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Precisa-se de clientes. Sempre.

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Não sou muito de escrever, mas não poderia deixar passar esse momento único em que pude vivenciar uma das maiores lições de marketing. Como é sabido pela maioria que me conhece, uma das coisas que mais gosto de fazer é viajar, seja a trabalho, seja em férias. É vendo o que acontece além do nosso horizonte que podemos ter referências e na medida do possível associar ou adaptar para nosso dia a dia, inclusive profissionalmente.

Em outubro do ano passado fiz uma viagem para a Europa e como não poderia ser diferente, comecei por Portugal - que é nossa terra mãe nos costumes e na língua. Portugal para mim, com todo o respeito pelos do sul, é o do norte, o de Guimarães, Barcelos, Braga, Coimbra, todas essas cidades capitaneadas pela Cidade do Porto, aquela do famoso vinho e do bacalhau. Se você quer conhecer Portugal, comece pelo Porto. Não é a toa que é considerada patrimônio cultural mundial pela UNESCO.

Toda vez que lá estou, procuro estacionar o carro na parte alta da cidade velha, bem junto a Torre dos Clérigos, que além de igreja é um dos belos conjuntos arquitetônicos da cidade. De lá venho descendo, ou melhor, serpenteando as ruas e vielas em direção à Ribeira, que é como o próprio nome diz (na beira do rio), passando pelos prédios de azulejos azuis (vem daí o nome azul-ejo), os belos cafés tradicionais (o mais bonito chama-se “A Brasileira”), a estação de trem São Bento e assim por diante. Em cada parada, um café, umas castanhas portuguesas assadas nas esquinas e, se estiver muito frio, um gentil gole de bagaceira. Tudo isso coroado com um bom bacalhau acompanhado por um vinho verde, bem na beira do Rio Douro, a famosa já citada Ribeira. Isso foi sempre o meu programa preferido até essa última viagem. A partir de agora serei obrigado a incluir mais uma viela em meu roteiro e vou explicar por quê.

Nessa última viagem, desviei da rota tradicional para mostrar a um amigo que nos acompanhava uma igreja toda em azulejos portugueses e nessa hora me atrapalhei com as ruas e, mesmo perdido (mas sabendo que para baixo todo santo ajuda), decidi manter o rumo. A rua era de comércio secundário, tipo Sete de Setembro, nunca uma João Alfredo, que lá ainda se mantém igual a nossa saudosa e popular passarela do centro comercial. Loja vai, loja vem, as mulheres sempre para trás em busca de um regalo, uma promoção, e estou eu uma quadra na frente, doido para chegar à Ribeira, quando vejo uma pequena camisaria com uma placa em papel cartolina pregada em sua vitrine. A mensagem é a melhor lição de vendas que alguém poderia me dar nesse momento. Simples, direta, humilde. Eu poderia ficar horas escolhendo adjetivos para essa frase, mas dificilmente conseguiria expressar toda a força que a mesma produz. O texto é composto de apenas três palavras: PRECISA-SE DE CLIENTES. Se ele diz que precisa de clientes, eu é que não preciso dizer mais nada.

A gente fica inventando teorias, estudos, pesquisas e o diabo a quatro para se comunicar com nossos consumidores. Gera produções mirabolantes, sorteios e premiações milionárias e aí vem um cara com um pedaço de cartolina, uma fita dupla-face e faz muito melhor que tudo isso, simplesmente porque declarou sua dependência, seu respeito e reconhecimento ao cliente. Do jeito que a gente faz para a mulher amada: uma declaração de amor. Simples. Não precisa dizer mais nada.

Uma coisa engraçada em tudo isso, e que vocês poderão ver na foto mais abaixo, é o nome da loja: “O Barulhão”. Tenho que admitir que o sujeito sabe como fazer barulho com elegância.

Como fiquei fazendo fotos e babando a loja, o dono no seu retorno ao estabelecimento e percebendo minha admiração, foi ao meu encontro e convidou-me a entrar. A loja estava bem arrumada, sortida em produtos e penso que os preços também estavam bons. Enfim, ele não passava por nenhuma dificuldade nos negócios que o obrigava a estampar a placa pedindo por clientes. Aliás, ele não estava pedindo para alguém comprar. Estava apenas dizendo que o negócio dele precisa de clientes. Isso é que é respeito.

Devo muito para esse senhor. Não tenho como pagar, a não ser visitando-o com mais freqüência. Mas, se ele pedisse para eu completar a frase, eu o faria acrescentando uma única palavra ao final, deixando-a assim:

PRECISA-SE DE CLIENTES. SEMPRE.

    


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