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Romântica Verona

Por Camila Barbalho

Fotos: Divulgação

 

“Two households, both alike in dignity/ In fair Verona, where we lay our scene (…)”. Assim começa uma das peças de amor mais poderosas da literatura mundial - talvez a maior de todas, a julgar pelo número de debates, mistérios, referências, suspiros e declarações apaixonadas que nasceram do contato com o trágico destino de dois jovens apaixonados e proibidos de viver esse enlace. A cidade italiana que hospeda a narrativa de Romeu e Julieta é descrita por William Shakespeare com um único e minúsculo adjetivo: fair. A despeito de seu tamanho, a palavrinha possui um sem-número de traduções - de justa a bela, de luminosa a respeitável. Também assim é Verona. Em pouco mais de 200km², ao longo dos quais se distribuem cerca de 260 mil habitantes, a pérola da região do Veneto proporciona uma infinitude de significados - românticos, poéticos e, sobretudo, históricos. Ironicamente, é comum que as palavras fujam quando a retina registra seus cenários.

Não se sabe se os olhos de Shakespeare chegaram de fato a ver o sol se pôr no leito do rio Adige, que banha toda a cidadela. São muitas, aliás, as incertezas quando o assunto é o dramaturgo inglês. Sua relação com a Itália é uma delas: cerca de um terço de toda sua obra se passa na Terra da Bota, mas não há um só registro confirmatório de que o autor mais lido (com a impressionante marca de quase três bilhões de livros vendidos ao todo, perdendo apenas para a Bíblia) e encenado do mundo realmente esteve no país. Um buraco de seis anos em sua biografia – de 1586 a 1592 – favorece as mais variadas conjecturas: há historiadores que defendem passagens do poeta por terras italianas sob o uso de codinomes largados aqui e ali em livros de peregrinos; há quem diga que ele não era inglês coisa alguma, e sim um siciliano da cidade de Messina – e que Giulietta, na verdade, teria sido a grande paixão irrealizada de sua vida que inspirou sua mais célebre personagem; há teóricos que sustentam, sem titubear, que Shakespeare nunca pôs os pés na Itália e que suas famosas tramas são apenas lendas e “causos” conhecidos, apenas “melhorados” pelo escritor; e há ainda uma provocativa sugestão de que William Shakespeare não seria o verdadeiro autor do corpo de obras atribuído a ele.

 Discussões biográficas à parte, é certo que Verona seria injustiçada não fosse a publicidade literária. Prima menos imponente da grandiosa Veneza e da cosmopolita Milão, seu convite imediato ao turismo é o apelo afetivo – embora tenha sido sua relevância arquitetônica e histórica o que a fez ser proclamada Patrimônio da Humanidade pela UNESCO. Conhecida como “cidade dos namorados” graças ao amor proibido dos jovens destinados à inimizade, ela é palco de pedidos de casamento, luas-de-mel, filmes românticos contemporâneos e apaixonados em geral – seja por pessoas, seja pela ideia de se apaixonar. Depois que se chega lá, porém, enamora-se não mais pelos contos, mas pela atmosfera. O encanto veronês impressiona sem ser opulento. Seu impacto visual está precisamente no contraste das vielas – que enfileiram charmosos sobrados de paredes coladas, como se também tivessem vontade de se abraçar – com súbitos espaços amplos e construções seculares. Diferentes períodos da história europeia convivem bem mesmo com a modernização do lado contemporâneo da cidade, que circunda a estação principal de trem – onde a viagem de fato, começa.

Não são muitos minutos – por volta de quinze ou vinte – andando da estação Porta Nuova até o centro histórico. Essa é, inclusive, uma parte importante da experiência na cidade: Verona é para se conhecer a pé. Demanda alguma disposição para fazer o circuito completo, então é bom levar um calçado confortável e sempre portar uma garrafa d’água. Apesar de tudo ser bem perto, há muita coisa para ver – logo, reservar dois dias para apreciar tudo sem pressa pode ser recompensador. Também é preciso contar com um fato pouco comentado, mas importante: as ruas são bem parecidas, e se perder é parte da graça. Ter à mão um aplicativo de mapas é conveniente para quem vai fazer um bate-e-volta de trem a partir de Veneza ou Bolonha e precisa chegar logo às atrações, mas é bem mais charmoso desvendar um olhar novo a cada dobrar de rua estreita com tranquilidade – e, de preferência, de mãos dadas.

 O primeiro sinal de chegada ao coração veronês é o Castelvecchio. Construído em meados do século XIV, o castelo foi o lar da controversa famiglia Della Scala, que governou o lugar por mais de cem anos; e também hospedou uma série de momentos bélicos e políticos do país – como o famoso “processo de Verona”, em que Mussolini condenou à morte os traidores de seu regime. Hoje, abriga o Museu Cívico, com obras que cobrem um milênio da história artística italiana. Mas o maior apelo da construção está do lado de fora: a ponte Scaligero, que atravessa o rio Adige, é o primeiro grande cartão-postal do turista. A vista de lá poderia facilmente ser confundida com uma pintura. Fundamental gastar uns instantes contemplando a paisagem. Ao descer às ruas, é interessante observar outro elemento característico da arquitetura italiana: as portas – portais medievais localizados no meio da rua – dão uma aura cinematográfica ao transitar pela região. A Porta Borsari é uma das principais, e está no caminho da icônica Piazza delle Erbe.

  

Livremente traduzida como “praça das ervas”, a Erbe foi um antigo mercado – por isso o nome. Hoje, guarda algumas joias da escultura veronesa, como a Fontana di Madonna Verona e o Leone di San Marco. Além de tudo, é uma feirinha de artesanato cercada por bares e restaurantes, onde se pode almoçar do lado de fora, sentar para tomar um vinho, ou ao menos experimentar um clássico gelato italiano. As ruelas entre a Piazza delle Erbe e a Piazza Brà são repletas de lojas das grifes mais importantes e famosas do mundo. Uma ótima oportunidade para quem aprecia o turismo de compras. A Piazza Brà é a principal da cidade, onde fica a impressionante Arena di Verona – o terceiro maior anfiteatro da Itália (atrás apenas do Coliseo e do Anfiteatro di Capua), e o mais bem preservado. Construído na primeira metade do século I, o monumento – que outrora foi palco das sanguinolentas lutas de gladiadores – hoje recepciona belíssimos festivais de ópera e música instrumental em noites de primavera.

  

Mas o ponto preferido e ansiado por todo turista de Verona é mesmo a Casa di Giulietta. Por ser o ponto mais requisitado da cidade, o fluxo de pessoas é muito intenso – principalmente do lado de fora, onde se encontra sua estátua. Reza a lenda que Julieta é uma espécie de padroeira dos amores, então há uma série de rituais envolvendo sua representação – desde tocar o seio direito da escultura de bronze para ter sorte nos relacionamentos, até deixar um cadeado, ou bilhete com uma inscrição contendo o nome dos enamorados, ou outra mensagem romântica qualquer. De fato, para onde quer que se olhe dentro dos muros da casa, será possível ver corações e cartas de amor grafadas em post-its, tickets de trem, nas paredes e até mesmo em chicletes (!). Há ainda a tradição de enviar cartas à jovem e um grupo rotativo de mulheres trabalha voluntariamente para manter viva a magia dessa prática: as secretárias de Julieta, que se reúnem em um espaço praticamente desconhecido para responder às mais de cinco mil mensagens que a personagem recebe por ano – pedindo sorte para um amor conturbado, força para superar um luto ou, simplesmente, compartilhando um episódio de grande carga emocional. É possível se inscrever na internet para cumprir essa missão.

 A Casa de Julieta não é um programa para céticos nos assuntos do coração, nem para quem revira o olho para narrativas fantásticas, e isso é sabido. Mas, para além da construção mítica em torno da menina que morreu de paixão e punhal, o ponto turístico é também um importante museu, em mais de um sentido: além de preservar móveis de época e peças seculares de cerâmica, a casa de três andares guarda diversas obras visuais, entre pinturas e fotografias, que recontam a trama shakespeariana – além de intocados cenários e figurinos do clássico filme de Franco Zefirelli sobre o casal, lançado em 1968. Portanto, apreciadores de história, arte e cinema também terão algo para levar na memória do sobrado. Lá, também é possível tirar uma foto na famosa sacada em que Julieta suspirava por Romeu, assim como há computadores para enviar a ela uma carta virtual – e esperar por uma resposta, mesmo sabendo que virá das mãos de uma voluntária de qualquer idade ou nacionalidade, é parte da emoção envolta no processo.

  

 

Há, em Verona, assim como em quase toda a Itália, muitas igrejas suntuosas e importantes do ponto de vista arquitetônico. Para quem se interessa por turismo religioso, é possível procurar pacotes de passeio como o bilhete único Chiese Verona – que dá direito a visitar a Basílica di San Zeno Maggiore, Basílica di San Fermo, Duomo di Verona e Santa Anastácia. San Zeno é o lar de belíssimos afrescos e obras de arte sacra, além de conter a cripta que guarda as relíquias do padroeiro da cidade.  Santa Anastácia, por sua vez, retém a atenção por suas colunas de mármore branco e vermelho, numa harmonização arquitetônica de  tirar o fôlego. Fora desse percurso, ainda tem a inesquecível Igreja de San Matteo – que, de tão badalada, virou um elegante restaurante onde vale muito a pena jantar a dois.  Seguindo o mesmo raciocínio do Chiese, o Verona Card também é um modelo de passe turístico, vendido online, que permite o acesso a diversas atrações da cidade – e mais a utilização do transporte público, o que é bom para visitar pontos longe do centro. Há duas versões: o passe de 24 horas, que custa 18 euros, ou o passe de 48 horas, que custa 22. O tempo passa a contar a partir da primeira entrada em um dos pontos conveniados.

 Um pouco fora da rota do circuito principal, um dos mais belos jardins renascentistas da Europa está a quinze minutos de caminhada rumo ao outro lado do rio. O paisagismo geométrico do Giardino Giusti, cercado por ciprestes e repleto de fontes e esculturas, é um lugar que merece atenção. Projetado em 1570 por Agostino Giusti, o jardim público é um respiro verde pelo qual já passearam nomes como Goethe e Mozart. Um passeio pelo labirinto envolve uma sentimental lenda italiana: os amantes que conseguem se encontrar no meio do emaranhado de alamedas estão destinados a ficar juntos para sempre.

 

 

 De volta ao centro, não muito longe da praça principal, na via Arche Scaligere, é possível passar pela frente do casarão da família Montecchio, onde Romeu supostamente viveu. O lugar não é aberto à visitação, tendo apenas uma placa de mármore – quase invisível, por conta de uma infinidade de pichações e rabiscos – com um trecho do primeiro ato da peça de Shakespeare como indicador. A existência deste marco, porém, levanta outra discussão, que ajuda a reforçar o encantamento em torno da obra: não é de todo impossível que Romeu e Julieta tenham sido pessoas reais. As pistas que conduzem a essa ideia são difusas. Por exemplo, a primeira edição impressa da peça conta que a história já havia sido encenada antes. Giralomo Della Corte, poeta italiano contemporâneo de Shakespeare, atribui o drama a um episódio verídico, ocorrido na Verona dos anos 1300. Famílias chamadas Montecchi e Capelletti existiram de fato – e são citadas n’”A Divina Comédia” de Dante Alighieri como exemplos de rivalidade política e comercial. O historiador Olin Moore ainda aponta a possibilidade de os nomes das duas famiglias serem, na verdade, uma metáfora para dois importantes partidos políticos rivais italianos. Tudo isso faz cogitar que, de repente, dois jovens, ao se verem impedidos pelas circunstâncias de viver o amor em sua plenitude, decidiram mergulhar na certeza de um romance meteórico que lhes custou a vida – e lhes deu não apenas a eternidade, mas uma belíssima cidade para celebrá-los. 


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