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REVISTA

Pantagruel veio jantar

Abertas as urnas, definidos os vencedores, encerra-se o jogo. As discussões ainda pululam nos bares, mas vão se esvaindo até nada mais sobrar. A vida volta ao normal. Assim como no esporte, alguns ganham, outros perdem, mas o jogo continua, os campeonatos se sucedem, as paixões se exaltam e se acomodam. Não importa se você é Remo ou Paysandu, se o vencedor foi A ou B, importa que quem ganhou vai representar Remo, Paysandu e todos os demais times.  
 
É nesse momento que devemos perguntar: o que podemos esperar de quem ganhou? A palavra mais repetida durante as eleições é mudança, mas paradoxalmente o que emergiu das urnas foi tudo, menos mudança. Acho que o ser humano tem um quê de bipolar: pensa de um modo e age de outro.
 
Afinal, confirmamos a tese política do “vamos mudar para que nada saia do lugar”. Já que tudo continua no lugar não temos o direito de esperar nenhuma mudança significativa, vamos ter mais do mesmo. Não que eu concorde que tudo deve mudar, aliás, sou mais conservador do que penso sobre mim mesmo. O que me incomoda é esse comportamento bipolar, ou se quer de fato mudança ou não se fala mais nisso.
 
Todos nós queremos mais segurança, emprego, saúde, educação de qualidade etc. Em um mundo utópico, um político deveria perguntar: quanto vocês estão dispostos a pagar por isso? Na nossa mísera realidade, todos diriam: nada. E esse político não ganharia eleição alguma. Se vamos num supermercado, pagamos os suprimentos; se vamos ao posto, pagamos pelo combustível; no restaurante, o jantar não é de graça, então, como esperar que um governo ofereça tudo de graça? 
 
Mas o atento leitor diria “ora, já pagamos impostos elevadíssimos”. De fato, temos uma carga tributária que leva mais de um terço de tudo que é produzido no país. No entanto, é insuficiente para todas as demandas. Mesmo se houver o argumento de que muito é desviado ou desperdiçado, ainda assim será insuficiente. Na realidade, queremos mais do que podemos. 
 
Numa máquina, medimos o rendimento que é a proporção entre a energia entregue e a energia consumida (lembram-se de Lavoisier? “nada se cria, tudo se transforma”). O Moto Contínuo, um mito tecnológico que não desperdiça nenhuma energia, não existe assim como o jantar de graça.
 
O fato é que o estado é uma máquina de baixo rendimento: consome muito e entrega pouco. Se fosse um equipamento industrial, já teria sido substituído, ainda mais numa época em que o mote da sustentabilidade é alardeado aos quatro ventos.  Então, a discussão deveria ser em torno do Estado e não dos candidatos.
 
Se queremos um estado mastodôntico com tentáculos em todos os setores, atuando em todos segmentos, sendo paternalista  e em tudo interferindo, estamos no caminho certo. Só precisamos aceitar pagar por isso e parar de reclamar toda vez que precisar de mais e mais impostos ou que surgir um novo escândalo. 
 
Se por outro lado entendermos que não estamos dispostos a pagar esse alto preço, não só da ineficiência como da corrupção intrínseca, então não deveríamos olhar para candidatos, mas para uma nova visão de Estado, menos opulento, mais sílfide e, com isso, aceitar que haverá menos interferência, menos salvadores da pátria e menos para quem reclamar.  Só que também implica menos benefícios, mais trabalho, menos proteção social. 
Milhares de questões estão implícitas nessa escolha, só não existe um estado onipresente, eficiente e de baixo custo, esse é um parente do Moto Contínuo e da Pedra Filosofal. A primeira questão é escolher o tamanho do estado que queremos. De que lado você está?

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