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Serena, sereníssima Maitê

Maitê Proença é considerada uma das mulheres mais lindas do país. A atriz, detentora de alguns protagonismos na história das artes brasileiras, vive um momento singular. Em entrevista exclusiva, concedida a nós, Maitê falou sobre o momento atual de vida, afinal tornou-se avó pela primeira vez. No mesmo embalo, discorreu sobre maternidade, carreira, a política brasileira e sobre paz. Em seu momento mais reflexivo, disposta a produzir e fazer parte apenas de projetos que possam gerar conteúdo edificante, nossa personagem principal desta edição iniciou uma interessante viagem, cujo destino é sua melhor versão: depurada e ainda mais bonita, se é que é possível.
 

Aos 62 anos, você é considerada uma das mulheres mais lindas do país. Qual o segredo da sua beleza e bem-estar?

Além dos cuidados com o corpo, faço uma autocrítica permanente. Acho que a gente veio pra esse mundo de um jeito, pra passar pela experiência da vida, e sair dela, de outro jeito, melhor. Essa busca depura, traz compreensão e embeleza por dentro e por fora.

Você tornou-se avó pela primeira vez – como foi receber essa notícia? Existe um dito popular que afirma que “pais educam e avós estragam” – que tipo de avó você acha que será?

Exatamente esse tipo, que deixa tudo correr mais solto. Mas acho também que dá pra ensinar sem que eles percebam que estão aprendendo. Vou tentar.

O que te fez ser mãe, Maitê? Pergunto isso porque todos somos, de alguma forma, reflexos dos nossos pais. Você sempre quis ser mãe? O que tentou passar de melhor para sua filha? O que você conseguiu corrigir, a partir de sua própria experiência? 

Eu procurei ser a melhor mãe possível. Era muito importante pra mim acertar. Nunca menti pra minha filha, por exemplo. Nem pequenas mentirinhas pra facilitar a vida, como se a vacina ia doer. Explicava tudo sem dramatizar. Levei-a comigo pra todas as turnês de teatro, para todas as viagens a todos os lugares e ia mostrando as diferentes culturas.  Fizemos aventuras que outras mães não ousariam, pra que não ficasse medrosa e estivesse preparada quando chegasse a hora. Priorizei e amei até o coração explodir. Ainda assim, devo dizer, que errei um bocado. Os filhos não vêm com cartilha. A gente tem que fazer o melhor, e se perdoar onde não conseguiu acertar.

Você teve algum tipo de epifania, enquanto rodava o mundo? Digo, espiritualmente falando.

Tenho epifanias diárias, sou uma buscadora.  Descubro, desvelo, e sigo adiante acrescentada daquele entendimento. Olho primeiro pra mim antes de colocar a culpa no mundo; é uma forma de caminhar com menos peso. A gente vai se livrando dos vícios, dos condicionamentos, de todo acúmulo desnecessário.

Fala-se muito, nos tempos atuais, de assédio, machismo – você passou por alguma experiência negativa como assédio, importunação sexual ou preconceito?

Sim, como todas as mulheres. E lidei com eles.  Quem está mais equipada pode e deve auxiliar as que se sentem mais vulneráveis e sem coragem.

Pegando carona nessa pergunta, também se debate muito o papel da mulher na sociedade atual – como enxergas os movimentos de luta feminina?

É um renascimento essa onda de agora.  Necessário, porque a humanidade sempre foi injusta com as mulheres. Se há uma escravidão que persiste é a da mulher. Mas há excessos e injustiças também, gente se utilizando do movimento pra picuinha com namorado.  Feminismo é assunto sério demais pra virar instrumento de vingança. 

No papel de Dona Beija você foi protagonista de ineditismos para a época – quão desafiador foi o papel, no sentido da exposição do nu? Lembro que, à época, as pessoas ficaram um tanto escandalizadas, mas a audiência do folhetim foi um absurdo. 

Houve muito poucas cenas de nu e estavam inseridas na história de forma não forçada. As pessoas não se escandalizaram, achavam bonito.  Não foi feito de forma abusiva e apelativa. Era inédito e poderia dar errado. Mas deu certo porque tudo em torno daquela história foi bem contado. Alcançamos 42 pontos no Ibope, numa época em que o espectador tinha que levantar da poltrona pra trocar de canal. Vencemos o hábito. Nunca havia acontecido aquilo  antes, foi um fenômeno alcançado pela qualidade do produto. 

Além da TV e do Teatro, você se revelou uma escritora sensível, articulada. O que te inspira na escrita? Quais são os teus livros de cabeceira/autores favoritos?

Acabo de ler ”A filha perdida”, de Elena Ferrante.  É um livro estranho, mas de uma coragem impressionante. Uma mãe que admite sentimentos que nunca vi serem sequer verbalizados ou narrados por escrito. Maravilhoso, recomendo.

Há algum tempo você não faz TV aberta - tem planos para retornar? Ampliando a pergunta, quais são seus planos - para além de ser uma das avós mais bonitas do Brasil?

Tenho três projetos de TV diferentes em circulação pelas tvs a cabo. Uma hora sai algum. Penso também em levar para o Teatro as três peças que escrevi, para serem mostradas em repertório, juntas, numa turnê pelo Brasil. Falta dinheiro, como nos projetos de TV. No Instagram tenho as “Mulheres de fibra“, em que conto a história resumida de grandes mulheres inspiradoras. Também soltei #mulherdefibra em Podcast. Já falei de 145 mulheres em videozinhos de 2 a 3 minutos. Isso dá muito trabalho, porque faço todas as etapas praticamente sozinha. Pode também virar algo pra tv se alguém se interessar.  Tudo isso é trabalho - e bastante - só não dá dinheiro. Mas daqui pra frente quero trabalhar apenas com conteúdo edificante. Fazer por fazer não me interessa.

Você tem um podcast, blog e está trabalhando num documentário com o Bob Wolfenson sobre sua segunda Playboy - podes me contar um pouco mais sobre a tônica do documentário? E quais foram tuas motivações para esses novos produtos digitais? Aliás, como é sua relação com a tecnologia, redes sociais?

Fizemos um ensaio emblemático, diferente de tudo. Podia ter sido publicado em revistas de arte. O revolucionário foi justamente mostrá-lo na Playboy. Aquilo mobilizou toda gente que participou das fotos que eram quase fotojornalismo. Nada era armado. As pessoas, que estão nas fotos comigo, estavam realmente por ali, vivendo suas vidas, com aquelas roupas. Nós queremos revisitá-las ou aos seus netos e parentes. Além de tudo que contei acima, abri um Canal no YouTube, em que dou dicas e ensino como ter uma vida mais saudável, menos tóxica pra si próprio e para o meio ambiente, mais barata, fazendo menos lixo. Tudo fácil e possível, pra facilitar e não complicar mais ainda. Mostro tudo o que pratico no meu dia a dia e que me deixa forte e tranquila com minha forma de estar nesse mundo entulhado de gente e de lixo. 

Por fim, ao olhar em retrospecto para sua carreira, você avalia que houve mais acertos do que erros? Se pudesse voltar no tempo e corrigir algo, o que seria?

Fiz o melhor que pude. Se soubesse o que sei hoje teria feito diferente, mas esse é um pensamento que não leva a lugar algum. De qualquer forma, há muito pela frente pra fazer com o que aprendi errando. Salve os erros! São eles que nos tornam melhores.


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