitas ocasiões, é uma diversão.
 
Hoje você vive a maior parte do ano em São Paulo, mas visita Belém regularmente e mantém ainda com ela uma estreita relação. Durante esse tempo em que vem se dividindo entre os dois endereços, do que mais sentiu falta de Belém?
Eu costumo dizer que São Paulo, para mim, é um bairro afastado de Belém. Isso quer dizer que nunca me senti desconectado com o meu centro. Antes, eram cerca de três meses por ano lá. Agora, isso está se invertendo. O motivo da mudança para São Paulo, na época, foi uma namorada. Mas nunca deixei de estar ligado à cidade nem de manter um vínculo com ela, porque continuo tendo um endereço aqui. Tenho irmãs, filha e netas aqui e gosto de estar com elas. Continuo garimpando curiosidades, conversas e comida nas feiras de Belém. Muitos dos meus trabalhos são produzidos aqui mesmo. Portanto, essas coisas não são memórias, são vivências ainda atuais. Não dá pra dizer que sinto saudades daquilo que continuo vivendo.
 
Que características e aspectos da história da cidade você destacaria e como você vê a Belém de hoje? 
Belém é uma das cidades mais portuguesas do Brasil. Tem uma história e também uma influência grande dos colonizadores e também dos índios. Quando analisamos a arquitetura e a culinária paraenses, percebemos que as influências portuguesa e indígena se juntaram, como em um grande caldeirão. É um patrimônio histórico muito rico. Hoje, por ter crescido bastante, é uma cidade que tem todas as dificuldades de qualquer grande metrópole do Brasil, com todos os problemas urbanos, como de segurança e transporte. A região do Comércio, que é uma área histórica – e que, portanto, deveria ser melhor preservada – está quase totalmente tomada por um comércio informal...
 
Estamos falando de um lugar especial da cidade para você e sua família, que marcou a sua infância, certo? 
Sim. Aquela região do Comércio é muito familiar pra mim. Meu avó, que veio da Síria, ainda no começo do século passado para vender espelhos e pentes em Capanema, onde nasci, acabou se tornando um grande comerciante de tecidos em Belém, anos mais tarde, à frente do Armazém Nassar. Os arredores daquela região do Comércio são muito familiares pra mim porque era naquele local que eu passava a maior parte do tempo, quando criança e adolescente. Eu ficava ali pela loja e tinha a oportunidade de conviver com todo o material de propaganda e de embalagens dos tecidos que meu avó comercializava no seu armazém. Lembro de uma esquina em que ficava uma casa de tecidos de luxo na época, a Paris n’América... 
 
De que forma essa experiência de comercialização, negociação, troca e venda, na loja da sua família, acrescentou a você?
Meu pai foi comerciante de tecidos, trabalhou como gerente de lojas do meu avô pelo interior do Pará. Até os meus cinco anos de idade, moramos entre Capanema, Bragança e Santarém. O negócio cresceu, chegou até Belém, pra onde nos mudamos, e passei minha infância dentro de lojas de tecidos e bugigangas, com o meu pai. Aprendi a expor, dar descontos e a fazer embrulhos como ninguém... Na verdade, adoro mercado! Comprar, vender, trocar sempre foi um fascínio para mim. As lojas deixaram de existir, mas eu acho que continuo um negociador. Até hoje, os primeiros lugares que procuro quando estou visitando uma cidade são os mercados: de peixe, de carne, de legumes e verduras, as lojas de ferragens... 
 
Você acompanha o cenário artístico local? O que acha que poderia melhorar para os artistas que atuam na cidade?
Esta é uma cena cheia de altos e baixos... Prefiro dizer que o melhor programa de incentivo às Artes é um sistema de Educação de qualidade. Se o Brasil melhorar para todo mundo, com certeza melhora para os artistas também.
 
Às vésperas dos 400 anos de Belém, o que você gostaria de sugerir como um presente para a cidade e sua população? 
Quando eu fazia o primeiro ano do curso de Arquitetura, em 1970, Belém estava literalmente de costas para a sua orla. Os únicos pontos onde se tinha acesso à paisagem eram a Escadinha, o Ver-o-Peso e o Forte do Castelo. Agora, temos a Estação das Docas e um pedaço de orla urbanizada no Guamá. É muito pouco para uma cidade cercada de água por quase todos os lados.

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