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Soma de todos os afetos

Soma de todos os afetos

Por Camila Barbalho

Fotos: Walda Marques

 

Paulo André Barata há muito habita a memória afetiva do paraense, por meio dos clássicos que criou. Em entrevista rara, concedida à Leal Moreira, o músico e poeta fala de afetos, rememora momentos históricos e emocionantes.

  

É difícil dizer com precisão, mas muito dificilmente quem entra para a história sabe que está a fazê-lo no momento em que o faz. Só o tempo é capaz de ditar o que será história e o que passará. Talvez o então moço Paulo André, contador de narrativas sonoras que demandaram tantas vezes as palavras de seu pai, jamais tenha imaginado que as discussões entre eles na sala de casa - sobre este ou aquele refrão ainda não resolvido - pudessem resultar em canções que, de tão pertencentes à cultura paraense, beiram o status de mantras locais. Mas “o tempo tem tempo de tempo ser”, e ainda bem: passadas décadas desde momentos corriqueiros como esse, Paulo André Barata entende com clareza seu lugar na nossa memória cultural. 

No mesmo sobrado do centro da cidade em que construiu com o pai, o icônico poeta Ruy Barata, algumas das pérolas do nosso cancioneiro popular, o herdeiro da dinastia Paranatinga conversa com a reportagem da Revista Leal Moreira sobre seu disco novo. Recém-lançado pela Natural Musical, o trabalho traz seu nome e entremeia músicas já consagradas com outras faixas inéditas, além de marcar a volta de Paulo André aos estúdios - depois de muitos anos distante da atmosfera corrida da produção musical. Mas tem algo de curioso no compositor que chama uma atenção ainda maior que seu peso emblemático. É a humanidade de seu coração de artista. Paulo está com 72 anos, e talvez por isso se permita muitas sinceridades. Revela não se interessar pelos holofotes, faz grandes silêncios, não esconde as limitações que o tempo trouxe. Muitas vezes, parece não querer falar muito. Ao mesmo tempo, (se) emociona falando do pai, comenta sobre outros parceiros e hábitos de sua rotina, rememora como grandes hinos foram feitos, cantarola e sorri com as lembranças. Até esquece que não gosta de dar entrevistas, mas lembra rápido. Apesar do jeito introvertido, é extremamente simpático e acolhedor. Momentaneamente, também esquecemos que falávamos com a história viva - que traz em si uma naturalidade em lidar com a própria importância que só o tempo pode dar. Confira o papo exclusivo:

 

Revista Leal Moreira: O que lhe fez voltar aos estúdios e gravar um disco, depois de tanto tempo afastado desse universo?

Paulo André barata: O Marcel Arêde me falou há tempos isso, de que queria gravar um disco comigo. Eu disse “não, não quero de jeito nenhum, nem tô mais mexendo com isso”. Passou um ano e pancada; quando eu vi, tinha aqui um contrato pra eu assinar. Quem subscrevia a produção era Ana Luiza, minha filha. Ele usou a minha filha (risos). Aí eu não podia dizer ‘não’. Aí fomos vendo, “vamo fazer lá no [estúdio do Luiz] Pardal [multi-instrumentista, compositor, arranjador e diretor musical]; os arranjos, eu quero do Pardal e do Tynnoko Costa [maestro, pianista e compositor]; os músicos, eu quero tal e tal e tal”… E ficou. E vou lhe contar, eu já tô até arrependido (risos). É muita correria, sempre sobra pra gente.

 

Revista Leal Moreira: É uma rotina que desacostuma, né?

Paulo André Barata: Eu nunca gostei de dar entrevista, dessas coisas. Sou meio taciturno, caladão, quando se trata dessas coisas de música. Além do que, não tenho mais a juventude que eu tinha. Meu caso agora é ficar coçando a barriga, não me aventurar tanto. Mas graças a Deus, deu tudo certo. Foi bom. Aquilo que eu te falei de estar arrependido é meia-palavra.

 

Revista Leal Moreira: O dia a dia das gravações foi muito intenso?

Paulo André Barata: Não foi intenso porque eu gravava quando queria. Ia pro estúdio, gravava três canções, duas, uma. Os meninos são meus amigos de longa data. Então foi feito com calma, deu pra trocar ideias com os arranjadores… Tive a chance de trazer João Donato, meu parceiro antigo.

 

Revista Leal Moreira: Como foi esse reencontro? Vocês estavam afastados?

Paulo André Barata: Estávamos, mas falávamos sempre pelo telefone. Não sabia que ele tava tão gordo, isso foi surpresa pra mim (risos). 

 

Revista Leal Moreira: Você gravou nesse disco canções inéditas e outras já consagradas. Como foi revisitar músicas feitas há tanto tempo, como “Nasci Para Bailar”?

Paulo André Barata: Essa eu nunca tinha gravado, então é o primeiro registro na minha voz. E é uma gravação diferente, porque eu digo o refrão de outra maneira: “porque eu nasci, nasci - hm-hm - para bailar” [cantarola]… Eu dou esse tempinho. O João Donato criou alguns arranjos, elogiou os músicos daqui. Foi excelente. A única coisa que não foi excelente é que no estúdio não podia fumar. O Donato foi uma grata surpresa, veio aqui, se empenhou. Surpresa não, porque ele sempre foi um rapaz dadivoso, generoso conosco. Moramos juntos no Rio de Janeiro. Fiquei muito feliz com essa vinda. A Leila Pinheiro veio gravar comigo, que é uma excelente cantora. Convidei minhas amigas Andrea Pinheiro, Lucinnha Bastos, Alba Mariah, Lia Sophia. Todas essas garotas são muito especiais pra mim. Foi algo que valeu a pena. Os rapazes são muito bons, os produtores. A gente vai pra São Paulo, mas ainda não sei quando. Vamos ver.

 

Revista Leal Moreira: Como está o pique pra excursionar com o disco?

Paulo André Barata: Não tenho isso não (risos). Eu cego de um lado. Geralmente, eu não tenho sentido de profundidade. Pra mim é duro, é difícil. É isso. Não quis ir pra televisão, aparecer. Não tenho saco. Meu negócio é a música. E 72 anos… não é fácil também. Eu sou uma droga pra decorar letra. Algumas coisas são difíceis de cantar também, porque operei a corda vocal. Fui pra São Paulo operar. O cara deu um diagnóstico na base do “não sei se é, mas tá com cara…[de câncer]”. Ele tava botando na minha garganta um espelhinho de dentista pra ver. Cheguei lá e o cara tinha uma câmera de televisão na minha boca, monitor e tudo. O assistente dele disse “eu rasgo meu diploma se for”. Mas eu quis operar, e ele disse que só podia ser se fosse no dia seguinte. Isso já tem mais de 20 anos, mas você não recupera mais. Aí tem que achar um jeito de cantar. Acabou que mandaram pra biópsia e não era nada. Era um calo, de tanto cantar em tom que não era o meu. Eu gostava de fazer falsete… 

 

Revista Leal Moreira: É difícil essa relação da música com o negócio que envolve a música, né?

Paulo André Barata: Demais. E eu já não fazia show há muito anos aqui em Belém, porque não queria mesmo. Não por falta de oportunidade: eu realmente não tinha mais vontade. Fui mais honesto, né? Melhor do que ir sem querer.

 

Revista Leal Moreira: Mas você não sentiu saudade do palco?

Paulo André Barata: Eu senti. Mas só quando eu pisei nele. As coisas voltam. Por exemplo, nem o lançamento do meu disco duplo, que eu fiz pela Secretaria de Cultura, eu tive que fazer show. Lançaram, ele esgotou… hoje eu tenho um só pra contar história aqui. Eu não tava me apercebendo disso até pisar no palco. Eu gostei, sim.

 

Revista Leal Moreira: Ficou emocionado em algum momento?

Paulo André Barata: Os aplausos foram muito emocionantes. Eu senti. Quem é que não sentiria, né? Uns dias atrás, Fafá fez um show aqui e me homenageou por cinco minutos. Falou de mim, cantou minhas canções. Era pra ela ter gravado no disco, mas estava em Portugal. Eu disse pra ela: “queria que eu te esperasse? Não dá” (risos).

Revista Leal Moreira: A sua relação diária com a música ainda existe? Você para pra tocar ou ouvir alguma coisa sempre?

Paulo André Barata: Eu tenho um violão dentro do quarto. Tenho uma eletrola também. Escuto e toco quase todo dia. Nem que eu pegue o violão por 10 minutos, eu pego. Mas eu sinto que tenho preferido que outros me acompanhem. Eu me ligo no violão e vou esquecendo a melodia, a letra. Eu cantei lendo no show. A maior parte das músicas era inédita, não deu tempo de decorar. As do papai, eu sei as letras todas. Papai ia ficar muito feliz com esse disco, eu tenho certeza. Quando eu morava no Rio, dizia pra ele: “venha pra cá, papai… Eu tô sozinho, preciso de um parceiro pra compor”. Ele respondia: “por que tu não compõe com o Pinheirinho?”. “Pinheirinho” é o Paulo César Pinheiro. Papai gostava muito dele, achava ele um excelente letrista. Acabou que isso deu certo e temos mais de 20 parcerias. Eu acho que ele é o letrista mais preparado que tem. Eu botei música nas letras dele. Isso requer um bocado de técnica. A gente vai adquirindo isso com o decorrer da idade, do tempo. 

 

Revista Leal Moreira: Seu pai era um grande ativista, não só da política, mas da poesia, chegando a ser preso pela ditadura. Imagino como deve ser forte a memória dele em momentos como esse…

Paulo André Barata: Meu Deus do céu… Sim, demais. Estourou o golpe num dia, ele foi preso no outro. Eu tinha 18 anos, mais ou menos. Já tava me preparando pra ir pro Rio, estudar música lá. Aí veio um camarada aqui, já era mais de meia-noite. “Ruy, Ruy, Ruy!”. Mamãe atendeu, perguntou o que foi. “Estourou a rebelião dos militares. Estão vindo em cima de nós, diga pro Ruy se mandar”. Papai foi pra casa da minha tia porque não queria ser preso na frente dos filhos. Depois disso, qualquer coisinha ele era preso.

 

Revista Leal Moreira: Como ficava o coração nessas horas?

Paulo André Barata: Eu era um filho muito apegado ao papai, tanto que éramos parceiros. Foi uma época muito difícil. Mas, mesmo assim, ele me mandou pro Rio pra estudar. Além de bom sujeito, ele era bom poeta. Eu admiro muito ele, até hoje. Como diz o Paulo César Pinheiro, “o importante é que nossa emoção sobreviva”. 

 

Revista Leal Moreira: Depois desse processo do disco, você continua compondo?

Paulo André Barata: Sim. Cabeças curtas de música, ainda. Falta trabalhar o resto. As primeiras coisas que chegam, eu vou logo anotando.

 

Revista Leal Moreira: Você ainda tem esse costume de escrever as partituras?

Paulo André Barata: Só quando a música fecha. Às vezes eu penso “essa música não é boa”. Se começa a dar a dar muito trabalho, eu descarto. Lembrei de uma história boa agora: eu fui convidado pra fazer a trilha sonora do último filme que fez o Líbero Luxardo em Belém, chamado ‘Brutos Inocentes’. Eu tava jogando baralho com o papai, minha irmã, minha ex- mulher… quando veio uma música na minha cabeça. Era um carimbó que eu tinha que fazer pro filme. Eu continuei a jogar, ela todinha na minha cabeça. Quando fui embora pra casa, a música sumiu. Aí eu pensei: se a música for boa mesmo, ela volta. Pois eu tava vendo [a novela] ‘Irmãos Coragem’ - aquela primeira, ainda na televisão em preto e branco - quando a música veio. Aí, pensei, “agora ela não escapa”. Fui pra um gravador grandão que eu tinha e gravei. Sabe que música era? Este Rio É Minha Rua. Acho que eu não contei isso pra ninguém. Nós fomos pro Aquiqui, lá pro Baixo Xingu. Lá eu arranjei um grupo de garotos, os Aquiqui Boys (risos). Os garotos eram afinados, cantam muito. Pegaram rápido, era música fácil de aprender. Depois, o papai colocou a letra. Foi muito bom. Aí muita gente pergunta “mas o que o Paulo tá fazendo em Belém?”. Eu me enchi o saco disso. Olha, eu fui contratado por uma gravadora que me dava tudo. Eles acreditaram em mim. O presidente me chamou pra dizer que pagaria programa de televisão pra mim, tudo que fosse política da gravadora, como ir pro Chacrinha. Isso custava uma ponta. Isso simplesmente caía no meu colo, e eu não queria ir… 

 

Revista Leal Moreira: Você se arrepende disso?

Paulo André Barata: Me arrependo. Eu vim passar férias em Belém, tava correndo a maior política aqui. Fiz uma porrada de jingle - de graça, porque acreditava nos caras. E aqui fui ficando… Conheci uma gata aqui e casei com ela. Hoje, é uma grande amiga. Mas não quis mais voltar pro Rio. Perguntei pro Donato o que ele fez da vida. Ele diz “o que me enrola é mulher” (risos). Donato largou o Rio pra ir pra Brasília, casar com a namorada dele lá. Aí eu falei “tu me fazes lembrar uma pessoa que eu conheço… eu mesmo” (risos).

 

Revista leal Moreira: O que você vê do seu pai em você, e o que você vê de si na sua filha?

Paulo André Barata: Ah, ela é a minha danadinha. Gosta de produzir coisas, principalmente pro lado da arte. E o papai… eu tenho muita identidade com ele. Papai sempre foi um cara muito digno. Às vezes a gente vê um artista vir fazer show e exigir garrafas de uísque, isso e aquilo, luxo, ostentação… Eu acho uma indignidade aquilo. Quando me perguntaram o que eu queria no camarim do teatro nesse último show, eu disse: nada. Mesmo assim, tava lotado de coisa. Tinha uísque, e eu não tomei - porque eu aprendi uma coisa, depois de muitos anos: vale mais a pena encarar o público de cara limpa. Nunca mais bebi pra fazer show. Mas eu ainda bebo pra burro (risos).

 

Revista Leal Moreira: Você ainda se considera um boêmio?

Paulo André Barata: Não, não mais… eu gosto de ir quase todo dia lá pro Cosanostra, pro happy hour. Tenho alguns grandes amigos que vão lá - estavam todos no teatro - e nós ficamos trocando ideia sobre futebol, filosofia, música, literatura… sobre tudo. As coisas mais comunzinhas da vida. Coisas que pra muitos não têm sentido nenhum, mas pra outros têm todo o sentido… [faz uma pausa longa] Agora tô esperando o meu neto. Ele tem cinco anos. Tá uma graça. 

Revista Leal Moreira: Como é ser avô?

Paulo André Barata: Ele não mora comigo, né? Mora com os pais. O outro avô dele é mais novo, faz todas as galhofas com ele, põe no ombro… eu não consigo mais (risos). Eu sou o vovô Paulo. Ele é um ótimo menino. Sapeca que só ele, como toda criança dessa idade. 

 

Revista Leal Moreira: Você sente saudade de quê?

Paulo André Barata: A grande saudade da minha vida é papai, sem dúvida. Eu tenho várias saudades. Meu avô, minha mãe, minha avó… Mas meu pai era o cara que fazia música comigo. Isso tem que ter um “chega mais”. Pensa que a gente era só flores, só amores? Não, a gente discutia por causa de música. Ele dizia “vai trabalhar um pouco mais nessa canção, porque ela é boa, ainda falta”.

 

Revista Leal Moreira: Ele lhe cobrava muito nesse sentido?

Paulo André Barata: Cobrava sim. Mas, no geral, gostava do que eu fazia. Por exemplo, tava eu aqui na sala e ele, lá na cozinha com a mamãe. Eu tava com uma namorada minha aqui. Cheguei de paletó e gravata, tirei o paletó e peguei o violão. Comecei: “tototó, tototó, tototo-tototó; tototó, tototó, tototo-tototó” [cantarola]… Aí ele manda pela mamãe um pedaço de papel de cigarro - e eu não tenho mais isso, uma pena. Estava escrito: “uma leira, uma esteira, uma beira de rio / um cavalo no pasto, uma égua no cio”. Ele disse pra ela, “leva lá pro Paulo, pra ver se cabe”. Eu cantei a música e deu exatamente certo. Aí esqueci a música, já tava com a letra, já tinha uma ideia formada. Aí comecei a fazer outra. “Parari… parareré paraporó…”. Aqui, assim, rápido. Ele perguntou “não é a mesma canção, né?”. Aí, mais uma vez, ele mandou um pedaço da letra pela mamãe. Eu fiquei com a responsabilidade de fazer as outras partes. São duas músicas de três partes, ‘Pauapixuna’ e ‘Foi Assim’. Depois ele me disse pra trabalhar na segunda parte de ‘Foi Assim’. Ele fez uma letra de bolero. Eu nem tava pensando num bolero. Ele queria que o nome fosse “Bolero Tropical”. Eu disse “nada disso, vai ser Foi Assim mesmo” (risos). Aí já fiz a última parte pensando num bolero. “Ah, é pra ser bolero? Então o pau vai cantar”.


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