REVISTA

Peter Pans

Quando completei 40 anos, estava um tanto melancólico, quando meu pai veio, me parabenizou e me ouviu lamentar que eu havia entrado na “casa dos enta”, de onde não mais sairia... enfim, que estava ficando velho. Ele sorriu e fez um comentário que nunca esqueci: “quando tinha 40 anos, eu era tão novo”. Dez anos depois, escrevi uma crônica que iniciava comentando um ato que todos nós ( a maioria ) geralmente fazemos depois de acordar: ficar de frente para o espelho. Nós, homens, para fazermos a barba.

Naquele dia, ao contrário de passar o barbeador quase de forma mecânica nos pontos cardeais do rosto, decidi me encarar. Percebi as rugas, os músculos flácidos, algumas cicatrizes, pelos brancos nas sobrancelhas e assustados dois olhos daquele que vive dentro do meu corpo, querendo negar o que viam. Como fazer 50 anos se este ser que me habita acredita não ter mais do que 25, às vezes 12... dependendo da circunstância (vá lá), 18? Como fazer? O tempo passou e recentemente subi mais um degrau na direção dos 60 anos. O susto é o mesmo. Teimo em não me reconhecer. Não estou só nesse barco. É toda uma geração. Todos nós que nascemos ali na década de 50 e invadimos os anos 60, com a revolução de costumes, anos 70 de paz & amor, entramos no ano 2000 e nos recusamos a ser tratados como anciãos. E as mulheres? Elas queimaram sutiãs e hoje disputam com as filhas as minissaias, biquínis e roupas de academia, botoxes, silicones, para seguir na liça. O mercado consumidor agradece. Acabaram as divisões entre jovens e adultos. “Somos todos jovens e não se fala mais nisso”. Isso gerou alguns conflitos, mas, na ânsia de parecer uns caras bacanas, temos de ouvir algumas sandices. Os garotos ouvem em duas horas a obra inteira de um Grateful Dead e vêm discutir conosco, como profundos conhecedores. Assistem aos tapes de Zico e vêm achar que Messi é melhor. No reflexo, seguramos aquele grito de indignação que sobe pela garganta. Comentar que comprou desde o primeiro disco de Hendrix ou que assistiu sete vezes seguidas, no Olímpia, o filme “Woodstock”, pode causar má impressão. “Pô, tio, tu é ‘véio, mermo’, hein”? Os filhos, ao contrário de nós, que fugimos de casa bem cedo para enfrentar a vida, experimentar de tudo – principalmente a liberdade – agora não querem deixar o conforto, água, comida, luz, telefone, internet, canais a cabo, seu próprio quarto onde dormem com as namoradas. E fazem todos parte de uma grande turma que cada vez mais se entende, uma emprestando à outra o que tem de melhor. O problema é o que acontecerá daqui para a frente. Até quando seremos jovens? A Medicina, que já alongou bastante a média de vida, alongará ainda mais? Será que, com 80 anos, continuarei a gostar de rock’n’roll, ou o que de novo estiver tocando? Vestindo-me como hoje, jogando meu futebol, vivendo como hoje? Aos 80, malhando, jogando, consumindo. E a aparência? Ficarei ridículo? E sem abrir espaço para as novas gerações, pois nos recusamos a envelhecer. Haverá lugar para todos? E o consumo? Imagino, em julho, como será ir a Salinas ou Mosqueiro. Melhor acampar nas praias, pois se é difícil ir, pior ainda é retornar. E como Prefeitura e Governo do Estado, como de hábito, vivem brigando em detrimento de seus representados, imagino como ficarão Almirante Barroso e a Augusto Montenegro nos horários de pique. E nos aposentaremos, claro, mas continuaremos trabalhando. Por que me retirar se estou vivendo plenamente, trabalhando, produzindo? Hoje, o difícil é parar, sair do circo, botar um pijama, ficar em casa, longe do burburinho do mundo. Do ruído. É tanta coisa acontecendo!

Vai ser preciso arranjar emprego para todos. A cada dia, uma enxurrada de jovens se forma em várias especialidades. Nossa geração formou péssimos políticos. Tomara que essa garotada faça melhor. E quem nos dará de comer? De beber? Vai ser bem difícil pedir pra parar, parou. Quando, enfim, desistiremos? Quando será o momento de cair fora, descoberta a cura do câncer, o grande vilão. Quando? Bem, quem sabe, neste momento, qualquer que seja, façamos uma grande festa e no convívio da família, dos amigos, ouvindo as músicas preferidas, os filmes, livros, beijamos os queridos e acionamos um “power off” e saímos em grande estilo.

É o mundo dos Peter Pans, onde ninguém     envelhecerá!


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