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Pequenos gestos, grandes mudanças

Cidadania. Uma palavra muito usada, mas ainda pouco praticada no cotidiano. Sempre reclamamos do que não é feito para melhorar a convivência na nossa sociedade, mas o que fazemos para mudar isso? Afinal, a nossa cidade é a extensão natural da nossa casa, e se cuidamos bem do nosso lar, é preciso também cuidar do lugar onde vivemos.

É o que prega a Organização Não Governamental (ONG) No Olhar, que há sete anos trabalha com a Educação Ambiental na nossa cidade. Para Marcos Wilson, coordenador da ONG, é preciso mudar apenas do conceito para a atitude prática. “O que queremos é mostrar para as pessoas que fazer uma ação é melhor do que ler e não colocar em prática”, explica. Wilson diz que a prática tem que começar com uma primeira atitude. “Esse despertar só fará sentido agora a pessoa entender que o processo atual tem falhas. E não adianta só culpar o poder público”.

Uma das maneiras de perceber as falhas atuais está no processamento do lixo produzido na capital. Belém produz aproximadamente duas mil toneladas de lixo por dia. A maior parte desses resíduos tem como destino o lixão do Aurá. Daí, a importância de mudar esse jogo. “Os resíduos sólidos não são só lixo, têm que ser tratados”, lembra o coordenador. “Precisamos resgatar a política nacional de resíduos sólidos e começar a entender esse processo”, complementa.

A ONG mesmo possui duas estações de coleta seletiva na cidade hoje (e pretende instalar mais dez) e ainda instrui condomínios sobre coleta seletiva. “Coleta seletiva não é bicho de 7 cabeças. É preciso estabelecer uma consciência coletiva, formar multiplicadores”, diz Wilson. “Oitenta por cento de tudo que compramos no supermercado pode ser reaproveitado. A coleta seletiva e a reciclagem ajudam a limpar a cidade e gerar renda para cooperativas”.

 

Lixo eletrônico

Wilson também cita como responsabilidade das pessoas cuidar de todo o lixo eletrônico que é produzido. “Geralmente, o lixo eletrônico não é visto como lixo. A gente guarda em gavetas, porões, quartos. Considera um bem a ser guardado. E quando vê, está tudo acumulado. Imagina o mundo inteiro fazendo isso? A Terra é um compartimento fechado. Não existe um buraco negro para jogar isso. Vai acumular sempre e uma hora a sala enche”, alerta.

Mas, como descartar? Wilson explica que é preciso cuidados redobrados com esse descarte. “São produtos com elementos tóxicos. As lâmpadas fluorescentes, por exemplo, contêm mercúrio, que se acumula na natureza”, lembra. Mesmo assim, são poucas as empresas que fabricam esse produto que procuram fazer a destinação correta para eles. “É preciso fiscalizar essas empresas e cobrar. Ver se elas têm uma política de descarte e reclamar se não tiver”.

Mas, ainda dá tempo de mudar esse quadro. Primeiro, é de vital importância começar a preparar aqueles que vão tomar conta da cidade daqui a alguns anos: nossos filhos. “A gente sempre diz: conscientize uma criança e ela educará um adulto”, reitera Wilson. “Todos os projetos envolvem crianças por causa disso. “Educar é criar um ambiente social de fiscalização.” Ele lembra ainda que os jovens também têm um papel fiscalizador. “As mídias sociais têm um papel importante. É ali que eles mostram sua fiscalização, reproduzem as boas práticas. É o poder da juventude demonstrado pelo computador. A internet é um bom espaço para buscar informações, sobre coleta, sobre economia, energia e outros”

 

O primeiro passo

Há quatro anos, os empresários Ana Paula Alcântara e Cassius Martins decidiram montar um grande salão de beleza. Mas, não era um local qualquer. Todo ele teria que ser construído pensando em sustentabilidade. “No início do projeto, a gente pensou em aproveitar todo o ambiente para ser sustentável”, explica Ana Paula. “Pesquisamos o máximo que podíamos sobre como apostar em um conceito sustentável. Assim, nós investimos em luz natural, reaproveitamento da água e acessibilidade, por exemplo”.

Hoje, com o salão principal sempre lotado, o belo e confortável prédio guarda uma série de exemplos sobre como contribuir para melhorar o ambiente urbano. A água da chuva, por exemplo, é guardada e usada para lavar o estacionamento e o piso do salão. Um olhar mais atento percebe que não é só isso. Todo os 650 metros quadrados de piso do salão são feitos de madeira reciclada, assim como todas as portas de acesso. Até mesmo as mesas dos escritórios são diferentes. São portas que foram reaproveitadas e ganharam uma nova função, mais estética e correta.

E o sol é a principal fonte de luz do local. O ambiente principal é todo cercado de grandes janelas de vidro. Por ali, a luz solar é companhia constante e “invade” o espaço, gerando economia de energia com lâmpadas. “Além de todos os ambientes serem claros e abertos, queremos implementar placas de energia solar para aproveitar ainda mais a luz do sol”, garante a proprietária.

E não para aí. Clientes com dificuldades especiais se sentem em casa. “Aqui temos elevadores para deficientes e lavatórios especiais para eles. E temos banheiros que também foram adaptados”, descreve Ana Paula. Atendemos muitos maridos e esposas cadeirantes. Temos maridos mais idosos que fazem questão de acompanhar as esposas aqui, pois sabem que é fácil chegar aqui e ser bem atendido”.

Já Cassius cita outro bom exemplo dado por eles aos clientes. “A gente conversa com as clientes para informar que elas podem fazer doação de cabelo para a ONG das meninas e mulheres escalpeladas”. Ele se refere à Organização Não Governamental dos Ribeirinhos Vítimas de Acidentes de Motor (Orvam), que coleta cabelos femininos doados e os transforma em perucas para mulheres e meninas ribeirinhas vítimas de acidentes com motores de embarcações, que arrancam o couro cabeludo. Cassius diz que tudo isso partiu de iniciativas próprias. “Não existem campanhas e leis para incentivar questões sustentáveis. Nas escolas, não temos educação ambiental”, lembra. “A gente acredita que de grão em grão a gente pode melhorar a nossa cidade. Mas, o poder público precisa incentivar também”, diz. “Hoje temos 50 funcionários. Alguns não entendem ainda isso como uma coisa necessária, mas entendo que é uma questão de evolução, de conscientização, educação e informação”, complementa Ana Paula.


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