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REVISTA

Saudades de Bangu

A temperatura atmosférica é registrada no Rio de Janeiro desde 1915. Em quase cem anos de medição, a máxima histórica ocorreu no comecinho deste verão 2012/2013, em 26 de dezembro, no bairro de Santa Cruz: 43,2º C, com sensação térmica de 47º C. O recorde anterior era de 14 de janeiro de 1984, em Bangu: 43,1º C (acho que ainda não se falava em sensação térmica naquela época). Essas duas informações querem dizer duas coisas: a temperatura média tem aumentado; e isso só pode ser pessoal, pois eu já era nascido para senti-la. Na verdade, não me lembro do pico anterior, mas no recente não gosto nem de pensar. Agora sei como uma pizza se sente no forno à lenha.

Carioca tem fama de friorento. Os paulistanos que viram a luz do lado de cá da Via Dutra costumam ironizar que, mal a temperatura se aproxima dos 20º C, os cariocas tiram seus casacos mais pesados do armário e desfilam por Ipanema ou Leblon. É verdade. Mas não no meu caso. Embora eu seja o chamado carioca da gema, isto é, carioca filho de cariocas, vim com defeito de fábrica. Sou é calorento. Se a temperatura passa dos 20º C, passa para cima deles, já começo a me sentir desconfortável e banhado em suor quente. Não tenho, portanto, muitas chances de sentir frio no Rio de Janeiro, embora no inverno passado tenha visto o termômetro de rua marcar 13º C perto de casa.

Moro em Laranjeiras, bem distante da Zona Oeste de Santa Cruz e de Bangu, mas ainda que a máxima fosse medida na pontinha da Restinga da Marambaia, o ponto mais ocidental do município, eu já começaria a me abanar. Há algo de psicológico em saber que a máxima na sua cidade – e, no caso do Rio, a área dessa cidade pode variar enormemente em característica físicas e se estender por 1.200 quilômetros quadrados – bateu os 40º C com jeitão de 50º C. Algo que nem um ar-condicionado ultrapotente é capaz de resolver. Algo que não está no corpo, mas no espírito. Costuma-se dizer que o verão é a estação do Rio. Sei lá. Mas lhes garanto que ele é mais bonito no outono.

Os últimos verões têm sido bem diferentes dos verões que estão registrados na minha memória, em Copacabana. A cada final de tarde caía uma pancada de chuva que tornava a noite mais amena. Parece que ainda hoje é assim em Belém e Manaus, não? Lembro-me de adiar tarefas na rua para, fechadas as torneiras, ir sentindo o cheirinho da chuva, a caminho da papelaria ou do cinema (eu era estudante, então, e a vida era doce e cheia de esperanças). Como dizia, os últimos verões não têm charme algum. Tom e Vinicius sequer teriam visto a garota de Ipanema passar. Estariam entrincheirados atrás do ar-condicionado. E, ainda que não estivessem, não teriam forças para trabalhar.

Houve uma vez um verão, ali de 2006 para 2007, que passei parcialmente em Bangu. Eu e Marcelo Madureira tínhamos um programa chamado “Sem controle” no canal por assinatura GNT. Nele, basicamente comentávamos a programação, doesse a quem doesse (nem todo mundo levou na boa). Ao final do ano, porém, o canal entrava de férias, e cada programa era estimulado a fazer um “especial de verão”. Nossas colegas escolheram lugares charmosos como o Guarujá ou Porto de Galinhas. Nós chamamos o documentarista Guilherme Coelho e fomos com a equipe para Bangu, tradicionalmente considerado o bairro mais quente da cidade mais quente do Brasil.

Bangu é o seguinte. Fica entre a Avenida Brasil e o Maciço da Pedra Branca, que o protege da mais leve brisa marinha. No centro do bairro, há um calçadão com chuveirinho para os pedestres não desmaiarem. Ele estava quebrado nos fins de semana que passamos por lá, acompanhando como os moradores faziam para viver sob aquela bolha térmica. Fomos a uma loja de venda de piscinas de plástico, Marcelo paquerou na piscina do Casino (assim mesmo, com um S só) Bangu, eu fiz aula de tai-chi-chuan no mesmo clube, vimos o Bangu Atlético Clube jogar com o Macaé no estádio de Moça Bonita, fomos a uma roda de samba, comemos galeto na calçada, jogamos conversa fora no barbeiro. O resultado foi ao ar no especial “Houve uma vez um verão... em Bangu”.

Desde então, essas memórias me serviam como parâmetro para qualquer calor que sentisse. Eu começava a suar e, tentando me sugestionar, pensava “ah, perto de Bangu isso é a Sibéria”. Costumava dar certo. Não mais. As sensações térmicas de 50º C nas últimas semanas estabeleceram novos parâmetros para o inferno.

Saudades do fresquinho de Bangu de anos atrás.


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