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Serra pelada: a trilha da Amazônia ilegal.

No mês de janeiro foi exibida na TV Globo a minissérie “Serra Pelada – A Saga do Ouro”. Na verdade, trata-se de uma adaptação do filme “Serra Pelada” do cineasta Heitor Dhália (“O Cheiro do Ralo”;  “À Deriva”). O filme tece uma narrativa que acompanha o drama das transformações nos caracteres de dois amigos, que saem de São Paulo, entusiasmados com o estouro da notícia do ouro no Pará dos anos 80.

A história soa bíblica de tão grandiloquente e fantástica. Muito ouro e riqueza num contexto de pura miséria. Em meio aos sonhos dos garimpeiros de diversas localidades do país, que se mudaram pra lá atrás da fortuna, forma-se um ambiente de bandidagem e sagacidade sem lei. Serra Pelada é olho por olho, dente por dente.

Quando fui convidado pra colaborar na trilha sonora original e não original do longa, tratei de resgatar artistas que pudessem se comunicar com aquele contexto e lembrei da Márcia Ferreira. Cantora, compositora e comunicadora de rádio, nascida em Belo Horizonte, mas de vida feita em Brasília, entre as décadas de 70 e 80, Márcia gravou em 1986 sua versão da boliviana “Llorando Se Fue” (Ulisses Hermosa e Gonzalo Hermosa), a conhecida lambada “Chorando se foi”. A música tornou-se famosa em todo o mundo após ter sido gravada, numa corruptela ética, pela banda franco-baiana Kaoma, em 1989. É que os produtores franceses do grupo assinaram a versão da música de forma ilegal, utilizando o pseudônimo de Chico de Oliveira, e lançaram em Paris em junho de 1989. Tempos depois, em 1991, também em Paris, foram obrigados a pagar uma alta indenização aos reais autores da versão, Márcia Ferreira e José Ary. Mas as músicas da Márcia que entraram no filme são outras e tão boas quanto “Chorando se foi”. Ela teve um programa de rádio que alcançava toda a Amazônia Legal, e se tornou muito popular entre os garimpeiros, sendo chamada, na época, de a “Madrinha dos garimpeiros de Serra Pelada”.

Além da Márcia Ferreira, o filme traz na trilha sonora obras do Alípio Martins, Frankito Lopes, Gretchen, Aldo Sena e Vieira. São músicas que combinam com os cabarés e prostíbulos de Marabá e redondezas, onde os novos ricos iam gastar suas fortunas fugazes.
Já as músicas originais foram criadas por Antônio Pinto, com colaborações minhas, inspiradas no western sphaguetti, ora potentes de latinidade e ora com um lirismo fantasioso, pra fazer jus a essa epopeia oitentista.

Um buraco imenso – exposto – da história do Pará e do Brasil, onde ganância, exploração e matança em larga escala compõem o clima de ilegalidade e impunidade daquela época. Aconteceu há três décadas, mas não é muito diferente ainda hoje.


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