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Os Afro-Sambas de Baden e Vinícus

Vinícius de Moraes faria 100 anos em 2013. Por esse motivo, certamente,  haverá muitos shows e publicações em homenagem ao poeta nos próximos meses. Até então, já soube do espetáculo A Arca de Nóe, que foi realizado em Brasília e reuniu nomes como André Abujamra, Kiko Dinucci, Móveis Coloniais de Acaju, Théo Werneck e Mê, num tributo ao clássico infantil que o mestre criou na década de 80.

Diplomata, dramaturgo, jornalista, poeta e compositor brasileiro, Vinícius produziu uma obra densa, definitiva e inquieta. Dessa inquietudenasceu uma parceria das mais geniais na música brasileira, a com o violonista e compositor carioca Baden Powell. Esse encontro foi como uma liberação no contexto da Bossa Nova, aquela estética zona sul. Estamos diante de uma zona híbrida: banzo, reza, rosas, melancolia e risos, os afro-sambas. Açoites noturnos, notas concentradas de fé e belezas celestiais, nascidas no mundo simples do brasileiro comum: “pergunte pro seu Orixá, amor só é bom se doer...”

Caetano Veloso abre seu mais recentemente disco - o Abraçaço – afirmando: “a bossa-nova é f...$%#@”. Mas genial mesmo é Vinícius para além da bossa-nova, quando soma seu talento ao também genial Baden e, juntos, abrem um caminho até então único no Brasil, juntando a sofisticação técnica do violão de Baden e a poesia de Vinícius com todo vigor dos terreiros de umbanda que emergem das entranhas do Brasil. Estamos em 66. O disco tem arranjo do mestre Guerra Peixe.

Estamos em 2013. Tem gente criativa bebendo dessa fonte, a exemplo do compositor e músico paulistano Kiko Dinucci, um dos maiores do Brasil hoje, na minha opinião, e para quem o violão de Baden tem na sua “sujeira” e desleixo uma atmosfera comparável a um vigor punk. Com a afinação recorrente do bordão em Ré, Baden bebe em Dorival, mas sente a violência melancólica das matrizes africanas.

Vinícius é um dos maiores poetas líricos do Brasil em todos os tempos. Nos afro-sambas, minha paixão maior dentro da obra dele, vê-se golpes, tiros, paixões nervosas em noites de intranquilidade, Exu no máximo, labaredas infinitas. Baden e Vinícius, fogueira de agora e sempre.


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