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REVISTA

Sensibilizar, principalmente.

 

 

Simões celebra quatro décadas de artes plásticas recriando, em sua exposição mais recente, memórias afetivas humanas ausentes de pessoas e afirmando ser militante da verdade que só a arte pode conter.

 

 

 

 

Ele é um dos poucos artistas plásticos que não deixou o Pará, por mais do que alguns meses, por conta do trabalho, mas afirma que não levanta uma bandeira amazônida. Ao mesmo tempo, José Augusto Toscano Simões, ou só Simões, admite a influência inerente das origens em variados traços de suas criações – pinturas e desenhos de cores fortes e que (se) chocam, remetentes ao calor, ao acolhimento proveniente dessa terra. E um crédulo fervoroso da arte, em suas mais variadas manifestações, onipresente, indissociável da vida humana. Tão crente que se dedicou a fazê-la de uma forma até inusitada por nove anos, quando deu a Belém um dos pontos mais saudosos da boemia contemporânea: o Café Imaginário, lugar de muita conversa e música tão boa quanto as inigualáveis criações gastronômicas – quem esquece a pizza de jambu? 

Comemorando 40 anos de carreira, ele realiza sua primeira mostra individual em uma galeria particular, a Elf Galeria, Beleza Interior, entre os meses de dezembro e janeiro. Um trabalho de foro tão íntimo, de obras inéditas, capaz de despertar tantos sentimentos ao (re)criar ambientes e espaços vazios de gente, todos advindos de sua própria memória afetiva, porém sem fidelidade exata com a realidade. Como se fosse uma grande colcha de retalhos: algo absolutamente novo criado a partir de fragmentos de alguma coisa que já existiu.

 

 

 

 

 

 

 

 

“O nome advém do que está nos quadros: o interior de um cinema, que remete ao Olympia; o interior de uma casa, que traz consigo uma tônica ribeirinha; de uma sala de jantar onde em cima da mesa estão óculos de lentes grossas, que me remetem ao par que um tio meu usava”, lista. “Deixei de lado a figura humana, diferente da minha última individual, de 2014, no Museu Histórico do Estado do Pará (Mhep), mas não o humano, já que eu foco em uma narrativa poética, só usando objetos dos homens, os ambientes em que se vive e frequenta”, analisa o artista.

Simões explica que, mais do que um momento de inspiração que lhe rendeu um ano de trabalho, essa exposição nasce de uma necessidade. “Queria criar uma poética pessoal minha, da memória, do afeto, da lembrança. É algo bem pessoal e intimista, mas provoca reações diversas em outras pessoas, sem bandeira, sem intenção para definir ou defender”, convida o artista.

Para ele, o grande barato da arte é promover a sensibilização, estabelecer a relação entre poética e poesia. “Não que eu não considere o que é aguerrido e provoca tensões, mas para mim, é uma questão de alargar a sensibilidade das pessoas para enxergar o mundo”, justifica.

 

 

 

 

 

 

Premiado várias vezes em festivais locais, como o Arte Pará, Simões lembra que até passou alguns meses fora de Belém, ainda na década de 80, se afastou dos rabiscos e pincéis por quase uma década por causa do Imaginário, mas que nunca se afastou da arte de fato, algo que ele considera impossível. “Nem que eu não fosse artista. Se a arte é a representação de algo, ela está em tudo. No filme, na música, na novela até. Um processo de entrega a algum tipo de fantasia”, reconhece.

Simões comemora a possibilidade de mostrar algo tão pessoal em um espaço igualmente tão cheio de história e memórias, como a Elf. “A galeria completou 36 anos de funcionamento no dia seguinte à abertura da minha mostra. Acho que isso é muito no Brasil, que dirá em Belém. E é um lugar que sempre funcionou com essa função artística”, credita.

Ao mesmo tempo em que reconhece as dificuldades da (sobre)vivência pela arte, não só no Brasil, mas em qualquer lugar do mundo, admite que a condição de ser nortista, ao mesmo tempo em que impõe um fim da fila para quem quer tentar mostrar o trabalho em outras regiões, cria uma condição que nenhum outro canto do país proporciona.  

“Me considero um faroleiro, as coisas vão se apresentando e vou respondendo ao que aparece. A gente não mora em uma região qualquer, moramos na Amazônia, e isso por si só já é algo, proporciona uma singularidade”, avalia. “Viver aqui ou ter ficado aqui não é um ostracismo. Não levanto bandeira, mas essa origem está presente de alguma forma em tudo o que faço”, sugere.

Com muito bom humor, brinca sobre já ter ouvido comentários ou críticas de que os resultados de sua inspiração lhe desenham como um pequeno burguês, acomodado, sem uma causa para defender. Aos incrédulos, um recado: se houver arte, nada mais importa. “O que legitima a arte não é uma causa. E sim a verdade e a intensidade contida nela”, dispara Simões.

 

 

 

 

 

 

O artista lamenta o grande poço sem fundo do engodo da modernidade no qual vê atoladas as artes plásticas. “Você não vê ninguém dizer que não entendeu uma música, mas vê isso com as artes plásticas. As pessoas não são burras; o problema é que virou algo que fica na vanguarda da confusão das coisas”, sintetiza. Ele também se preocupa com a intromissão do padrão conservador em meio a esse tipo de manifestação. “Confiava que caminhávamos para uma sociedade inclusiva, hoje não sei muito bem pra onde vamos. Mas desejo um futuro de mais abertura e igualdade. Com muita arte”, finaliza.


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