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Quase lá

 
No fim da infância quase foi campeão de natação, único esporte em que teve desempenho razoável. Num dia qualquer, a caminho da aula, veio o amor. As braçadas foram esquecidas por abraços e beijos desajeitados, os primeiros. Um idílio curto finalizado por bilhete dramático dela quando o papel ainda existia. Tentou voltar às raias. Sem sucesso. Desistiu do sonho da Olimpíada.
 
O heroísmo da adolescência quase o levou ao altar. Não como noivo, mas padre. Era a febre das missões de vagar pelo mundo a fazer caridade e zelar pela fé. Sobrepuseram ao espírito novos amores e o corpo e a necessidade de usar o corpo para compreender o mundo. Não combinou coisa com coisa.
 
A barba despontava quando descobriu o teatro. E subiu aos palcos, sem jeito nem talento, onde fez rir e chorar e alguns amigos. Desta feita não foi o coração que o empurrou à incompletude, mas o estômago vazio da vida mambembe. Trocou a fantasia pelo uniforme da realidade dura como pão de anteontem.
 
Seguiu nas tentativas: ambulante, vendedor de sapatos, empilhador de caixas, aprendiz de alfaiate, feirante, mágico de festa, cambista de ingressos no Mangueirão, babá de cachorro. Quase, quase, quase.
 
Quase porque acreditava que cada condição era transitória. Algo adiante o esperava. Ou, no passado, sabe lá. Um dia acertaria o alvo.
 
Esforçou-se mais. Até descolar um diploma e chegar às firmas – palavra adorada por emanar algo seguro, constante. Ainda assim, lá estava o quase, escondido: era quase satisfeito com as posições que galgava a cada ano, pontuadas por tapinhas nas costas. Entre um quase e outro, virou executivo.
 
Estava com gordo saldo positivo no banco quando casou-se, outro dos muitos quases, pois por pouco não permaneceu solteiro o resto da vida por não saber dividir os sonhos, a mesa, a cama, tampouco o banheiro. Minúcias que a mulher, tempos depois, enumerou com crueldade ao pedir o divórcio.
 
Questionava a própria vida por trás dos óculos atrás da mesa de vice-presidente do lugar que ele detestava sem admitir. Pensou em se abrir à secretária, a quem nutria afeto sincero. Quase falou, porém. Quase irreconhecível embaixo das rugas e da calvície, concluiu que seria inútil: a aposentadoria estava na porta.
 
Num domingo, depois da insônia, proclamou a si que aproveitaria o tempo restante de imediato. Seguiria o instinto e redescobriria seu lugar, agora sem amarra alguma. Na segunda, anunciou a saída sem aviso prévio e tumultuou a firma – palavra agora detestada por soar a ele como prisão.
Voltou para casa, aliviado, quase feliz.
 
Sozinho, concluiu que, em tempo algum, houve alternativa a não ser seguir a corrente de acontecimentos ao longo da vida. A única integralidade conquistada foi esperar ansioso o próximo quase que o livrava do anterior ainda que deixando metades estragadas pelo caminho.
 
Cerrou os olhos. Esteve a ponto de chorar, no entanto, resignou-se diante do acúmulo inútil da vida. Num suspiro, entre livre e arrependido, inaugurou uma quase tristeza que perdurou o dia todo e entrou pela noite.

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