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Projeto Agenor, canções de Cazuza

A música do Cazuza sempre foi a que apontou pra liberdade. Um dos primeiros artistas brasileiros a assumir tão francamente a situação de soropositivo, Agenor de Miranda Araújo Neto, aos 32 anos, já tinha, quando morreu, uma história marcante na música brasileira, sobretudo naquela cena impulsionadora do chamado “rocknacional”.

O “poeta do rock” fez o que quis na vida e na música, o amor, a loucura, o remorso, o país, o comportamento, são alguns dos seus temas. Como artista da liberdade, trafegou sem dificuldade pelo samba tradicional do Rio de Janeiro, pelo pop e por temas melosos (com cara de novela). Talvez por isso, tenha sido gravado por muitos outros cantores da mpb que não são ligados ao rock, como Ângela Maria, Luiz Melodia ou João Gilberto.

Cantor da contradição – e não da tradição – Cazuza abriu caminhos e deixou o rockbrasileiro um pouco mais tropical, com imagens de um país que se democratizava, enfrentava crises econômicas agudas após a farra dos governos militares e começava a se pensar com mais maturidade. Tudo com muita idiossincrasia, coragem, crítica e força.

Com tantos caminhos abertos é natural que Cazuza seja sempre lembrado em tributos e regravações. É no ensejo de mostrar o poeta para novas e antigas gerações, num formato de absoluta liberdade de criação, com artistas do mercado independente brasileiro, que o DJ Zé Pedro idealizou o “Projeto Agenor – Canções de Cazuza”, lançado pelo selo “Joia Moderna” que mostra músicas pouco conhecidas do artista. A ideia de Zé Pedro era dar total autonomia para as criações, chegando assim em versões improváveis da obra de Cazuza, e assim foi.

Assim foi que Wado, SILVA, Kassin, China, Do Amor, Domênico, Mombojó e muitos outros, além de mim (para minha alegria), fizeram versões com excessos de pessoalidade, “despersonificando” o “Cazuza clássico”, mantendo basicamente aquilo que lhe é mais essencial, a saber, as letras. O projeto teve curadoria da jornalista Lorena Calábria, capa de Omar Salomão e foi gravado, em geral, em estúdios pequenos.

Foi exibido no Multishow, pouco antes do Rock in Rioprestar sua homenagem ao Cazuza, um documentário do “projeto Agenor”, mostrando o processo de criação e gravação das faixas, além de comentários dos artistas. O disco está disponível para downloadgratuito na internet.

Lírico, inquieto e exagerado, Cazuza marcou uma época e será sempre revisitado, gerando surpresas e bons sustos, com uma obra irregular, mas vasta, intensa e atemporal. Agenor apostou todas as fichas “por um segundo mais feliz”. A poesia venceu, já que o poeta romântico é aquele que sempre aposta pra perder.


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