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REVISTA

Rota do Sol

 
Em tempos de alta do dólar, muitos brasileiros têm redescoberto a América Latina. Um dos roteiros mais procurados é Punta Del Este, a 150 km de Montevidéu. O charmoso balneário oferece diversão para alta e baixa temporadas e é considerado um dos mais bonitos e luxuosos do mundo! Lá a poesia, segundo seus visitantes e fãs, corre solta pelo ar.
 
"Hola Sol…! Gracias por volver a animar mi vida de artista. Porque hiciste menos sola mi soledad. Es que me he acostumbrado a tu compañía y si no te tengo, te busco por donde quiera que estes”. Os versos do imortal Carlos Páez Vilaró evocam lembranças de um destino inesquecível, como sua poesia, natureza e ousada efervescência indissociável da vida intensa do balneário, que sem hesitar podemos classificar de verdadeira rota do sol: Punta Del Este! 
Ao entardecer de todos os dias do ano, de dentro da “escultura habitável”, como ele mesmo definiu sua Casapueblo, onde morou até sua morte, no dia 24 de fevereiro de 2014, o artista uruguaio, pintor, escultor e, por amor, também poeta, revive e conduz nosso olhar à celebração de um espetáculo da natureza que nos felicita e se despede para renovar a vida dos homens e do planeta. E não é difícil sentir e descrever as sensações que Vilaró também sentia ao entrar em contato com quem chamava de amigo mais antigo: o Sol. Ele surge como mestre de cerimônias, num dos pontos, sem modéstia, mais lindos do mundo, em que o astro-rei dos homens (e dos deuses) pode ser apreciado, do alto de uma montanha rochosa, onde o artista esculpiu sua casa e obra mais famosa, anos a fio, com as próprias mãos. 
 
Basta o sol começar a se pôr para que os labirintos da Casapueblo, com seu museu, ateliê, hotel e restaurante sejam inundados pelo silêncio do público à espera do mar de versos [do começo desta matéria] declamados na voz grave e sensível do próprio autor em uma gravação harmonizada pelo sentimental violão espanhol de Joaquín Rodrigo, na música Concierto de Aranjuez. A gravação do poema “Cerimônia do Sol” é um ritual que dura exatamente o tempo em que o astro-rei mergulha no horizonte do mar que banha o impressionante labirinto branco, na península de Punta Ballena, a 15 quilômetros do centro de Punta del Este. Uma obra de arte da vida que arranca lágrimas, beijos apaixonados de enamorados, recém-casados e aplausos intensos de mais de 60 mil visitantes por ano do mundo inteiro. 
 
 
Em Casapueblo todos se despedem do sol com a certeza de que o ponto turístico mais charmoso e poético do Uruguai [muito semelhante às construções da arquitetura mediterrânea] é um convite ao retorno para desbravar o lugar que vai muito além do luxo e sofisticação de um dos dez balneários mais badalados do mundo. Por isso não se acanhe: existe uma Punta del Este para todos os bolsos e estilos, do milionário ao aventureiro, principalmente o brasileiro que vai viver a impressionante experiência de um mundo seguro, festivo e cheio de pura emoção.
 
Para ir a Punta del Este primeiro é importantíssimo definir o que você espera do lugar. Se quiser badalação dia e noite, com temperaturas mais escaldantes e sem se incomodar com preços, janeiro é o mês ideal e mais intenso, mas a alta temporada se prolonga do Natal ao Carnaval. Agora, se a sua praia pedir apenas a conexão com a natureza extasiante cercada por montanhas, prédios sofisticados e proximidade total com um povo hospitaleiro, a baixa temporada vai te oferecer preços pela metade em hotéis, restaurantes, passeios turísticos e ainda, uma Punta del Este, que parece ser só sua. 
 
 
E tem mais, para quem não quer abrir mão dos dias quentes [já que o sol é cicerone de um balneário procurado justamente pelo seu veraneio], vale a pena apostar em meses alternativos como novembro, quando o local já se prepara para receber os turistas ou fevereiro, no finalzinho da alta temporada. Mas atenção, esteja preparado para bater em muitas portas fechadas. Alguns hotéis e restaurantes costumam abrir apenas quando Punta está fervendo de gente. Assim aconteceu quando procurei o Churros Manolo! Fechado! Decepção estampada para quem queria se deliciar com o que dizem ser uma das maiores tentações de Punta. Fica na Calle 29, quase esquina com a Gorlero, principal avenida do centrinho da cidade. 
 
Aliás, os leitores merecem um esclarecimento. Cheguei a Punta em novembro, não por escolha, mas por uma questão de oportunidade de viajar apenas neste período e não me arrependo. Conheci exatamente o balneário que ninguém me falou e como disse logo acima parecia ser todo meu. Às vezes caminhava por quinze minutos onde eu era a única pedestre da rua e não raro parava alguém, para oferecer informação. Até os policiais se prontificam a guias turísticos e de uma forma bem humorada tentam justificar o motivo: Punta tem “pouco trabalho”, pode ser considerado o lugar mais tranquilo do mundo em qualquer época do ano porque a violência é praticamente zero.
 
 
Sem congestionamentos, filas e disputas por espaços, em praias procuradas foi fácil encontrar um ótimo lugar ao sol. E por falar em praias, as mais conhecidas são a Brava e a Mansa. Na Ibiza Latino Americana, um dos muitos apelidos do balneário devido a sua badalação e Jet set (milionários que chegam em seus jatinhos), tem para todos os gostos. Como sugere o próprio nome, a praia Mansa é banhada pelas águas tranquilas do Rio da Prata e por isso atrai muitas famílias com crianças. Já na Brava, batem as fortes ondas das águas do oceano Atlântico, ideal para a prática do surf e outros esportes aquáticos. Também é ali que fica um dos cartões-postais mais fotografados de Punta del Este, a mão parcialmente enterrada na  areia, batizada de Monumento ao Afogado, feita pelo artista chileno Mario Irarrázabal durante o verão de 1982. O espaço é tão concorrido que nem mesmo na baixa temporada consegui garantir um clique exclusivo, leia-se sem turistas pendurados pelos dedos da escultura. O ideal é chegar bem cedo, se você tiver coragem em dias de férias e pernas pro ar! 
 
Confesso que perdi a hora, mas me apressei em reatar a amizade com o relógio para no dia seguinte desfrutar de um dos passeios mais fascinantes de Punta, até a Isla de Lobos, onde está a maior colônia de leões-marinhos da América do Sul. O preço é salgado, 100 dólares, mas vale a pena para nadar junto com dezenas deles. Ficam cara a cara com os “intrusos”, são curiosos e imensos. Dá um frio na barriga e se formos simpáticos eles até ousam posar para as fotos. O passeio dura em média quase três horas, a lancha sai da marina no porto, que podemos ter acesso pela Gorlero e no retorno, já na hora do almoço não hesite ali mesmo em escolher um dos charmosos restaurantes da melhor região gastronômica do local, com atenção especial para a típica carne bovina uruguaia, a parrillada. 
 
Voltando a falar das praias, a Brava e a Mansa, ficam muito próximas do centro comercial de Punta del Este, por onde o deslocamento que une praia e compras é perfeitamente possível ser feito a pé.  A avenida Gorlero reúne bares, restaurantes, lanchonetes, cinemas e lojas para onde se dirigem os endinheirados em busca das tendências do mundo fashion de grifes como Louis Vuitton, Versace e Valentino. Mas não se desespere, também tem lojas bem bacanas e acessíveis aos bolsos moderninhos, sofisticados, porém mais modestos, como a Indiana, espalhada por todo o Uruguai. Seguindo adiante na Gorlero, para quem gosta de artesanato, tem uma feirinha com diversos produtos de artistas locais. 
 
A diferença entre as praias de águas doces e salgadas explica bem a geografia do balneário que o próprio nome já evidencia. Punta fica exatamente na ponta da península uruguaia, uma estreita faixa de terra banhada de um lado pelo Atlântico e do outro pelo histórico Rio da Prata, a 132 quilômetros e apenas uma hora e meia da capital Montevidéu. O ponto extremo do encontro entre rio e mar pode ser observado em parada obrigatória dos city tours oferecidos em hotéis e hostels da cidade e vale muito a pena o registro. No local tem uma âncora que sinaliza em cada extremidade a direção das águas mais importantes do país. Por ser baixa temporada, paguei pelo city tour de duas horas a bagatela de 50 reais com garantia de uma breve incursão turística, política, social e cultural no estilo de vida e nacionalismo uruguaios. 
 
O passeio é uma ótima opção para se ter uma dimensão rápida da cidade e suas opções, mas é importante lembrar que para voltar aos locais mais afastados e para garantir um deslocamento que abarque todas as opções da Ilha o melhor mesmo é alugar um carro. Táxi costuma ser caro e ônibus não leva em todos os locais. A van recolhe cada passageiro na porta do seu hotel. Nosso guia e motorista era um senhor de gestos e vestimentas simples, dotado de forte conhecimento histórico. À medida que nos levava em direção a cada bairro, monumento e praias de Punta, explicava acerca dos seus artistas, políticos, com orgulho de reforçar a ideia de país onde, segundo ele, o analfabetismo é zero; todas as crianças têm vagas garantidas nas escolas e delas saem direto para a universidade sem a necessidade de processos seletivos de exclusão. O guia ia além, para fazer referência à própria história a comparava aos diferentes momentos sociopolíticos do Brasil e outros países latino-americanos, em uma tentativa de impressionar os passageiros hermanos. E conseguiu! Também não continha o entusiasmo em nos informar quão segura é Punta del Este e por esta razão se explica a procura dos milionários do mundo inteiro pelo local não apenas como turistas, mas também investidores de patrimônios particulares suntuosos. 
 
No bairro de Beverly Hills [isto mesmo, homônimo do não menos cinematográfico hollywoodiano], mansões guardavam em suas garagens frotas de carros importados perfeitamente visíveis através de seus muros baixos e arbustos que garantem ao condomínio aberto, sem muralhas, sem segurança armada e sem vigilantes – um ar bucólico e seguro, porque ostentar em Punta não tem perigo. Por ali qualquer um pode circular e tirar fotos dos casarões dos endinheirados empresários, políticos, jogadores de futebol, artistas, entre eles vários brasileiros e não se espante se algum aparecer pertinho de você como qualquer mortal que se sente muito à vontade entre a multidão. 
 
O passeio que terminou em Casapueblo também incluiu uma visita no lado do balneário que reúne o maior point de baladas de Punta, destino certo de surfistas e jovens solteiros, La Barra. O acesso é pela famosa ponte ondulada, obra de 1965 do designer Leonel Vieira. Nosso guia pisou no acelerador para uma pequena demonstração desta obra inusitada que garante adrenalina semelhante à de um tobogã ou pequena montanha- -russa. E é do lado de lá que na alta temporada em La Barra, surf, paqueras e baladas sem fim nas areias de Bikini e Montoya, ou nos night clubs a moçada amanhece o dia. Como a época não havia chegado para apreciarmos qualquer movimentação mais eletrizante, nosso passeio por estes lados se resumiu a uma breve parada em lojinhas de suvenir e restaurantes charmosos do local.
 
Mesmo assim nada impede uma diversão noturna em Punta del Este em tempos de sol e calmaria. Se não se informar, pode também ter sorte de encontrar por acaso um pub, aberto às duas horas da madrugada como o de Inácio, argentino radicado no Uruguai, cuja hospitalidade também carrega fortes heranças verde-amarelas das suas quase duas décadas na “cidade maravilhosa”. E viva o Rio de Janeiro que tomou conta do coração saudoso de Inácio! Entusiasmado em relembrar os velhos tempos de praia e samba cariocas, fez as honras da casa com típicas bebidas uruguaias, como a cerveja Patrícia e nos brindou com uma seleção musical impecável, graças a Deus, bem alheia aos modismos do momento. Afinal, Adoniran Barbosa, Bezerra da Silva e marchinhas da era do rádio não são para qualquer um em terras onde o bate-estaca e samples das músicas eletrônicas fazem a cabeça dos turistas animados.
 
Sofisticado, outro point noturno que resume bem o glamour de Punta del Este em qualquer época do ano é o célebre Conrad Resort&Cassino. Situado na praia Mansa, o local ajudou a difundir a fama de Punta aqui no Brasil, principalmente nos programas de entrevistas a celebridades de Amaury Júnior. Quem não lembra? O luxuoso hotel cinco estrelas reúne spa, restaurantes, boutiques, boate e sua área de jogos, onde o acesso é livre e gratuito. No bar que integra o espaço é possível se deliciar com comidinhas e os mais variados drinques como o suave clericot, à base de vinho branco, espumante, frutas cítricas e coloridas. A música e garçonetes com estilo impactante de top models fazem jus à marca impecável de uma beleza que a “pérola do Uruguai” esbanja, mesmo quando não há pretensão... Mesmo quando Punta del Este se despede do visitante de maneira simples, mas inversamente proporcional à intensa vontade de voltar e descobrir o que o sol nos reservará nas próximas temporadas, sejam elas solitárias ou badaladas. Adiós Sol…! Mañana te espero otra vez. Casapueblo es tu casa, por eso todos la llaman la casa del sol. El sol de mi vida de artista. El sol de mi soledad”. (Calos Vilaró)

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