REVISTA

Pequenas notáveis

Texto: Carolina Menezes
Fotos: Dudu Maroja/Divulgação
 

No mês dedicado a elas, a LiV conheceu dois pequenos talentos – Maitê e Mel, que, a despeito de suas poucas idades, têm grandes talentos, potenciais e, sobretudo, o acompanhamento dos pais, atentos às fases e reais necessidades de suas crianças.

 

Foi o diabetes Tipo 1, descoberto ainda bem no início da vida, que levou a pequena Maitê Honda Eluan para o mundo das artes marciais, ainda aos três anos de idade. O que ela não imaginava é que aos dez anos recém completados, já seria faixa preta e reconhecida com várias premiações. “Percebemos que ela se sentia bem no karatê, ela evoluiu. Depois começaram a vir as medalhas, de forma muito natural. Mudar o foco das pessoas, que trocaram a imagem de criança diabética para criança karateca, foi um ganho muito importante”, reconhece o pai, Elizio Eluan, sem esconder o orgulho da atleta-mirim.

Maitê é o que se conhece popularmente por criança prodígio, por ter, ainda muito jovem, desenvolvido uma habilidade tão marcante ainda tão nova, que acabou por ingressar em uma rotina mais madura para dar conta de expressar e mesmo aprimorar o próprio talento. É também o caso de Mel Chaves, 14, representante paraense da edição 2018 do programa The Voice Kids, que viu sua rotina mudar completamente desde a participação no reality show da Rede Globo. “Foi bem difícil na época porque tinha que gravar, tinha sessão com fonoaudiólogo, escola, mas eu consegui manter tudo muito graças à minha mãe, que me ajuda demais nisso. Quando as notas caem, não tem jeito, eu dou mesmo uma pausa”, conta a cantora, que atualmente faz dupla com o conterrâneo Renan Andrade (que chegou a participar das audições na edição deste ano, mas não teve a cadeira virada pelos jurados).

De acordo com a terapeuta ocupacional Thais Cabral, não há problemas em estimular esses pequeninos a brilharem cada vez mais forte em suas capacidades tão precocemente detectadas. Contanto que, para começo de conversa, seja algo que lhes traga prazer e satisfação. E, sim, o cuidado para evitar o superestímulo deve ser uma constante. “Infância é o período de maior desenvolvimento do ser humano, por isso é necessário oferecer os estímulos adequados para um desenvolvimento neuropsicomotor adequado”, justifica. Dentre as principais ocupações, a profissional destaca o brincar como elemento fundamental, por ser uma proposta prazerosa na qual a criança experimenta diferentes contextos e situações. “Temos então o desenvolvimento motor, físico, emocional e social na situação lúdica”, reforça.

 

Conexão imediata

Maitê foi diagnosticada diabética com apenas um ano, mas só aos três começou a treinar, como já contamos. Conhecer o Mestre Yoshizo Machida, em uma aula ministrada em conjunto com um mestre japonês, foi o que transformou a menina em fã. Não demorou muito para que viesse a decisão de trocá-la de academia. “Coincidiu de ele voltar a dar aulas para crianças no mesmo ano em que ela entrou na academia. Vê-lo elogiar a Maitê, conversar, dar conselhos, bater papo, é uma honra imensa. Entendemos mais a fundo o sentido do karatê como filosofia de vida, não apenas como competição. E isso é mais importante do que qualquer medalha”, detalha Elizio.

O pai destaca a grande vantagem de perceber que a filha faz o que gosta. Está ali com prazer, treinando ou competindo, além de ser um fator importante para manter a qualidade de vida - motivo que fez os pais buscarem um esporte com o qual ela se identificasse. Há ainda o fato de aprender a lidar com derrotas e vitórias. “Ser persistente para alcançar sonhos também é um grande treino que o karatê dá para a vida, além de buscar ser melhor a cada dia”, reconhece o pai, admitindo, em paralelo, que gostaria que a filha tivesse mais tempo para o lazer.

“Não é que não aconteça, mas poderia ser mais frequente”, analisa. “Também há um certo amadurecimento precoce, que não sei se é uma vantagem ou desvantagem. Mas lidar com disciplina, treinos, regras, enfrentar pressão em campeonatos ou em exames de faixas, convivência com amigos que algumas vezes precisam ser adversários seus dentro do dojo [local onde se treinam artes marciais japonesas] e não levar isso para fora, são fatores que acabam acelerando um amadurecimento mental”, compreende.

Rápida ascensão

A mãe da Mel, Flávia Chaves, que trabalha como social media, sacou logo que a filhota tinha um gogó afinadíssimo, e a matriculou no Conservatório Carlos Gomes. Com dez anos, ela fez a primeira apresentação profissional. A chance no The Voice Kids parecia algo distante, mas da feita que a garota passou no primeiro teste, foi acumulando uma série de aprovações, até deixar o programa em uma das batalhas entre os concorrentes.  

“Foi tão engraçado quando começou, porque, para mim, cantar nunca deixou de ser um hobby. Lembro que tinha uns 11, 12 anos e eu cantava em uma hamburgueria e amava: ganhava para cantar e depois ainda ganhava um sanduíche! Eu ficava feliz demais, achava o máximo!”, diverte-se, lembrando. Em cada pontuada que Mel dá à própria trajetória, sempre lembra do apoio de Flávia como imprescindível para tornar tudo o mais natural possível - bem como da terapeuta e do coach com os quais passou a contar de uns tempos para cá.

“Além de cantar ela faz participações em eventos, e eu fico muito em cima para saber que se ela quer mesmo e deixo claro que tudo bem se ela não quiser. Coloco na frente sempre a preocupação de que ela viva bem todas as fases; estimulo que chame amigos para vir em casa. Gostei muito da parceria com o Renan, porque eles têm o mesmo estilo, mesma idade, são leves”, relata a mãe.

A terapeuta ocupacional corrobora a importância da atenção de Flávia em garantir que Mel não fique sobrecarregada, e cita que os estímulos em excesso podem desencadear episódios de ansiedade. “É balé, aula de reforço, inglês, escola, natação, isso traz uma cobrança grande. É preciso balancear o que é prazeroso, até que ponto não se torna cobrança para não desencadear um sentimento de ansiedade. A criança inserida em uma gama muito grande de estímulos desenvolve agitação psicomotora que pode repercutir no desenvolvimento emocional e às vezes até no cognitivo. A falta de conhecimento dos pais, ainda que haja a boa vontade, pode render estímulos errados, inadequados e até regressão da habilidade”, alerta Thais. 


Comentário