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REVISTA

Saudades em tempos de facebook

Antes eu me perguntava o porquê de sentir tanta saudade. Saudade de tomar banho de mangueira no quintal, pois agora moro em apartamento. Saudade do cheiro do chá de camomila e do colo de minha avó. Saudade de quando meu avô saía de casa e trazia balas de café e de quando ele falava italiano comigo, mesmo sem eu entender nada.

Mas um dia desses, descobri que eu nasci no dia da Saudade - 30 de janeiro. E numa dessas obras do acaso, meu pai me registrou com o nome de Saulo. O que faz com que mais da metade do meu nome seja dominado pela saudade. Sau(lo)dade.

E hoje a saudade, que sempre foi três de minhas cinco letras, tomou conta de todo o meu alfabeto. E desde que tu te foste de mim, eu fiquei sem nada. Afinal saudade é coisa que ninguém tem. Saudade é não ter. Posto que não se relaciona com o amor que ainda tenho, mas com o sentimento que tu tinhas por mim... Mas não tens mais.

Saudade era o lugar onde habitavam teus gestos, teu toque, teu carinho. Saudade é um ambiente dentro de mim onde a luz apagou e tudo se petrificou; um cavo escuro que não ouso tocar, mesmo estando tão perto.

Saudade é voltar pra casa e encarar todos os objetos, e móveis, e quadros, e descobrir que tudo agora tem dois lados. O que os objetos realmente são... E o que eles eram quando tu existias no meu mundo. Saudade é sonhar que tu retornes ao nosso lar e dê sentido à margem direita da minha cama, e traga a vida de volta aos porta-retratos, e aos livros da estante, e aos peixes do aquário.

Saudade é ver os comerciais de filmes na TV e lembrar que vimos estes filmes juntos. E saudade é nunca mais assistir certo filme do Woody Allen porque foi a última vez em que fomos ao cinema.

Saudade é manter o teu telefone na minha agenda mesmo sabendo que teu número mudou... E ainda assim discar, sabendo que ninguém vai atender. Saudade é desconhecer teu novo número e fazer milhões de combinações absurdas começando com oito. E saudade... É sentir falta de ti, mesmo sabendo que teu número começa com oito só para ser mais barato falar com teu novo amor.

Saudade é saber que tu nunca mais vais me mandar um SMS dizendo “boa semana”. Ou “boa prova”. Ou “não importa o que aconteça, eu estarei do teu lado.” Saudade é retornar a ligação para todos os números estranhos que me ligam num desesperado sonho de que possa ser tu.

Saudade é esperar por um contato teu no dia do meu aniversário. E passar o dia todo agoniado... Pedindo a Deus para que me mandes um simples Tweet dizendo “feliz aniversário @saulosisnando.” E saudade é chorar às 2h00 da manhã do outro dia, quando descubro que tu me mandaste esse tweet.

Saudade é escrever este texto e o meu playlist colocar aleatoriamente aquela música que tanto significava para nós... Saudade é me pegar fazendo coisas, que antes odiava, mas agora faço com prazer e te imaginar dando risada e dizendo: “não te disse que assim era melhor?”

Saudade é te bloquear no facebook. E dias depois criar um fake só para ver a fotinho do teu profile. E lembrar como teus olhos pretos são lindos. Saudade é entrar no Orkut para ler os teus antigos depoimentos apaixonados, que ainda estão lá, e que eu tenho tanto medo que tu, um dia, apagues.

Saudade é beijar outros lábios... Para esquecer os teus. E mentir para todos dizendo que já te esqueci. Saudade é ter uma caixinha cheia de lembranças que trouxe de Londres e não ter coragem de entregar. Saudade é sair de casa, torcendo para que alguma coincidência faça teu carro parar ao lado do meu... E eu possa te cumprimentar de longe e teus lábios inaudíveis desenhem um “eu te amo” no vento.

Saudade é o choro que surge enquanto eu digito estas palavras e a desesperada esperança de que as letras sejam fortes a ponto de te trazerem de volta. Porque ainda te amo.

E saudade é a vontade de que o leitor arranque a página desta revista e entregue para aquele amor de quem ainda sente saudade, pois no meu sonho de escritor, já que eu não posso trazer meu grande amor de volta, que estas palavras – agora tuas – te devolvam aquele que tu nunca esqueceste.

Que o teu volte para ti. E o meu volte para mim. E que o buraco no meu peito se feche. E a saudade seja algo que habite apenas os meus textos passados.
Que tu sejas meu futuro.
 


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