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Porque acreditar é fundamental

 
O ano era 1996. Dezembro. Dia dez. A lembrança, quase dezenove anos depois, permanece intacta, inalterada. Uma artéria explodiu dentro do cérebro da neurocientista americana Jill Taylor. E o que ocorreu naquele momento mudaria sua própria história, além de influenciar incontáveis narrativas similares ao redor do mundo.
 
Mas me permita voltar um pouco no tempo.
 
Taylor é neuroanatomista e o diagnóstico de esquizofrenia do irmão mais novo foi determinante para definir a área de atuação dela. “Se eu tinha sonhos e podia conectá-los, de modo a torná-los realidade, por que meu irmão não conseguiria?”, declarou. Foi a partir daí que ela se aprofundou nos estudos sobre o cérebro humano.
 
Por isso, na manhã daquele dia 10 de dezembro de 1996, ela decidiu (ou seu cérebro decidiu por ela) que viveria a experiência de um AVC. Ela observava ma-ra-vi-lha-da o silêncio que ecoava do lado direito de sua cabeça, ao mesmo tempo em que o lado esquerdo (que regula o método e aspectos analíticos) a alertava a procurar ajuda. Pegou as chaves de casa, entrou no carro determinada a dirigir até o hospital, quando percebeu que o lado direito paralisara. “Uau, isso é tão legal! Estou tendo um AVC! Quantos neurocientistas têm a oportunidade e o privilégio de ter um AVC e estudar seus impactos de dentro para fora?”
 
Se você ficou boquiaberto, sugiro que sente e respire, porque tem mais. Ela tentou usar o telefone, mas viu um aglomerado de símbolos que não faziam sentido. Depois de ligar para um colega de trabalho e ele não entender uma palavra do que ela dizia (e ela tampouco o compreendeu), a ambulância chegou. “Como um balão esvaziando, senti minha energia esgotar e meu espírito desistir. Naquele momento eu compreendi que não mais era a coreógrafa da minha própria vida”. “Ou os médicos me resgatarão e salvarão minha vida ou isto é o meu momento da ‘transição’”. E ela continua. “Acordei muito mais tarde e foi um choque perceber que eu ainda estava viva”.
 
Jill relata que paradoxalmente se sentiu mais viva; sua energia estava liberta, “como um gênio fora da garrafa”. “Lembro de ter pensado: não conseguirei colocar esse meu eu, enorme e expansivo, dentro do meu pequenino corpo”. E foi quando ela concluiu: “se eu estou viva, se atingi meu nirvana, então qualquer um pode também!”
 
Ao se dar conta de quão abençoada aquela experiência tinha sido, ela o definiu como “um derrame de ideias na vida”. E foi essa força surreal que a motivou a se recuperar. Duas semanas após esse episódio, Jill foi finalmente operada e o coágulo, “do tamanho de uma bola de baseball e que pressionava a minha área da linguagem”, foi retirado. Foram oito anos de recuperação que deixaram marcas muito mais profundas que a enorme cicatriz do lado esquerda da cabeça. “Nós somos a força motora do universo: temos o poder de decidir, a cada momento, quem somos e o como queremos ser”. 
 
Naturalmente que a experiência alterou completamente o modo como Jill via [e vivia] a vida, mas ela foi além e lançou um livro [“A cientista que curou seu próprio cérebro”] e, de quebra, ainda foi escolhida pela revista “Time” como uma das cem pessoas mais influentes do mundo, em 2008.
 
A palestra motivacional de Jill Taylor no TEDx caiu “por acidente” nas mãos dos médico Alfredo Coelho, que ficou tão impressionado que foi atrás do máximo de mais relatos dela sobre o ocorrido.
 
Energias conectadas
Estava tudo planejado. A dois dias do próprio aniversário, em setembro, tudo transcorria normalmente na vida do médico Alfredo Coelho. Na noite do dia 21 daquele mês, ele acordou e ao tentar levantar, o teto “girou” e ele caiu. Tentou se reerguer e caiu novamente. No chão,  percebeu que seu lado direito inteiro estava paralisado. Usou o lado esquerdo para se levantar do chão e conseguiu chegar à porta do quarto para chamar a mãe. Ao tentar chamá-la, a voz não saiu. Foi quando o médico “juntou as peças” e concluiu que estava tendo um AVC. A mãe veio ao encontro do filho e sugeriu que fossem imediatamente ao hospital, ao que o próprio Alfredo Coelho reagiu, com gestos manuais, que não iria a lugar algum. Inspirado pela neurocientista Jill Taylor, Alfredo Coelho decidiu que viveria, com a intensidade exigida, seu acidente vascular cerebral.
 
 
Interrompo a narrativa e pergunto a ele se ele tinha consciência de que podia ter morrido ali e ele tranquilamente responde que “a única certeza que ele tem é de que um dia ele vai morrer”, mas que foi uma opção vivenciar com calma a experiência do AVC.
 
Já internado, no quarto e sendo submetido a inúmeros exames, Alfredo pediu que o amigo colocasse o vídeo do TEDx de Jill Taylor para revê-lo. Neste meio tempo, saiu o resultado do exame: uma bactéria havia se instalado no cérebro e havia “comido” uma área significativa de seu hemisfério esquerdo: a que regulava a fala e os movimentos.
 
Se a essa altura Alfredo Coelho não havia se desesperado, ele recebeu a notícia com muita tranquilidade. “Lorena – ele me conta –, já tive dores de cabeça muito mais insuportáveis que o próprio AVC”. E sorri. “Decidi vencer o AVC e suas sequelas e após ouvir o médico dizer que levaria quase dois anos para uma plena recuperação, eu determinei que voltaria a trabalhar em um mês. Em 15 dias estava na academia – até porque o exercício físico é fundamental à plena recuperação de qualquer estado alterado – e no começo do 29º dia, eu estava sentando aqui, na cadeira do meu consultório e com o dia tomado de consultas com meus pacientes”.
 
Alfredo Coelho tem 41 anos e há 15 anos adotou um estilo de alimentação radical: sem açúcar, sem glúten, sem carnes e zero bebidas alcoólicas. E foi seu estilo de vida que o tornou o “paciente ideal”, segundo o médico que lhe atendera no Hospital Albert Einstein. “Não me considero melhor que ninguém e não estou contando essa história para impressionar, mas quero que todos saibam que é possível, sim, curar-se por meio de um rigoroso controle de seus hábitos e a constante observação do organismo”.
 
Curando o incurável
O diagnóstico de Esclerose Múltipla, síndrome autoimune e, mesmo assim, mal sobre o qual a ciência pouco sabe, veio quando Laura ainda tinha 23 anos. Arquiteta de formação, exercia a profissão com alegria [embora, confessadamente, não fosse nada excepcional] e vivia uma crise no casamento. Melhor falando: sabia que o casamento estava acabando, mas temia isso e preferia não encarar a realidade.
 
 
O corpo começou a mandar sinais em meio a esse cenário. Num primeiro momento, a visão periférica estava turva, borrada.
“Era o ano de 2006. Um dia, ao acordar, notei algo estranho. A visão periférica do meu olho esquerdo estava completamente borrada. Foi o primeiro sinal, e sem que eu sequer imaginasse, uma dolorosa saga teve início. Oftalmologistas, neurologistas, clínicos, exames, ressonâncias, tomografias… Em três meses minha vida transformou-se em visitas a laboratórios e consultórios médicos. E minha saúde só piorava. O que começou como um desconforto no olho esquerdo logo ampliou-se para a perda de visão periférica dos dois olhos. Os sintomas se sucediam: sentia câimbras que podiam durar de duas a três horas seguidas, dormências pelo corpo, sensações de choque, ardência e tremor interno, rigidez dos membros, às vezes falta de reflexos, falta de coordenação motora e confusão mental.
 
Se em alguns dias o quadro era assustador, em outros dias, simplesmente não sentia nada. Vivia no descompasso da surpresa: um novo sintoma aparecia enquanto um outro estranhamente desaparecia. Buscava médicos ansiando uma resposta, mas ninguém dizia nada. Restringiam-se a prescrever doses cavalares de corticoides, mas nada explicavam. Após muita investigação, dores, desconfortos, finalmente uma médica apontou indícios de uma doença desmielinizante do sistema nervoso: esclerose múltipla”.
 
Laura conta que, diante dessa dura realidade, entrou em completo desespero. 
 
“Era como uma sentença: chorei muito, mas não me entreguei. Sabia que não podia enfrentar tudo isso sozinha. Em plena crise conjugal, ajoelhei-me diante do meu marido e pedi que me ajudasse, que naquele momento não fosse embora, não me abandonasse. Num gesto de grande nobreza, Marcus colocou seus sonhos, desejos e crenças de lado e aceitou ficar comigo. Mais do que isso, tomou as rédeas da situação e começou a pesquisar, pela internet, pessoas e alternativas que pudessem me salvar. Como os médicos não chegavam a um diagnóstico preciso, e percebendo que os tratamentos prescritos eram meros paliativos, e não ofereciam a possibilidade de cura, Marcus começou uma busca incessante de  tratamentos mais eficazes e com chances reais de melhora. Entrou em contato com profissionais no mundo inteiro, e foi da Índia que tivemos a resposta mais alentadora: havia, sim, possibilidade de reverter meu quadro, mas a decisão deveria ser tomada logo. Conhecia a Índia, entendia um pouco daquela cultura, era um país que me fascinava. Mas nas condições físicas e emocionais que me encontrava, a perspectiva de uma viagem tão longa rumo ao desconhecido me aterrorizava. No entanto, aquela informação ficou bem guardada dentro de mim”.
 
E assim, deu início a uma peregrinação: de igrejas a centros espíritas. Dos médicos tradicionais aos terapeutas alternativos. O tempo passava e a saúde de Laura só deteriorava. 
 
“Uma fadiga tomava conta de mim e em muitos dos dias eu mal tinha forças para andar. Às vezes passava tardes deitada, levantando só para ir ao banheiro ou à cozinha. Câimbras noturnas me arrancavam do sono, me fazendo trincar os dentes de tanto desespero. Era uma sensação terrível, como se os músculos das pernas e dos braços estivessem se rasgando. As juntas estalavam, truncavam, por vezes me paralisando. Mas dentre todos os sintomas, o mais assustador era a perda da visão, que ameaçava a cada dia. O tempo não era meu aliado, e um dia uma médica, especializada em esclerose múltipla, foi incisiva: ‘Laura, não tem mais como adiar. Vamos para o hospital providenciar sua internação para dar início à pulsoterapia’. Eu sabia o que estava por trás dessa palavra. Pulsoterapia é a administração de altas doses de medicamentos num curto espaço de tempo. Na esclerose múltipla, ela se faz com corticoides. Esta possibilidade me alarmou. Temia os efeitos colaterais da medicação e temia mais ainda que, ao final, não houvesse nenhum resultado positivo. Ao medo profundo veio somar-se um desejo igualmente forte de cuidar de mim, de me curar. Fechei a porta do consultório, olhei para o Marcus e disse: ‘Vamos para a Índia’. Fomos imediatamente para a agência de viagem, compramos a passagem e em menos de 24 horas embarcamos rumo ao país”.
 
E foi aí que a vida dela se transformou: quando ela se encontrou com seu verdadeiro ser. E usa uma metáfora interessante: “eu era como uma verdadeira lagarta, em sua fase mais difícil, apertada, desesperadora, arrastando-me por caminhos tortuosos, limitada, achando que o mundo era apenas aquilo. Achava que passava por meus últimos momentos de vida, de sobrevivência, mas era apenas um intervalo forte e intenso que me transformaria”.
 
“O tratamento foi muito difícil, mas me entreguei de corpo e alma. Por mais que tudo aquilo fosse diferente da minha realidade, seguia todas, e no fundo sabia que aquilo era para sempre, que nunca mais seria a mesma pessoa. Massagens com óleos medicinais, limpezas intestinais intensas e diárias, com óleos ou chás de ervas se sucediam. A cada nova purgação sentia que, quanto mais meu corpo estava sendo limpo, mais minha alma ia se abrindo, se transformando.
 
Chorava horas e horas após as limpezas. Sentia emoções e sensações inimagináveis. Deparei-me com mágoas, rancores, dúvidas, alegrias, emoções muito escondidas, grudadas no meu ser. Pouco a pouco percebia o quão doente minha alma estava. Não era só o corpo físico, mas a mente e o espírito também precisavam daquela atenção e cuidado. A partir de um certo momento, já nem me dava conta das condições precárias do local. O poder transformador da Ayurveda tomava conta do meu ser. Foram 21 dias de internação. Recuperei completamente a visão, mas só passei a andar normalmente, com firmeza, depois de cerca de um ano e meio”.
 
A experiência também rendeu um livro. “Em busca da cura” relata a experiência da médica e foi escrito pelo ex-marido, Marcus Pessoa.
 
A Ciência redescobre a fé
Que a fé [ou acreditar que é possível] faz toda a diferença, há muito já sabemos. Uma crescente concepção de tratamento holístico tem influenciado profissionais da área médica a repensar a abordagem aos pacientes. Crença, prática religiosa e bons pensamentos são diferenciais poderosos em tratamentos. Jill, Coelho e Laura são exemplos de que quando se permite “sair da curva”, é possível visualizar que corpo físico e energético se misturam e passam a ser desassociáveis.

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