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REVISTA

Som e cinema

Alguns casamentos entre cineastas e autores de trilhas sonoras se tornaram grandes clássicos na história do cinema e da música, como é o caso dos líricos Felinni e Nino Rota e também do encontro de Sergio Leone com Enio Morricone, responsável pelas principais sonoridades do western spaghetti, de Leone. Estes últimos, grande inspiração de filmes - e dos sons que compõe seus filmes - de Quentin Tarantino, que no seu último trabalho, um revival do clássico Jango (já filmado por vários diretores), incluiu algumas belas trilhas de Morricone.

O brasileiro Dori Caymmi, produziu um álbum inteiro só com trilhas que fizeram história no cinema mundial. Carioca, com um pé na Bahia e outro nos EUA, Dori reiventou os clássicos à sua maneira, dando um toque refinado e com nuances de brasilidade, como é o caso de “The Pink Panther: Pink Panther” de Henry Mancini. A canção tema da “Pantera Cor de Rosa”, que abre o disco A Romantic Vision do filho mais velho de Dorival Caymmi, lançado em 1998,  virou uma bossa nova implacável, e nos dá a impressão de que a música nasceu para esta versão.

Já o cineasta americano Stanley Kubrik se apropriou, com uma audácia e criatividade espantosa da obra do compositor erudito húngaro György Sándor Ligeti, para sonorizar alguns dos seus filmes, produzindo uma das mais magnânimas conversas entre imagem e som da história do cinema.

Kubrick explorou com maestria e genialidade as possiblidades estéticas e sensoriais da fusão entre imagem e som, como é o caso de “2001: A Space Odyssey”, o big ben dos filmes de ficção científica. A música de Ligeti, que segundo contam, só entrou no filme nas vésperas do lançamento, após Kubrick ter ficado insatisfeito com a trilha anterior, é de um impacto estrondoso e fez um contraponto memorável com Danúbio Azul de Johann Strauss II e o poema sinfônico de Richard Strauss “Also Sprach Zarathustra”. O filme de 1968 economiza muito nos diálogos, e colocando a música como fio condutor da narrativa.

A sutileza pianística criada por Ligeti em outro clássico de Kubrick, marca o som de “Eyes Wide Shut” (“De Olhos Bem Fechados” no Brasil), a cena em que Tom Cruise está sendo seguido, e também perseguido por si mesmo, num estado psicológico de devaneio agudo, é usada pelo cineasta numa atmosfera sonora simples e absurda.

Mais do que um artifício de redundância ou ornamento, a música para esses diretores é uma matéria prima potente no processo e no resultado dos seus filmes. Os melhores filmes, são os que são como músicas. As melhores músicas são as que dão um bom filme.


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