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Pontos de obsessão

"Artistas não costumam expressar seus próprios complexos psicológicos diretamente, mas eu adoto meus complexos e medos como temas. Fico aterrorizada só ao pensar que algo longo e feio como um falo me penetre e é por esse motivo que construo tantos falos. (...) Construo muitos e muitos deles e então continuo construindo, até que me enterro no processo".
 
As palavras acima são da mais importante artista japonesa contemporânea. Não, não é Yoko Ono. Embora mundialmente mais conhecida, Yoko até poderia ser a mais relevante, não fosse ela própria uma admiradora da extensa e diversa obra da artista visual Yayoi Kusama, conhecida como "a princesa das bolinhas". Já considerados a sua marca registrada, os famosos pontos estão presentes em praticamente todas as diferentes manifestações exploradas por Kusama ao longo de mais de seis décadas de carreira: pintura, desenho, colagem, estampa de tecido (usado nas roupas produzidas pela grife que leva o seu nome), escultura, instalação e vídeo. Até mesmo na época em que a artista promoveu manifestações artísticas menos convencionais, como os happenings, no auge da cultura hippie da efervescente Nova Iorque dos anos 1960 e 1970, elas estavam lá. As bolinhas coloridas eram pintadas sobre os corpos dos participantes, incluindo o da própria artista, em performances que, por vezes, abraçavam causas como o feminismo, a defesa dos homossexuais, do amor livre e da própria liberação sexual.

Nascida no ano de 1929 em Matsumoto, uma pacata província nos Alpes japoneses, a pouco mais de duzentos quilômetros de Tóquio, Yayoi Kusama vem de uma família burguesa tradicional muito conservadora. Seus pais eram proprietários de um viveiro de plantas na periferia da cidade e ela e seus três irmãos frequentavam a escola local. Ainda criança, logo demonstrou interesse pela pintura, mas o desejo de desenvolver sua habilidade foi abruptamente impedido pela mãe. Após muita insistência com a família, ela consegue entrar na Kyoto Escola Municipal de Artes e Ofícios, onde estuda segundo a técnica da pintura tradicional japonesa, de estilo formal e rigoroso - uma rigidez que ela detestava, mas que suportou até a conclusão do curso. A primeira reviravolta em sua carreira artística se dá em 1957. Influenciada por uma amiga, a norte-americana e também pintora Georgia O’Keeffe, a ir para a América e deixar o Japão pós-guerra, ela encheu sua mala com desenhos e rumou para os Estados Unidos. 
 
Em poucos meses, estava em Nova Iorque, o epicentro dos principais movimentos artísticos de vanguarda da época, que vieram a influenciar toda uma geração ao redor do mundo. Lá, Kusama teve contato com artistas renomados como Donald Judd, Claes Oldenburg e Andy Warhol, bebendo direto na fonte de estilos como a arte Pop e outras tendências que até hoje são observadas em sua obra, como o minimalismo e o surrealismo, embora nenhuma delas possa limitar o estilo autêntico que a artista alcançou. Foi especialmente a partir do contato com a subcultura nova-ioquina que seu trabalho assumiu outros formatos e ela experimentou ir além dos desenhos e da pintura, até o ponto em que a contemplação de sua arte passou a exigir um envolvimento físico do expectador. Apesar da identificação do trabalho da japonesa com a Pop Art, ela, de certa forma, foi impedida de ter sua imagem vinculada ao núcleo da arte Pop americana, por questões de raça e gênero. E nesse contexto, ela era tão "dona das bolinhas" quanto Andy Warhol era o detentor das latas de Sopa Campbell.

Segundo explicam Philip Larratt-Smith e Frances Morris, os curadores da mostra "Obsessão Infinita", a primeira retrospectiva da artista a ser apresentada na América Latina e que passou pelo país, recentemente, pelas cidades do Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo, "a prática pictórica de Kusama deu lugar a esculturas flexíveis conhecidas como 'Acumulações': objetos de uso diário como bolsas, cadeiras, escadas de mão e sapatos cobertos com elementos de pelúcia semelhantes a falos (a chamada série 'Obsessão Sexual') ou com massa seca (série 'Obsessão por Comida')", escrevem no folder da mostra. Ao entrar em contato com a cultura norte-americana, a artista teria expressado algumas reações negativas ao estilo de vida local, desenvolvendo repulsa àquela sociedade no que se refere às atitudes liberais dos Estados Unidos em relação ao sexo, o consumo excessivo do mundo ocidental e a cultura do fast food.  
É também nesse período que Kusama dá início aos estudos que mais tarde originariam os seus "ambiente-instalações" ou "instalações de ambiente", em que a artista cria uma ambiência, dentro de um espaço físico restrito, provocando no visitante sensações muito parecidas com as que ela relata ter, em suas alucinações - ela chegou a ser diagnosticada, em 1961, por um psicanalista freudiano com transtorno obsessivo compulsivo (TOC), passando a se interessar pelo assunto desde então e a creditar o desvio à educação repressora que recebera da família e em especial à relação conflituosa com a mãe.

Não demoraria para que Kusama manifestasse uma forma de arte ainda mais particular, que surge de seus transtornos, medos, traumas e de suas visões alucinatórias. As bolinhas que pontuam seus trabalhos, ora monocromáticas, ora coloridas e até mesmo fluorescentes, seriam uma representação dessas visões perturbadoras que atormentam sua mente desde a infância, e que ela reproduz obsessivamente, como "forma de se acalmar", segundo afirma, e de conectar o seu universo interior à infinitude do cosmos. "Quando eu estava desenhando, os padrões iam se expandindo tanto que iam pra fora da tela, para preencher o chão e a parede. Então, quando eu olhava pra longe, via uma alucinação e ficava envolvida por essa visão. E foi assim que me tornei uma artista do espaço", descreveu.

Curiosamente, a excentricidade de Kusama atraiu os mais diversos públicos e caiu no gosto popular. Isso pode ser interpretado pelo expressivo número de visitantes em suas exposições. Só no Brasil, a passagem da mostra "Obsessão Infinita" recebeu um público de 750 mil pessoas, no CCBB Rio de Janeiro; 470 mil, no CCBB de Brasília; e 523 mil, no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, batendo um recorde de visitação neste último. Outro fator que reforça essa tese é o conhecido apelo comercial de Kusama nos mercados de moda. Em meados dos anos 1960, ela já era dona da própria grife e, em 2012, fez uma parceria de sucesso de com a cobiçada Louis Vuitton, desenvolvendo uma coleção exclusiva de acessórios para a marca - que logo se esgotaram das vitrines.

Aos 85 anos, a artista vive hoje em uma clínica psiquiátrica em Tóquio, onde se internou voluntariamente em 1977, após retornar ao seu país, com problemas de saúde.  Lá, ela recebe os mesmo cuidados que os doentes mentais e toma remédios diariamente - "exceto quando estou pintando", observou Kusama, em entrevista a um jornal do Rio de Janeiro, por ocasião da passagem de sua exposição pela cidade. A uma curta distância do hospital, está o seu estúdio, onde ela ainda produz, rotineiramente.
 
Yayoi Kusama no Brasil
 
Com mais de 100 peças desenvolvidas entre os anos 1950 e 2013, incluindo pinturas, obras em papel, esculturas, vídeos, slides e instalações, a exposição "Obsessão Infinita" fez um levantamento em profundidade da trajetória da mais proeminente artista japonesa viva. Entre suas obras mais famosas e que mais despertam a atenção em suas exposições mundo afora estão, certamente, as chamadas "instalações de ambientes", espaços concebidos com o intuito de forjar as visões alucinatórias da artista ou, ainda, provocar o egocentrismo, afirmar o feminismo ou se aproximar da ideia de infinitude do universo. Se o trabalho de Kusama está notadamente quase sempre ligado às suas questões psicológicas, esses mesmos conflitos internos receberam da artista uma abordagem totalmente inovadora, conforme defendem os curadores da mostra. "O caráter psicológico pronunciado de sua obra sempre foi acompanhado por uma série de inovações formais e reinvenções que lhe permitem partilhar sua visão singular com um público amplo por meio de um espaço infinitamente espelhado e das bolinhas obsessivamente repetidas pelas quais se destaca".

Na sala "Espelho infinito - Campo de falos" (Infinity Mirror Room - Phalli's Field), obra de 1965, umas das primeiras do tipo "instalação de ambiente", a artista utiliza um tecido com estampas de bolinhas vermelhas sobre fundo branco, estofado, moldado e costurado em formato de falos. Espelhos revestem as paredes e ampliam o horizonte do observador. A sensação é de se estar imerso em um campo infinito, mergulhado nos objetos fálicos, com bolinhas vermelhas. Ainda segundo os curadores da mostra, essa obra provoca uma experiência sensorial que recria a realidade psíquica interior de Kusama. "Esta envolvente instalação, de que o espectador também participa, expressa os vetores psíquicos gêmeos do narcisismo e castração que dão à arte de Kusama sua especificidade patológica".

Já a instalação "Sala espelhada ao infinito - Repleto de brilho da vida" (Infinity Mirrored Room - Filled with the Brilliance of Life), data de 2011, e explora ainda mais a sensação de estar diante do infinito. Trata-se de um espaço quase labiríntico, também formado por espelhos que revestem as paredes, mas iluminado com lâmpadas de led, que alternam de cor em intervalos de segundos. Os pontos se multiplicam nos espelhos laterais e refletem em parte do piso, coberto com água. É como estar envolvido em um sem-número de partículas coloridas e cintilantes que, à certa altura, se apagam e provocam o breu completo. A sensação de vivenciar algo muito próximo do que se descreve na teoria do Big Ben não é mera coincidência.  

Em "Estou aqui, mas nada" (I'm Here, but Nothing), concebida entre os anos de 2010 e 2013, Kusama apresenta uma sala de estar aparentemente normal: tem-se uma mesa, cadeiras, sofás, poltrona e televisão. Um cenário doméstico corriqueiro de qualquer família de classe-média, não fosse a presença de inúmeras polka dots coloridas (como são chamadas as bolinhas que seguem um padrão, tendo um espaço idêntico entre elas). Adesivos de vinil e lâmpadas fluorescentes ultravioleta incidem sobre os objetos domésticos.  Nesse ambiente em que os moradores estão misteriosamente ausentes, experimenta-se uma momentânea desorientação espacial, que vai de sensações alucinógenas ao sentimento de alívio e conforto familiar.

Em 1966, Kusama participa pela primeira vez da tradicional Bienal de Veneza. Um detalhe: ela não havia sido convidada. Vestida com um kimono dourado, apresentou cladestinamente e ao ar livre, sua instalação Jardim de Narciso (Narcissus Garden), que evoca o mito de Narciso. Composta por cerca de 1.500 esferas de metal espelhadas, em que o observador pode enxergar o reflexo de sua própria imagem e uma irônica placa explicativa: "Seu narcisismo à venda", em um gramado do lado de fora do pavilhão onde acontecia o evento. Kusama atraiu o público ao seu "tapete cinético", como denominou a obra, e passou a oferecer cada uma das esferas pelo valor equivalente a dois dólares. Não demorou para que a organização do evento interrompesse sua participação extra-oficial, retirando-a dali. Ela voltaria ao evento 27 anos mais tarde, desta vez como artista convidada.

Hoje, é possível observar uma versão dessa mesma obra no Brasil. O Instituto Inhotim, no município de Brumadinho (Minas Gerais), abriga uma "réplica" de Narcisus Garden. Localizadas no Centro Educativo Burle Marx, dentro do instituto, as 500 esferas de aço flutuam sobre um espelho d%u2019água, mudando de direção de acordo com o sentido dos ventos, e funcionam como espelhos convexos que distorcem e multiplicam a imagem de quem as contempla.
 

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