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Profissão: Youtuber

Eles divertem, revoltam, emocionam, inspiram, ditam comportamentos e influenciam mesmo sem querer, mostrando que a TV não é o único meio para se projetar para o sucesso

 


O Brasil possui 4 entre os 10 youtubers mais influentes do mundo, segundo pesquisa realizada em junho deste ano pela Snack Intelligence. O índice mediu a taxa de poder de influência do criador de conteúdo sobre a audiência da plataforma, envolvendo dados como engajamento, visualizações, número de inscritos, frequência de publicação, atividade do canal, entre outros. São eles, Felipe Castanhari, Felipe Neto, Kéfera Buchmann e o piauiense Whindersson Nunes, que figura no segundo lugar da lista, com mais de 12 milhões de inscritos e um carisma imensurável.
s ídolos do século XXI não vêm da literatura, do cinema ou da televisão. Agora eles surgem no YouTube, plataforma da qual pouco se sabia até alguns anos atrás. São pessoas comuns que ganham status de celebridade por falarem abertamente sobre suas vidas, contarem piadas, fazerem experiências científicas, aconselharem, reclamarem ou, simplesmente, por serem elas mesmas diante das câmeras.

“Eu sempre fui o mais engraçado da turma, acho que já tinha isso comigo desde pequeno”, conta o ex-estagiário de um laboratório de informática, que quando tinha tempo livre gravava vídeos aleatórios, sem saber que isso um dia o projetaria para a fama. “Estourei quando eu postei o "Vó tô reprovado", uma paródia da música do Israel Novaes. Eu nem imaginava que a internet podia dar todo esse ibope”, revela.

Em seu canal, Whindersson conta piadas com cenas do seu dia a dia, faz resenhas de grandes sucessos do cinema, como A Bruxa de Blair e Esquadrão Suicida, além das paródias de videoclipes. A mais acessada é a da música Hello, de Adele, com mais de 36 milhões de visualizações. Um humorista nato que traz em seu DNA a simplicidade e o carisma de sua região. “O nordestino é engraçado por essência e eu sempre gostei dessa vertente”, conta, reforçando que nunca sofreu nenhum tipo de preconceito, só coisas boas.   

O sucesso na internet foi tanto, que Whindersson passa a maior parte do tempo viajando pelo Brasil por conta da agenda de shows. Seus vídeos são sempre gravados em cenários diferentes, a maioria quartos de hotel por onde passa. Os assuntos vêm naturalmente, o que chama atenção naquele momento. E o processo de produção é simples, envolve somente o youtuber, uma câmera e o computador. “Sai tudo de uma vez, depois eu só edito de uma maneira que fique mais interessante para quem assiste. Eu sempre editei e pretendo continuar, acho que isso é também um dos segredos do sucesso”.      

Talvez o que o faz Whindersson ser tão querido seja o fato dele não abordar assuntos polêmicos. Por exemplo, nunca fala de política. Prefere manter assuntos leves, diferente de outros youtubers. A curitibana Kéfera Buchmann é um exemplo disso. Dona de uma espontaneidade invejada, ela não tem problemas em se expor e falar o que pensa. Os erros de gravação, por exemplo, são parte importante nos vídeos.

De vez em quando se envolve em discussões sobre assuntos delicados, como racismo e homofobia, mas sempre tem uma resposta na ponta da língua. Em um de seus vídeos, Kéfera aborda o título dado pela imprensa de “voz da nova geração”. Ela faz questão de dizer que não é exemplo para ninguém e que seu canal é de entretenimento e nada além disso. “Eu acho que colocam um peso muito grande na gente (youtubers). Eu acho que ser influente na mídia e ser um formador de opinião é muito vago. Uma das coisas me que criticam é: mas o que a Kéfera ensina? Como assim, a voz da nova geração? O que ela tem para dizer de importante? Nada, gente! Eu não sou professora. (...) A minha função aqui no YouTube é entreter”.

Tanto é que, com mais de 9 milhões de inscritos, seu canal, o 5incominutos, aborda o dia a dia da atriz, paródias musicais, esquetes, diários de viagens e muita interpretação. A fama rendeu a Kéfera a oportunidade de estrelar, junto com a também famosa cadela Vilma, seu primeiro longa-metragem. “É fada”, produzido por Daniel Filho e dirigido por Cris D’Amato, é inspirado no livro “Uma fada veio me visitar”, da escritora Thalita Rebouças, e conta a história de Geraldine (Kéfera), uma fada tagarela e muito atrapalhada que vai ajudar Júlia (Klara Castanho) nos dilemas adolescentes, entre eles, como se adaptar à nova escola.

“Este é meu primeiro longa-metragem e fiquei surpresa com a quantidade de gente no set! A Cris (D’Amato) foi uma mãezona para mim, me acolheu e teve muita paciência comigo. E o Daniel (Filho) é superquerido. Cada dica dele te deixa pensando ‘Uau, meu Deus, como ele é incrível, sabe muito o que tá fazendo!’ (risos)”, comenta Kéfera.

 

Muito além dos frames  

Quem também foi projetado do mundo virtual para a vida real foi o paranaense Pedro Afonso Rezende, mais conhecido como RezendeEvil, numa alusão ao game Resident Evil, uma de suas paixões. O aspirante a jogador de futebol morou na Itália onde jogava profissionalmente e um dia teve uma ideia. “Tudo começou quando precisava passar de fase em um jogo de videogame e acabei entrando na Internet para buscar ajuda. Foi então que descobri um canal, que mostrava como eu deveria fazer, aí achei legal isso. Gostei da ideia e pensei em ter um canal meu”, conta.

O caminho para o sucesso foi natural. Rezende não estava muito satisfeito com a vida na Itália e durante as férias no Brasil resolveu se dedicar 100% ao canal. “Eu me dediquei muito, estudei e comecei a produzir conteúdo com muita regularidade, isso foi fortalecendo o RezendeEvil e quando me dei conta já estava dando certo”, revela.

O canal possui hoje quase 9,5 milhões de inscritos e se divide entre as experiências com amoebas (aquelas gelecas que a criançada adora), relatos de sua vida pessoal e as divertidas narrativas com base em fases do game Minecraft. Os temas são definidos pelo próprio youtuber, que se diz sempre atento ao que pode virar tema. “Às vezes é um assunto que está em alta ou uma série que assisti e me despertou algo, algo que aconteceu no meu dia, enfim, a inspiração aparece (risos)”. A gravação, na maioria das vezes, vai de improviso, mas sempre seguindo um norte. “Eu gosto de me preparar, sempre que possível ter um roteiro, mesmo que na gravação tenha muito improviso”.

A experiência de contar histórias rendeu, além de um espetáculo para o teatro intitulado “Paraíso”, a publicação de dois livros, escritos em parceria com o pai. “Quando comecei a desenvolver essas histórias, meu pai achou legal e me deu a ideia de escrever alguma coisa. Aí bolamos algumas histórias juntos. Uma delas chamou atenção de uma editora, e assim nasceu “Dois mundos, um herói”, que já tem mais dois volumes encaminhados, o “De Volta ao Jogo”, lançado no início deste ano, e o terceiro que sai até o final do ano”, relata.

O sucesso do youtuber é tanto que na Bienal Internacional do Livro de São Paulo, ocorrida entre agosto e setembro, Rezende foi uma das atrações principais. Sua apresentação reuniu milhares de crianças e jovens eufóricos por ver de perto o ídolo virtual. “Foi muito legal participar da Bienal, confesso que não me imaginava sendo uma das atrações, mas foi uma experiência muito boa”.

 

Educação e entretenimento

Quem também esteve presente na Bienal do Livro, arrancou aplausos efusivos e distribuiu muitos autógrafos foi o casal Iberê Thenório e Mariana Fulfaro. Eles estão à frente do Manual do Mundo, canal que encanta crianças, jovens e adultos com experiências científicas, invenções e ajuda para as tarefas do dia a dia. Uma espécie de Mundo de Beakman e X-Tudo da nova geração. 

“Criamos o canal quando viemos morar em São Paulo. Lá em Piedade, no interior, as pessoas não chamavam ninguém para fazer as coisas, não tinha como trocar um pneu, uma tomada. Daí em São Paulo percebemos que o pessoal ficava a vida toda dependendo dos outros para fazer essas coisas. Foi quando, em 2008, resolvemos criar um site dando dicas bacanas para casa e algumas experiências não tão úteis, mas engraçadas e legais de fazer”, conta Iberê.

E não demorou muito para que estourasse no YouTube, em 2012, quando o casal resolveu largar os seus empregos de jornalista (Iberê) e terapeuta ocupacional (Mariana) para trabalhar exclusivamente para o canal. “Montamos escritório, contratamos pessoas para trabalhar com a gente. Já tínhamos uns 100 mil inscritos, uns 3 ou 4 milhões de views por mês. Já era um canal grande quando a gente resolveu que dava para viver só disso”, relata Iberê.

Hoje, o Manual do Mundo tem sua própria produtora com mais ou menos 15 pessoas trabalhando. “É a dinâmica de uma produtora mesmo, mas a gente coordena tudo”, reforça Mari. As pautas são definidas pela equipe com ajuda dos fãs, tudo feito de maneira profissional. “Esse processo de criar os vídeos é bem coletivo. A gente pesquisa em livro e também temos aulas. Toda quinta-feira um professor de física que vem aqui nos ajudar na explicação das experiências”.

O profissionalismo rendeu frutos fora da rede. O Manual do Mundo possui um livro de experiências publicado e este ano lançará mais dois, um deles voltado para experiências gastronômicas. O casal também gravou um especial para o canal Cartoon Network e montou uma loja virtual (www.aexperiencia.com) na qual vende vários itens educativos e materiais para realizar as experiências propostas.

“A gente gosta muito de fazer produtos cada vez maiores. Temos uma série que chama “Boravê”, que visita lugares em que as pessoas não podem entrar. Já conseguimos entrar na NASA, fazer um vídeo na Disney. Esse é um projeto que queremos consolidar, ir bem longe”, planeja Iberê, reforçando que sair da internet não está nos planos do Manual do Mundo. “Sempre tivemos convite para a televisão, mas gostamos muito do YouTube. Foi o lugar em que a gente deu muito certo e não compensa você deixar uma experiência tão boa para arriscar em uma coisa muito fechada como a televisão”.

 

 

Texto Celso

Estou eu de frente a uma pergunta delicada, até capciosa: o que faz uma empresa ou um profissional ter sucesso? Bem, a princípio devo afirmar que se tivesse essa resposta poderia estar agora numa praia caribenha degustando aperitivos, administrando minhas contas em off shores e bancos suíços pelo smartphone e me deliciando com as resenhas entusiasmadas do meu último livro de sucesso. No entanto estou aqui de frente pro meu computador buscando respostas nessa imensidão branca do papel e do vazio na minha mente. Mas, como acredito mais na transpiração do que na inspiração vamos trabalhar e tentar escrever algo que faça sentido.

Acho que já cheguei assim na primeira regra de sucesso: trabalho árduo e incessante. Mas isso todo mundo já sabe e o que, além disso, faz o sucesso de uma empresa? Well, carregar pedras pode ser considerado trabalho árduo e incessante, mas nem eu nem você devemos conhecer ninguém que tenha feito sucesso carregando pedras. Então trabalho contínuo é necessário, mas não suficiente. Lições de matemática do ensino fundamental e, como a matemática ensina, a lógica deve prevalecer. Assim devemos descobrir o menor caminho entre dois pontos, uma reta, claro. Isso significa o menor esforço para o maior benefício, racionalidade, fazer mais com menos. Está colocado em qualquer manual de administração ou economia e isso significa uma palavra que poucos entendem e que diretamente reflete a diferença entre os países, empresa e pessoas bem-sucedidas e aqueles que ainda buscam a excelência: produtividade.

Chegamos assim à segunda regra: fazer mais com menos. Estamos evoluindo, mas bem longe de explicar o sucesso. Quero lembrar que não prometi fórmulas, então se você espera uma solução definitiva para seus problemas é melhor ir numa livraria na seção de autoajuda e procurar algo por lá. Trabalho duro, produtividade, mas se não souber o que o mercado demanda você pode montar uma empresa que fabrica máquina de escrever com excelente qualidade, baixo custo e que não vende nada. Ler e interpretar cenários, esse é o maior desafio para um profissional ou empresa. O mercado é um ente dinâmico que muda constantemente e que se você não o decifra ele te devora, é a Esfinge da Modernidade.

Só que essa constante mutação, a imensa quantidade de variáveis, a maneira por vezes delicada e sutil como se relacionam geram inúmeros caminhos, infinitas possibilidades e aí nos colocamos num dilema: qual caminho escolher? Chegamos então à terceira regra: fazer escolhas acertadas. Ora, agora enrolou. A primeira regra é fácil de entender e explicar, trabalhar muito. A segunda segue os princípios da matemática, fazer mais com menos, é mais complicada, mas ainda dá pra entender usando o bom senso. Mas essa terceira parece brincadeira, fazer a escolha certa. E qual é a certa? Elementar meu caro Watson, a escolha certa é a que deu certo. Ora e como vou saber antes que essa escolha dará certo?

Lamento responder que só saberá depois de tentar esse caminho. Com a ajuda da experiência, da leitura dos cenários, da posse de vários indicadores e do bom senso sabemos que alguns caminhos nos levam ao Lobo Mau (a Chapeuzinho Vermelho com sua inexperiência infantil não sabia) e estes evitamos, diminuindo custos e tempo (lembram-se da segunda regra?). No entanto, depois de eliminar milhares de opções óbvias ainda restam algumas que parecem promissoras, qual seguir? Nesse momento entra em cena um elemento esotérico, a intuição.


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